Não, não temos meios suficientes para acudir este tipo de tragédias. Definitivamente, não. E há que levar em consideração, sempre, o pedido de socorro vindo das diversas entidades ligadas ao Serviço de Protecção Civil e Bombeiros .
Respeitando o anonimato, mas é seguro que, numa entrevista à Revista “O Bombeiro”, um comandante disse o seguinte: “Pretendemos ficar, 24/24 horas, numa sala de operações com todas as condições criadas (…). Temos estado a trabalhar no sentido de merecermos uma atenção mais privilegiada de quem de direito para que tenhamos tais condições humanas, técnicas e infra-estruturais criadas. Este centro de operações tem de ser implementado urgentemente a nível do Comando Provincial dos SPCB de Luanda, pois estamos a falar da necessidade da nossa intervenção num raio de acção onde vive cerca de um terço da população de todo o país.Estamos muito próximos de uma população de dez milhões de habitantes ( em Luanda)…É uma grande responsabilidade”, disse.
Na altura, o comandante provincial do SPCB referiu que o que é prioritário nos Serviços de Protecção Civil e Bombeiros a nível da província de Luanda é termos imediatamente um Serviço bem estruturado e tecnicamente bem equipado em termos de gestão das operações.
Enfim, em termos de Protecção Civil, toda uma série de desdobramentos e actividade eficaz para salvar, proteger a população diante de previsíveis tragédias , a capital do país não está ainda preparada.
Por: CM
A CHUVA NÃO MENTE
H
á muitos anos, a rubrica “Fala a verdade”, apresentada por Pátria Faria, enquanto jornalista, na Rádio Nacional de Angola (RNA), ensinava-nos uma coisa simples: a verdade pode até incomodar, mas nunca deixa de ser verdade.
E hoje, olhando para os 50 anos de independência de Angola, a chuva continua a cumprir esse papel com uma fidelidade impressionante. Ela cai e fala. O problema é que nós, ou pelo menos alguns, insistimos em fingir que não ouvimos.
A chuva do dia 11 de Abril em Luanda e Benguela, não disse nada de novo.
Apenas repetiu o que já vem sendo dito há décadas. Mostrou ruas alagadas, casas invadidas pela água, famílias em desespero. Mostrou, sobretudo, cidades que ainda vivem à mercê de algo que já devia estar controlado. Mas, como sempre, haverá quem tente suavizar, justificar, disfarçar. Como se a evidência pudesse ser escondida debaixo da água.
E é aqui que a metáfora se impõe com uma clareza quase dolorosa. Esta relação entre a cidade e quem a deve cuidar já parece aquelas relações amorosas desgastadas. A mulher apanha o homem em flagrante traição. Vê com os próprios olhos. Sente no corpo e na alma. Mas ele, com uma calma quase ofensiva, olha nos olhos dela e diz: “Não fiz nada.”
Sim… é exactamente isso.
A chuva é o flagrante. É a prova viva, escancarada, impossível de negar. Mas ainda assim, há sempre um discurso pronto para tentar transformar a verdade em outra coisa qualquer. Como se o problema não fosse estrutural.
Como se fosse apenas um acaso. Como se fosse normal viver assim.
E nós, no meio disso tudo, vamos vivendo essa relação. Uma relação que já perdeu a leveza há muito tempo. O homem não cuida. Não protege. Não antecipa. Apenas aparece depois, tenta remendar, promete mudar… e volta a falhar. E o mais duro é que já nem é preciso purrada para doer. O desgaste emocional, a repetição do abandono, já são suficientes para ferir.
É uma relação antiga, cansada, que se arrasta há décadas. Há quem já tenha perdido a esperança. Há quem continue a acreditar, talvez por necessidade, talvez por fé. E há também quem, no meio da dor, tente rir para não chorar. “É assim mesmo… “esse é o prubulema que tamo cuele”, uma expressão leve para carregar um peso enorme.
Mas a verdade é que não devia ser assim.
Uma cidade não pode continuar a tratar os seus como se fossem descartáveis. Não pode aceitar que, sempre que chove, haja quem perca tudo. Não pode normalizar o sofrimento. Porque quando a dor se torna rotina, algo está profundamente errado.
A chuva não mente. Nunca mentiu. Em 50 anos, ela tem sido uma das vozes mais sinceras que esta terra já ouviu. Cai, mostra e vai embora. Sem discursos, sem justificações, sem desculpas. Apenas revela.
E talvez esteja aí a maior lição. Não é a chuva que precisa de mudar. Somos nós. Porque enquanto continuarmos a negar o óbvio, a desculpar o injustificável e a adiar o necessário, vamos continuar presos nesta relação tóxica, onde a verdade aparece… e ainda assim é tratada como mentira.
Reflexão-Bom dia abençoado, nas Entre Linhas com Yara Simão



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