Sociedade

Angola UM “NÓ GÓRDIO” ENTRE O URBANISMO E O CRÉDITO IMOBILIÁRIO

Escrito por figurasnegocios

Obras caras, informalidade fundiária e uma infraestrura desfasada são os três factores que constituem o “nó górdio” com que Angola ainda está a debater-se para resolver o problema da crise habitacional, num país que, todavia, tem na sua juventude uma mão de obra resiliente e massa cinzenta suficiente para contornar as dificuldades actuais, pensando num futuro melhor. Vamos analisar o que de facto existe entre estes dois extremos: o urbanismo e o crédito imobiliário.

Hoje os dois travam-se mutuamente. Isso explica por que o défice é de 2,2 milhões de habitações dignas, mesmo com os bancos cheios de liquidez.

 

Os 3 gargalos estruturais na macroeconomia angolana

  1. Informalidade fundiária: 80% da propriedade não tem situação jurídica fundiária regularizada** Cidade cresce sem plano. Estado não cobra IP. Banco não tem colateral. Taxa de risco +8pp. $40-50 mil milhões USD de activos “mortos”. Não entram na economia;
  2. Obras caras- As empresas construtoras só fazem produtos de luxo, com margem alta. Prestação de crédito mensal para um imóvel de $100 mil vale aproximadamente $1.750/mês. Salário médio Luanda $600. Incidência do Crédito à habitação no PIB é de 0,8%. Estudo comparado mostram que na África do Sul é 25% do PIB;
  3. Infraestrutura defasada – Levar água/luz a novo bairro custa $8k/lote. Estado não tem. | Casa sem infraestruturas vale menos 50% de uma casa com infraestruturas. Banco financia máx 50% do valor. | Expansão urbana horizontal, insustentável. Custo de transporte mata produtividade.

 

Impacto macro: quanto Angola perde por não resolver isso

  1. PIB perdido: Banco Mundial estima que défice habitacional + informalidade tiram 2-3pp de crescimento/ano. São $2,5 a $3,6 mil milhões USD/ano que não circulam;
  2. Multiplicador travado: Cada $1 em construção gera $2,2 no PIB por cimento, emprego, móveis. Sem crédito, constrói-se 1/10 do potencial;
  3. Poupança improdutiva: Famílias guardam dólar em casa ou compram terreno sem título porque não confiam no banco. São $12-15 mil milhões fora do sistema;
  4. Comparação macro com países parecidos.

 

País Crédito habitação/PIB % urbano formal O que fizeram

  • Angola- 0,8% ~20%;
  • Marrocos – 18% 78% – Titulação massiva + Fundo garantia + taxa 4,5%;
  • Ruanda – 6% 65% – Registo digital 15 dias + banco estatal habitação;
  • Nigéria – 0,5% 30% – Mesmo problema que Angola;
  • África do Sul – 25% 85% Lei clara + securitização de crédito.

 

Leitura: Países que resolveram título + juro, dispararam. Os que não resolveram ficam presos abaixo de 1% do PIB.

 

As 3 alavancas macro que mudam o jogo em Angola

Para sair do ciclo vicioso, o Estado tem 3 botões. Só mexer em 1 não adianta.

  1. Choque de legalidade fundiária: Meta de 500 mil DUATs/ano por 4 anos. Custo: $80/DUAT. Retorno: $20 mil de activo bancarizável por família = $10 mil milhões em colateral novo.

 

  1. Taxa real negativa dirigida: BNA empresta a bancos a 5% para crédito habitação < $80k, 1ª casa, prazo 25 anos. Banco empresta a 7-9%. Custo fiscal < 0,5% PIB, impacto PIB +1,5%.
  2. Urbanizar para adensar: Em vez de centralidade a 30km, infraestruturar 50 mil lotes/ano em Viana, Cacuaco, Benfica a 10km do centro. Custo: $400 milhões/ano. Retorno: Estado poupa $1,2 mil milhões em transporte/estrada futura.

 

Bomba social: 70% da população < 30 anos. Sem casa, não casa. Pressão política sobe.

Fuga de capital: Classe média continua a comprar em Portugal/Dubai. $800 milhões/ano saem.

Custo cidade: Luanda horizontal gasta 3x mais em transporte, polícia, lixo. Insustentável fiscalmente.

 

Resumo macro em 2 frases:

Urbanismo dá ao banco o colateral. Crédito dá ao urbanismo o comprador. Angola hoje não tem nem um nem outro em escala. Por isso o mercado vale só $6-8 mil milhões quando devia valer $60 mil milhões.

O “gatilho” macro é político: ou o Estado banca título + taxa baixa por 5 anos para criar classe média proprietária, ou continua a gerir musseque + centralidade vazia por mais 20 anos.

Queres que eu modele o impacto fiscal se o Estado subsidiasse 5pp de juro para 100 mil famílias? Faça Poupanças e Investimentos!

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