Drones estão a definir a configuração da guerra no Leste da RDCongo. O cessar-fogo está comprometido e o processo de paz ameaçado. As forças armadas (FARDC) e a rebelião da coligação AFC/M23 ensaiam tácticas com auxílio da “inteligência” electrónica para o controlo das posições e ataques visando a conquista de novas zonas. Pelo menos trinta e uma investidas com drones registaram-se em trinta dias no mês de Fevereiro, segundo a rádio francesa RFI. Em Goma, território da AFC/M23, drones mataram três civis, entre os quais uma cidadã francesa ao serviço do UNICEF, gerando uma onda de protestos da população e reacções das potências ocidentais.
FARDC e o primeiro drone
da história
A
s Forças Armadas da RDCongo (FARDC) foram as primeiras a introduzir o drone na guerra, em 2023. Segundo a RFI, rádio francesa, o engenho terá sido adquirido à China. Tratam-se de noves dones CH-4 Rainbow concebidos para ataques e serviços de reconhecimento militar. Com um custo aproximado de 150 milhões de dólares, a sua capacidade operacional situa-se entre 3.500 a 5.000 quilómetros de alcance.
A fonte da RFI refere-se à renovação da frota, incluindo a aquisição de drones de origem turca, os TAI Anka e Bayraktar TB2. Efectivos congoleses terão sido enviados à Turquia para treinos.
A coligação rebelde AFC/M23 terá instalado um sistema de detecção de drones GPS e de mísseis terra-ar fornecido pelo seu aliado, o governo do Ruanda, país vizinho acusado de financiar e conceder apoio logístico aos insurrectos. Fala-se também de drones civis EOS encomendados à Estónia, de uso único, modificados para o serviço do reconhecimento, além dos de origem turca em posse da rebelião com capacidade operacional indo de 200 a 300 quilómetros.
De acordo com avaliações de especialistas, esses drones terão sido abatidos ou interceptados pelo exército governamental. São avaliados como sendo mais baratos e falíveis em termos de precisão quanto aos alvos.
O comentarista da RFI constata que a presença de drones na guerra da RDCongo promove a internacionalização do conflito. Para explicar a sua inferẽncia, aponta o facto de os contendores recorrerem e dependerem cada vez mais do fornecimento das potências estrangeiras, tais como a China e a Turquia. Outra ilação do articulista faz referência à ideia de que o novo equipamento no ar intensifica a guerra e demonstra os limites da diplomacia que procura alcançar um cessar-fogo.
AFC/M23 em posição
de fraqueza?
Drones estão a modificar a relação de forças, permitindo às FARDC retomar o domínio dos céus até pouco tempo controlado pela coligação rebelde, diz a RFI.
A baixa qualidade do sistema de interceptação em posse da AFC/M23 terá favorecido os planos do exército governamental, levando à intensificação de ataques ao campo do adversário.
Em Goma, província de Kivu-Norte, no Leste, a rebelião da AFC/M23 acusou “directamente o presidente Félix Tshisekedi”, responsabilizando-o pela morte de civis quando do ataque de drone que vitimou a funcionária francesa do UNICEF.
O movimento rebelde diz ter sido o ataque planeado para matar Corneille Nangaa, líder da AFC/M23, e Sultani Makenga, coordenador militar da coligação.
O governo do Ruanda, por intermédio do seu porta-voz Jean-Maurice Uwera, reagiu dizendo que os ataques de drones representavam uma ameaça às suas fronteiras.
As autoridades da RDCongo rejeitaram envolvimento no ataque que causou explosões, sublinhando os limites dos “valores” impostos às suas forças armadas, nomeadamente a “protecção de civis e do pessoal humanitário”.
O representante interino da missão da ONU (MONUSCO), Bruno Lemarquis, solicitou um inquérito na sequência da morte da funcionária do UNICEF.
Lemarquis alertou os contendores dizendo que ataques contra agentes da ONU podem constituir crimes de guerra.
A comissão da União Africana pronunciou-se também a favor de um inquérito independente para apuramento da verdade. Outra reacção proveio da administração norte-americana, com Donald Trump a pedir a reabertura do diálogo entre Kinshasa e Kigali. O departamento do Estado condenou os ataques com drones, apelando ao respeito dos compromissos de ambas as partes em conflito.
O presidente Emmanuel Macron, em mensagem à rede social X, falou de “apoio e emoção da Nação” francesa pela morte da cidadã Karine Buisset, vítima do ataque de drone em Goma.
Em Bruxelas, a antiga potência colonial afastou a ideia de que o ataque com drone em Goma tenha sido um “incidente isolado”. O Ministro dos Negócios Estrangeiros e vice-primeiro ministro, Maxime Prévôt, lembrou haver uma “multiplicação deste tipo de ataques, em violação do cessar-fogo, efectuados por todas as partes nos últimos tempos”.
O grupo de contacto sobre os Grandes Lagos denunciou recentemente a utilização de drones contra civis. O grupo de contacto integra delegados das diplomacias ocidentais.
O comissário europeu para a ajuda humanitária, Hadja Lahbib, que visitou Goma em Fevereiro, informou que uma parte dos agentes humanitários da União Europeia estava alojada nas instalações atingidas pelo ataque do drone.
Para o representante do Comité Internacional da Cruz Vermelha na RDC, François Moreillon, que se disse chocado, civis e pessoal humanitário não deveriam ser alvo de ataques.
Indignação: rebelião autoriza protestos
Nas ruas de Goma, habitantes marcharam em protesto, gritando dizeres como “Não queremos estes ataques”, reportou a rádio RFI.
O ataque verificou-se no bairro residencial de Himbi, onde também centenas de pessoas desfilaram.
Dísticos empunhados por manifestantes denunciaram ataques de “drones lançados contra a população da vila de Goma e também contra Masisi, Minembwe e Rubaiya”.



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