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Comboio Mala, essa relíquia do Caminho de Ferro de Benguela, não era só um meio de transporte, era quase uma história a andar sobre carris. Os mais velhos contam, com aquele brilho no olho, que era uma viagem de arrepiar, 1.401 km desde o Atlântico, no Lobito, até ao Luau, mesmo na fronteira com a República Democrática do Congo.
Dizem que não era só viagem era espectáculo. Um verdadeiro “ex-líbris” das chanas abertas, das montanhas, dos rios e riachos que iam desenhando o país. No Bié, por exemplo, nasce aquela linha de água tímida que depois vira o imponente Rio Kwanza como quem começa pequeno e cresce com o tempo, tal como Angola sonhou ser.
Eu nunca tive o privilégio de entrar nesse comboio, mas quem andou jura que aquilo era luxo à antiga. Carruagens inglesas, estilo vitoriano, madeira de carvalho polida, tudo no capricho. Camas confortáveis, lençóis cheirosos, luz suave e o embalo do “tak-tak, tak-tak” o som dos carris a provocar o sono. Primeiro a vapor, depois diesel mas sempre com aquela dignidade de quem sabe que carrega mais do que passageiros, carrega histórias.
Depois veio 1975, e o sonho começou a descarrilar. Com a independência e os conflitos armados, o caminho de ferro virou alvo. Parar o comboio era, para muitos, sinal de resistência, mas na prática, era cortar a veia que ligava o país de ponta a ponta.
Mesmo assim, aquilo ainda resistiu. Não por milagre, mas por causa dos homens. Gente de coragem, trabalhadores de ferro que não deixavam o Comboio Mala morrer fácil. Até aos anos 80, ainda se aguentava, teimoso como quem se recusa a desaparecer.
Eu lembro bem, eu e outros colegas, a atravessar o estaleiro das oficinas no bairro Compão, vindos do 28 a caminho do liceu no Lobito. O que víamos não se esquece, locomotivas destruídas, ferro retorcido e, às vezes, marcas de sangue. Era duro demais para miúdos, mas era a nossa realidade.
E no meio disso tudo, ainda havia vida. Muitas vezes víamos o comboio chegar ou partir da estação do Compão.
Sabíamos até quem ia no comando. Para mim, uma figura inesquecível, o tio Horácio Cumandala. Bastava ouvir a buzina aquele “puam puam puam” forte, quase a abafar as aulas e já sabíamos: é ele.
Nomes como Óscar Martins, Vasco Gomes, Horácio Cumandala, Eliseu Cumandala, Melo, Macedo, Salumbo,
Joaquim Bual, Domingos Pena Candondo, esses não são só nomes. São memória viva. São os homens que fizeram do Caminho de Ferro de Benguela muito mais do que trilhos fizeram dele um símbolo de desenvolvimento e de ligação entre povos.
Mas a guerra foi impiedosa. O som distante do comboio, que antes levava sonhos e trazia esperança, deu lugar ao silêncio ou pior, às explosões. Não foi fácil ver locomotivas destruídas, vidas perdidas, tudo reduzido a cinza.
O sonho virou tragédia.
E mesmo assim a memória ficou. Há qualquer coisa de poético naquele ferro que corta a terra. Cada estação guardava encontros, despedidas, promessas feitas ao pôr do sol. Gente que partia sem saber quando voltava, gente que regressava com o coração cheio.
O comboio passava e a vida também. Lembro também histórias bonitas de gente que vinha do Cuma, apanhava o comboio com o coração cheio de esperança, para encontrar nova morada no litoral de Benguela. Naquela correria típica da estiga, o meu amigo Zemanel embarcou no Marquês de Canaveses, vindo do Cuma até Benguela, numa viagem que era mais do que deslocação era mudança de vida. Kota Rodrigues Prata, ainda te lembras?
E outras, como quem foi dar aulas na Chicuma e encontrou ali um ano inesquecível, os jovens que partiram para a colheita do café. Em cada paragem, sempre havia vida, fruta fresca, artesanato, vendedores ambulantes. Aquilo era paragem obrigatória.
O comboio, muitas vezes cheio até não caber mais ninguém, era o retrato do povo, simples, lutador, carregado de sacos, cestas e esperança. Mais do que transporte, era ligação. Era família. Era futuro.
Mas também há memória. E enquanto houver memória, há esperança. O Comboio Mala já não apita, mas a saudade continua nos ouvidos de quem ouviu.
Porque o comboio passa, mas a lembrança fica.
E a saudade essa nunca perde o caminho de volta.
Por: Sampaio Júnior



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