Reportagem

NA ESPUMA DOS DIAS: NDAMBA MARIA, O DRAMA NUMA TARDE DE CALOR…

Ndambi Maria ou Ndamba Maria. Damba é a deturpação do vocábulo Umbundu ondamba que designa “uma depressão de terreno pantanoso onde frequentemente corre um riacho”. Damba poderá ser ainda deturpação da expressão em Umbundu “Ndambi” que quer dizer “beleza natural”, usado geralmente, para designar mulher detentora ou possuidora de uma grande beleza. Maria, como é sabido, é um nome feminino. Por Ndamba Maria é designado um local perto da Catumbela. Correspondendo a um apeadeiro do Caminho de Ferro de Benguela situado no km 27. O apeadeiro situa-se numa Ndamba, onde, segundo a literatura oral, terá ocorrido em tempos uma tragédia protagonizada por uma mulher de nome Maria.

A narrativa impressionante contada por Regedores e Soba de Benguela, e retida em prosa por Óscar Ribas (que recuperamos, colocando entre “…”), retrata aproximadamente o último quartel do século XIX: quer explicar a origem do nome do local, ainda hoje venerado pelas populações da Catumbela, Benguela e Lobito. O impressionante episódio narrado pela tradição oral: a respeito da indignação do homem branco pela companheira negra e à sua aspiração de volta à metrópole sem ela; […], e a respeito à relação do colono com a mulher negra e à retaliação do homem negro perante a atitude de submissão daquela ao colonizador.

“Maria é uma jovem trazida de uma aldeia do interior por um tio materno, seu ascendente na tradição matrilinear, vendendo-a em Catumbela que, no século XIX, era um centro de permuta de mercadorias entre comerciantes itinerantes (os funantes) ou representantes de casas comerciais estabelecidas no litoral (os aviados) e as populações africanas. A pitoresca vila da Katombela constituía grande mercado, aonde numerosas caravanas de negros, carregados de borracha, cera, marfim, mel e outros géneros gentílicos, acorriam na mira de permutar com os europeus […] ao senhor Manuel, um comerciante português, provavelmente como penhor de uma dívida, conforme era prática frequente”. “[…] submissa ao amo, por quem “nutria […] uma submissão canina” e a quem o seu corpo e vida […] pertenciam totalmente”, Maria altera o seu modo de vestir, substituindo a tanga por panos. Sendo a favorita de entre as escravas da casa, é ela quem substitui o amo nas suas ausências. Em certas ocasiões acompanha-o mesmo nas viagens, com o encargo de transportar muringue (bilha de água) para lhe matar a sede sempre que ele o deseja.

O drama dá-se numa tarde de calor em que, encontrando-se o senhor Manuel, em negócio na Catumbela, que distanciava alguns quilómetros da residência, um comerciante abastado bate-lhe à porta e suplica a Maria que lhe dê de beber. Trata-se de um comerciante negro. A escrava vai buscar o muringue, mas recusa-se a estender-lhe o copo do senhor Manuel alegando que “o copo é do branco e só ele pode beber por ele…” e humilha-o, sugerindo-lhe que beba pelo chapéu. Jurando vingar-se, o negro consegue que o senhor Manuel lhe venda Maria como escrava. O português inicialmente hesita, mas conclui que um dia, mais tarde ou mais cedo, voltará à sua terra e não está, de maneira nenhuma, disposto a levar Maria consigo. São elucidativos da mentalidade generalizada do colono, no que toca às mulheres negras com o mero objecto sexual, os motivos pelo qual o senhor Manuel acede à proposta, apresenta em discurso semi-directo: “Para que perderia tão boa ocasião? Por ser sua mulher? Não, ela não era sua mulher, mas uma simples serviçal. Depois, um dia voltava para a terra, e quem a pagaria por essa importância? […] O preto nasceu para ser escravo! É a sina da sua raça!”. O novo amo de Maria leva-a para a caça, a sua actividade favorita, e faz questão de levar também o muringue que pertencera ao senhor Manuel. Quando, durante uma pausa e sob um sol escaldante, Maria se apronta para lhe dar um copo de água, o negro recusa e responde-lhe com sarcasmo: “Não é preciso…Ontem, também bebi pelo chapéu…Já te não lembras? […] Cadela! […]. Ao menos desses-me água por uma lata!”. Maria tenta fugir através do mato, mas o homem, armado de uma espingarda, desfecha-lhe um tiro mortal, vindo a escrava a expirar no local que mais tarde virá a ser conhecido pelo nome de Ndamba Maria. Estamos juntos!

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