Recado Social

UM MINUTO DE SILÊNCIO: S.PEDRO NÃO PERDOA

Escrito por figurasnegocios

Por causa desta “praga de S.Pedro”, a memória fez-me recuar ao ano 2015. No Lobito, em consequência das fortes enxurradas ocorridas em Março daquele ano, morreram 70 pessoas. A cidade portuária acabava de mergulhar numa tragédia colectiva que, passados onze anos, continua a  deixar marcas profundas no tecido social de Benguela.

Quem viveu aqueles dias tempestuosos sabe do que fala e sente, ainda, o peso da força da natureza, especialmente as pessoas que, sem outro meio condigno para sobreviver, não tinham outras soluções prestadas e apoiadas, sempre, pelo Estado, que, como se sabe, devia ser, sim, “pessoa de bem” em todas as circunstâncias; com ou sem a presença daquele senhor Santo Pedro…

Lobito continua a rezar para que Ele jamais se lembre dele e faça das suas. E não o fez! Neste ano 2026, pelo menos até ao momento em que escrevemos estas linhas, Lobito não figura nas estatísticas negras motivadas pelas tempestades ocorridas um pouco por todo o país.

Rezemos que o número de mortes registado, calculado em cerca de 80, de Cabinda ao Cunene, não ultrapasse os dados fúnebres de 2015. Nós estivemos lá e vimos o que se tinha passado. Milhares sem abrigo, à procura daquilo que parecia essencial: um pedaço de tempo para que se fizessem os óbitos, num quadro de ajudas emergenciais estatais precárias em circunstâncias trágicas.

O Governo fez o possível para socorrer as vítimas desta calamidade, que se tornou efectivamente pública, no meio de uma massa crítica na altura muito activa. A população exigia que não se demorasse muito tempo para que o socorro surgisse a tempo e horas.

Enquanto isso, pedia-se , também, que a dita “sociedade civil”, incluindo a político-partidária, fizesse o seu papel, mas, como até os nossos avôs sabem, nestes momentos de “dor e luto”, apenas lamentam, através de comunicados que, aos olhos de quem sofre, não passam disso mesmo: manifestações de pesar algo circunstanciais, bastas vezes hipócritas, em suma , pouco impactantes para quem é apenas um simples “popular”, sem meios de subsistência de sobrevivência mesmo em condições normais, sem a presença das acções devastadoras do tal santo. Pequei? Asseguro que vou ser perdoado porque também sou filho de Deus…

O país todo devia estar de luto. Que se decrete luto nacional por pelo menos um dia ou, na pior das hipóteses, que se faça num dia mais próximo, um minuto de silêncio em homenagem às vítimas desta tragédia que trouxe  mais sofrimento para os menos favorecidos. Um minuto de reflexão, sim, para os que movem toda esta máquina gestora de calamidades públicas sazonais, mas previsíveis.

Um minutozito de silêncio para que os membros das administrações do Estado,  da Assembleia Nacional e os  empresários milionários (milhares dos quais  sobrevivem à custa do Estado, sem medo de aumentarem o preço da chamada “cesta básica” dos pobres quando lhes dá na telha)  pensassem em abrir o “cérebro solidário”e formassem uma corrente solidária, nomeadamente para aqueles cidadãos que continuam a viver em zonas de risco, umas vezes sem tecto condigno, outras vezes porque nem sequer têm uma “bússola” orientadora capaz de os demover em não voltar a abrir caminho para a morte e a desgraça.

P.S. – Amenizemos a leitura para sorrir. Estamos em Abril. Morreu muita gente. Muitas pessoas ficaram sem as suas casas e bens; o cenário estava traçado há muitos anos, desde que o primeiro governador de Luanda ( que já nem sei quem foi, sinceramente) deixou uma praga aos seus sucessores: “vou vos deixar com o meu santo de preferência, o S.Pedro. Serão pesadelos atrás de pesadelos quando chegar o meu mês preferido – Abril. Ele vai vos perseguir, mediante a sua principal arma : a fiscalização das obras que vocês fazem” – Fim de citação anónima.

Perceberam?

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