Reportagem

No Lubango, uma família apresenta a defesa mais saborosa de Angola CHOURIÇOLOGIA: O DOUTORAMENTO É DOS MAGALHÃES

Escrito por figurasnegocios

Se chouriço fosse curso superior, o diploma tinha carimbo do Lubango. Na “universidade” dos Magalhães não há cadeira de recurso: ou sai bem atado, bem fumado e com o ponto de sal que o país inteiro reconhece, ou volta para o primeiro ano. Fomos assistir à defesa de tese mais saborosa da Huíla. Foi aprovada por unanimidade e com direito a bis.

Eugénia Castro, 63 anos, transformou a necessidade de sobrevivência da família numa oportunidade de negócio próspero no Lubango. Há quase quatro décadas alimenta o país com o famoso “chouriço caseiro do Lubango” e outras variedades de charcutaria, todas com base essencialmente em carne de porco. A procura vem de norte a sul, e já ultrapassa as fronteiras de Angola.

De trato fácil, empreendedora nata e líder, Eugénia Castro Magalhães, natural do Lubango, abriu as portas da sua charcutaria caseira para revelar o segredo do negócio. Lidera um pequeno império da família Magalhães, composto por filhos, netos e bisnetos, todos dedicados ao fabrico de chouriço caseiro e à transformação de outros derivados de porco.

As instalações, ainda rudimentares, ficam no bairro Lucrécia, zona nobre da cidade do Cristo Rei. Como se diz, é nas dificuldades que a criatividade se aguça. Com Eugénia não foi diferente. Conta que tudo começou após a morte do marido, há mais de 38 anos, quando o sustento dos seis filhos ficou comprometido. Por iniciativa de um tio do falecido marido, também já em memória, foi incentivada e instruída a abraçar a arte da charcutaria, com destaque para o fabrico de chouriço caseiro.

“No princípio estava tudo muito difícil. Por um lado, nunca tinha sonhado trabalhar com porcos; por outro, a carne de porco é muito melindrosa. O mínimo lapso estraga tudo e pode representar um atentado à saúde pública. Mesmo sem capital inicial, avancei com um empréstimo para comprar o primeiro porco que, por azar e inexperiência, acabou por se estragar”, recorda a empreendedora, entre gargalhadas.

Com o tempo, muita persistência e insistência, em conjunto com outros membros da família Magalhães, foram trabalhando até acertar a fórmula na arte de fazer chouriço caseiro com sabor autêntico. Apuraram as técnicas. “Sem receio e com uma boa dose de ousadia, alcançámos o segredo da arte de fabricar chouriço caseiro com mestria. Virou paixão de família, embora em meio a dificuldades tremendas”, afirma.

Liderança e desafios – O negócio é suportado por capital próprio, acumulado ao longo do tempo. O facto de ser um empreendimento familiar minimiza custos, sobretudo com recursos humanos. A matéria-prima é essencialmente local, adquirida nos mercados paralelos espalhados por toda a região sul.

“Temos muito aventureiro hoje a fazer chouriço sem cumprir requisitos de qualidade e higiene. Daí, na maioria das vezes, o sabor ficar aquém do esperado”

O maior desafio é o cuidado redobrado exigido pela carne de porco, sobretudo em épocas de peste suína. Ainda assim, toda a carne passa pela inspeção dos serviços veterinários locais, que certificam a qualidade.

À semelhança de outros empreendedores, um dos maiores entraves é a falta de acesso ao microcrédito bancário e a outros apoios do Estado. Esta realidade tem dificultado a expansão do negócio e a abertura de pequenas sucursais, sobretudo em Luanda e noutras províncias onde a procura justifica.

Para garantir a sustentabilidade, seria vantajoso cobrir toda a cadeia: da criação de suínos à comercialização em grande superfície. Há, porém, limitação gritante de recursos. No futuro, os Magalhães sonham ver o produto reconhecido internacionalmente e apostar na exportação em grande escala. Para isso, terão de investir em máquinas modernas que permitam produção industrial, à altura da demanda internacional. Para já, a prioridade é abrir lojas e fornos em Luanda, Huambo e Benguela. “Precisamos de reconhecimento do Estado, queremos ajuda, precisamos inspirar a geração Z no empreendedorismo”, alerta Eugénia.

 

Legado geracional – Evandro Magalhães, um dos filhos da produtora, nasceu praticamente dentro da charcutaria. Aos 25 anos, considera-se “craque”, fruto de muito trabalho. Para ele, fabricar chouriço tornou-se uma paixão que exige atenção total ao processo: tempero, tempos de cura, temperatura do fogo e até o tipo de lenha usada. “A temperatura tem de ser equilibrada, nem muito quente nem muito fria. Caso contrário, estraga o produto final, que deve cozer ao longo de três dias”, explica. Para Evandro, o tempero é determinante para o sabor autêntico. Desaconselha os excessos de gindungo, comuns em produtores amadores que não seguem os trâmites recomendados.

“Temos muito aventureiro hoje a fazer chouriço sem cumprir requisitos de qualidade e higiene. Daí, na maioria das vezes, o sabor ficar aquém do esperado. Todo mundo diz que é chouriço do Lubango, mas nem todos têm a qualidade dos Magalhães”, afirma o jovem. Defende que a venda ambulante sem conservação adequada deve ser regulada, por representar um verdadeiro atentado à saúde pública.

Quanto à concorrência, diz que os Magalhães não temem. Confiam na qualidade do produto e na procura. “A gente vê clientes de várias partes do país e do mundo, principalmente de Luanda e da Namíbia, à nossa procura”, conta. Actualmente, a família consegue produzir perto de 1000 quilogramas de chouriço por semana, sem referir a outros enchidos.

 

Tradição e identidade – A produção de chouriço caseiro em Angola remonta à época colonial, quando os portugueses introduziram a tradição da charcutaria no país. Durante esse período, era actividade comum em fazendas e quintas agrícolas, sobretudo nas regiões do sul, como Lubango e Huíla.

 

O chouriço caseiro é um produto tradicional da culinária angolana, importante pela tradição, identidade, sabor e cultura. Eis cinco razões:

  1. Tradição e identidade: Produto tradicional da culinária angolana, passado de geração em geração.
  2. Sabor e aroma autêntico: Resultado da combinação de carne de porco, temperos e especiarias seleccionadas.
  3. Versatilidade: Ingrediente usado em diversas receitas, do matabicho ao jantar.
  4. Cultural: Associado a eventos sociais, festas e encontros de família.
  5. Economia local: Actividade económica importante para muitas famílias e comunidades em Angola.

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