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Missiva de solidariedade: A MEMÓRIA NÃO SOFRE EMBARGOS

Escrito por figurasnegocios

A complexidade da nossa História exige de nós uma maturidade que os governos, muitas vezes reféns da geopolítica, não conseguem ter. O silêncio oficial de Luanda perante a asfixia de Cuba é o reflexo de uma Ciência Política transaccional: na nova viragem diplomática para Washington, o Estado angolano opta pela amnésia selectiva para não incomodar o novo aliado.
Mas a cidadania não tem de pedir autorização à diplomacia para ser grata ou solidária. A pátria de José Lezama Lima, o homem que nos legou o monumental Paradiso, não merece morrer à fome no labirinto do xadrez
internacional.
Aos irmãos cubanos e à consciência cívica dos angolanos, Cuba atravessa, hoje, a hora mais escura da sua existência enquanto Estado. O apagão não é apenas energético; económico, social e humanitário. Perante isto, a Ética e a História exigem de nós, angolanos, um posicionamento que transcenda o silêncio constrangido do nosso Governo, actualmente mais preocupado em afinar o passo com os Estados Unidos do que em honrar os laços forjados nas nossas trincheiras.
A nossa relação com Cuba não cabe num panfleto de propaganda.
A história lembra-nos que eles estiveram aqui. Não vieram de mãos a abanar — os custos dessa ajuda existiram —, mas a verdade é que derramaram o seu sangue connosco. Ergueram hospitais, escolas e formaram quadros numa Angola recém-nascida.
Temos a honestidade intelectual de reconhecer as nossas cicatrizes: sabemos que essa aliança esteve no centro da fractura entre Luanda e a Jamba, e não esquecemos a participação directa das forças cubanas na tragédia do
27 de Maio. Contudo, a Psicologia Social ensina-nos a separar a máquina do Estado do coração do povo. O cidadão comum cubano, o médico que nos curou e o professor que nos ensinou, não é culpado pelos excessos das cúpulas. A nossa solidariedade é para com o povo, porque a dor humana não tem ideologia.
Sabemos todos que o embargo imposto pelos Estados Unidos é uma anomalia anacrónica. Como bem ilustra a sátira política, vemos a figura do “Tio Sam” a estrangular a ilha com as próprias mãos, ignorando olimpicamente os apelos constantes da ONU para o levantamento do bloqueio. Esta punição colectiva já não visa derrubar um regime; visa asfixiar a economia de sobrevivência de famílias inteiras. É um acto de crueldade que a comunidade internacional normalizou. Apelamos, por isso, ao fim imediato do embargo.
Apelo aos angolanos que podem ajudar: façamo-lo. Mas a Economia Política da nossa própria casa obriga-nos a uma cautela extrema. Esta ajuda não pode agravar a precariedade dos nossos, que também sofrem com os seus 20,1% de desemprego “suavizado” nas estatísticas oficiais. Mais importante ainda: a solidariedade para com Cuba não pode ser o próximo negócio da nossa endémica “Cultura das Comissões”. O envio de ajuda não pode ter intermediários oportunistas a cobrar dividendos sobre a miséria alheia. A ajuda deve ser directa, transparente e focada em quem tem fome e frio.
A nação que produziu um génio literário como José Lezama Lima merece mais do que este purgatório imposto.
Merece a dignidade de construir o seu próprio caminho sem a bota do embargo no pescoço.
Que o povo cubano sinta o calor da nossa gratidão popular. O Estado angolano pode estar em silêncio por conveniência geopolítica, mas a memória dos povos não sofre embargos.
Estamos convosco.

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