As trajetórias de vida representam a sequência dinâmica de eventos, experiências e escolhas que moldam a história de um indivíduo ao longo do tempo. Elas cruzam dimensões pessoais (biológicas e psicológicas) com fatores sociais, históricos e geográficos (como classe, género e contexto económico). Com a trajetória de vida de um individuo, mais um individuo, mais outro… , cidadãos do mesmo território, da mesma cidade, do mesmo país, acabam por moldar a história de cidade, do país… Façamos uma experiência:
“Muito pequena, aos 5 anos, iniciei minha vida escolar. Estamos a falar de 1986, na cidade do Lubango, província da Huila, uma das, agora, 19 províncias da nossa querida Angola!
Uma escola simples, mais do que simples, sem condições mínimas como uma carteira escolar, e lá iam os alunos cada um com a sua pasta às costas, a sua cadeirinha e uma prancheta, que nada mais era que uma tábua retangular com mais ou menos 30×50 centímetros que um dos pais de uma menina da turma, Sr. Rocha pai da Tatiana, amavelmente garantiu para todos os alunos daquela turma. A escola tinha apenas 4 salas de aulas, insuficientes para o número de alunos que ali faziam do pré-escolar à quarta classe, e então algumas turmas tinham de ter aulas numa das duas varandas, ou mesmo por baixo de uma árvore do pátio, com o quadro preto preso ao tronco da árvore… Mas, todos felizes, para aprender todos dias um pouco!
Bem, todos felizes após alguns dias de aulas, porque eu particularmente dei muito trabalho a meus pais e à professora, para aceitar ficar na escola.
Conta a minha mãe, que dias antes eu já queria usar a mochila e muito falava em ir para escola, no nome da professora, a tão bem conhecida Irmã Selda que por sinal era a sua última turma, uma vez que se reformaria no ano seguinte, uma professora com 40 anos de experiência.
Mas quando chegou o primeiro dia de escola, a história mudou! Muito chorei meio assustada com o facto de ter que ficar na escola com pessoas que não conhecia, e nossa querida Irmã Selda usou palavras como: Eunice (nome da minha mãe) leve a menina, eu não os quero aqui forçados, logo ela vai perceber que a escola é boa e vai querer ficar… Bem, isto era o previsto, mas não foi assim que aconteceu, nem no segundo, nem no terceiro dia… e, então, a minha mãe tentou outra estratégia, e lá ficava ela sentada no muro da escola, a fazer croché (fazia o almoço de véspera para poder ficar ali na escola) para eu estar sempre a vê-la e, coitada, mal se levantava para esticar um pouco as pernas eu já estava assustada ao lado dela!!! E assim foram os primeiros dias…
Entretanto, como bem se diz, há males que vêm por bem, e um dia a minha mãe estava a prender a carroça ao carro, para carregar dreche, restos de cevada para alimentar o gado que tinha na pequena fazenda da minha avó Veríssima, e não prendeu bem o ferro que servia de gancho entre a peça aplicada no carro e a ponta da carroça, e a carroça caiu tendo o ferro desta ponta caído por cima do seu pé! Assim fracturou o pé (direito ou esquerdo?) e teve de usar gesso por 15 dias. E, aí veio a solução da minha dificuldade (na verdade veio a solução para cortar meu mimo) para ficar sozinha na escola! Pois, desta forma, a minha Mami, já não podia conduzir e assim o meu pai antes de ir para o trabalho (onde exercia a função de chefe de departamento de vendas da Fábrica de cervejas N’gola, tinha de me deixar na escola antes de ir para o serviço… e alguém poderá perguntar: então não podia ir de autocarro? Não, porque nessa altura isso não existia nesta cidade!
Meu papi, muito conversou comigo, para me fazer entender que ele não tinha como ficar comigo na escola, que eu tinha de ficar… Mas lá veio a hora, e chegamos a escola, e eu comecei a chorar que não queria ficar, e carinhosamente a Irmã Selda veio com a mesma conversa: Sr. Camilo leve a menina, ela vai acabar por aceitar… bem, parece que, hoje após 40 anos, estou a ver esta cena, meu pai dizendo Mónica, filha tens que ficar, o pai vai trabalhar e depois vem te buscar, e eu a encostar-me às suas pernas a chorar… bem ele não teve paciência de insistir muito na conversa e agiu: pegou na minha pequena cadeira de madeira com acento de pele, colocou-a ao lado da dos meus coleguinhas, sentou-me nela, colocou a prancheta sobre meu colo e disse ficas e o pai vem buscar-te depois. E eu assustada a chorar olhava para ele a despedir-se da professora e seguir para o carro, sem me mostrar que meio de lado olhava para mim…
E assim fiquei, chorei mais algum tempo, depois acabei por me calar, por começar a ouvir a professora, comecei a olhar para os colegas, e passado algum tempo, no intervalo, já consegui conversar com uma ou duas coleguinhas…
Bem, no segundo dia já foi diferente, diz o meu pai, que mal vi a professora ao fundo da rua, pois ela caminhava a pé de sua casa, a uns 100 metros da escola, já lhe disse Papi, podes ir a professora já vem ali…” Estamos juntos!



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