Simão Cacete, engenheiro de profissão e político destacado na nossa Sociedade, acedeu conversar com o jornalista Victor Aleixo em entrevista por e-mail. A sua candidatura, pela FPD, a Presidente da República de Angola onde foi suplantado por José Eduardo dos Santos, do MPLA, em 1992, a sua retirada do País para Portugal, a situação política e social, as relações com os antigos colegas do Partido, com outros políticos dirigentes de partidos ontem e hoje. Enfim, é uma entrevista para ler sobre o estado de opinião de um político promissor para o desenvolvimento de Angola de todos nós.
Entrevista conduzida por: Victor Aleixo ⁄ Fotos Cedidas pelo entrevistado
Pergunta: Simão Cacete regressou a Angola porque só agora?
Simão Cacete (S.C). – Não percebo a pergunta, na medida em que não há um regresso a Angola, agora.
Na verdade, a falar-se de “regresso”, ele teve lugar em 2012, quando iniciei um período de actividade profissional em Angola. Esse período terminou em 2023, o que conduziu ao meu regresso a Portugal, onde, desde 1992, na sequência da crise pós-eleitoral, fixei residência.
A partir de 2023, as minhas deslocações à Angola são por períodos curtos e por motivos de natureza particular.
- Dizia-se que o Simão Cacete fugiu de Angola comprometido pelo pacto do seu Partido, o FPD, com a Unita. É verdade? Explique-me essa maka.
S.C. – Usar o “fugiu” no mínimo revela o esquecimento do contexto em que ocorreu a minha saída de Angola. Mais de três décadas depois é natural que a memória de quem não tenha vivido os acontecimentos na primeira pessoa, já não tenha presente detalhes do que aconteceu a seguir às eleições.
Com a crise pós-eleitoral, com destaque, aos confrontos entre as forças do Mpla e da Unita em Luanda, vi-me sob cerco e se capturado pelas forças do Mpla, muito provavelmente eu não estaria hoje a responder às suas perguntas!
Permito-me recordar que nesse período, e inexplicavelmente, vários dirigentes de partidos, e em alguns casos os seus familiares, foram vítimas de sevícias várias, a que se seguiu a sua exposição à imprensa no Futungo de Belas!
Tendo eu escapado a isso, várias instituições, presentes no país ou a partir do estrangeiro, manifestaram preocupação, questionando o Governo sobre o meu paradeiro e apelando que fosse preservada a minha vida!
É nesse contexto que, decorridos mais de um mês dos confrontos, eu saí de Luanda, num voo comercial, e confiando que depois de um período de descanso e retemperadas as forças, depois do desgaste de uma campanha exigente e de um período pós-eleitoral trágico, poderia regressar ao país, para retomar as minhas actividades!
Mas se se der ao trabalho de revisitar a imprensa da época, encontrará os “mimos” que alguns dos cronistas me dedicaram, e perceberá o ambiente criado em torno de mim, e que levou a que, de familiares a amigos de várias latitudes, me chegassem mensagens recomendando que adiasse o regresso!
Quanto à maka que refere, nunca tinha ouvido essa versão associada à minha saída de Angola, mas é-me fácil imaginar a “central de origem” de tais narrativas, até porque a História é reescrita em conformidade com os interesses de quem manda!
Na verdade, nunca existiu um pacto entre a Frente para a Democracia (FpD) e a Unita, até porque nas eleições de 1992, a FpD integrou a primeira coligação constituída em Angola, a Coligação Angola Democrática (AD-Coligação). Recordo que esta Coligação destinava-se apenas a concorrer às eleições, extinguindo-se a partir da publicação dos resultados, conforme estabelecia o seu Pacto Constitutivo.
- E agora, vai só integrar-se à vida profissional ou vai integrar-se na política? O BD é o mesmo do seu tempo de candidato presidencial do FPD ou mudou?
S.C. – Quanto à vida profissional já está respondida.
Quanto à política activa, esse capítulo, há muito, considero-o encerrado. A minha última intervenção política foi em 2008, quando participei na campanha da FpD, que concorreu às eleições com a sua bandeira.
- O que me diz sobre a Angola em 50 anos?
S.C. – As expectativas criadas em torno da independência foram largamente defraudadas! Em primeiro lugar, porque contra todas as expectativas, antes mesmo da independência, em Março de 1975, foram retomados os confrontos entre os movimentos de libertação, que já eram frequentes antes do 25 de Abril, inviabilizando que se cumprisse na íntegra o Acordo de Alvor, traçando deste modo o trágico percurso da Angola independente, que só conheceria a Paz em 2002, mas infelizmente sem uma verdadeira reconciliação entre os angolanos! Basta ouvir a insistente discursata do partido no poder, que persiste na diabolização da Unita e de toda a oposição, revelando a dificuldade de construir pontes para a mobilização de todos os angolanos para construir a Angola de todos os angolanos!
As bandeiras que mobilizaram os angolanos para o combate pela sua autodeterminação e independência não eram apenas para termos uma bandeira e um hino nacionais! Incluíam a promoção da dignidade dos angolanos, o desenvolvimento económico e social do país e dos angolanos.
Onde estão essas bandeiras hoje? Quando hoje leio as intervenções dos governantes, comparando a era colonial com os tempos actuais, será bom recordar, que nos primeiros anos da independência, o Governo pretendia recuperar os indicadores económicos de 1973! Como Angola tem uma História, talvez valesse a pena consultar os dados estatísticos desse ano, para perceber a que ponto a economia era diversificada… espero que não me acusem de ser saudosista! A desculpa do crescimento da população não colhe, porque a função do Governo é resolver os problemas do país, usando os recursos do País com foco e competência! Com cinquenta anos de independência já não faz sentido apontar o dedo ao colonialismo!
Há muita propaganda, mas na prática a realidade pode ser caracterizada por uma elevada taxa de desemprego que atinge principalmente a juventude, independentemente das suas qualificações académicas, uma economia pouco diversificada, assente, principalmente, na exportação de petróleo e na importação de quase tudo! A repetida proclamação do objectivo de diversificação da economia continua uma miragem!
É confrangedor ver que 50 anos depois da proclamação da independência haja uma tal degradação das condições de vida da maioria da população, a ponto de esta ter os contentores de lixo ou as lixeiras, como únicas fontes de recurso para assegurar a sua sobrevivência; a exclusão do acesso ao ensino obrigatório de milhares de crianças, ou a frequentarem escolas com salas de aula sem carteiras ou até a terem aulas debaixo de árvores, são realidades que fazem parte do balanço dos anos de independência!
É escandaloso que apesar da propaganda, em cinquenta anos de independência, até em cidades que já tinham uma importante rede de distribuição, não haja água potável, 24 horas por dia, sete dias da semana, situação a que nem sequer a capital do país escapa, apesar dos abundantes recursos hídricos com que a natureza dotou o país! É escandaloso que a governação do país não perceba que a promoção do acesso da população à água potável e ao saneamento básico permitirá reduzir a taxa de absentismo resultante de doenças que hoje se tornaram endémicas, como o paludismo, a cólera, a febre tifoide, etc… as chamadas doenças do meio ambiente!
Cinquenta anos de poder e mais de trinta anos depois da instauração do multipartidarismo, o Mpla continua incapaz de jogar o jogo da democracia, com lisura, e apesar da incompetência evidenciada para a resolução dos problemas do país, está acantonado no seu “quero, posso e mando” considerando a oposição como inimiga ou “anti-patriota”, cujas propostas e contribuições nunca são valorizadas!
O jogo democrático está viciado, porque em vez de se apostar na adopção de medidas de fortalecimento da lisura e transparência do processo eleitoral, legisla-se em sentido contrário!
Governa-se como no tempo do partido único! A oposição apenas serve como objecto decorativo! Não há prestação de contas ao Parlamento, a Justiça não é independente, os titulares de cargos públicos fazem dos cargos uma autêntica coutada privada, para resolverem os seus problemas pessoais e da sua família!
Pudera! Com tantos apparatchiks alimentados à custa do erário, o MPLA só pode mesmo recear “cair do poder”!
O despudor é de tal ordem que na Angola independente, alguém nomeado para um cargo governamental, afirma, sem vergonha na cara, “agora chegou a minha vez”, chegando ao cúmulo de organizar um banquete com lançamento de foguetes e tudo! Numa Angola em que a maioria dos cidadãos vive abaixo do limiar da pobreza!
- Mudou ou não olhando na governação sob o comando do MPLA agora com o João Lourenço mas no tempo em que o senhor queria governar Angola era José Eduardo dos Santos?
S.C. – Permita-me uma clarificação! À luz da Constituição de 1992, se eleito, o PR não governaria!
Essa Constituição consagrava a existência de um Presidente da República e de um Primeiro-Ministro.
O Presidente da República seria eleito por sufrágio directo e universal e o Primeiro-Ministro, chefe do Governo ou Executivo, resultaria da maioria parlamentar!
Não havia acumulação ou confusão entre as funções do PR e as funções de chefia do Governo! Logo, à luz dessa Constituição, se em 1992 fosse eleito PR, eu não governaria, porque não teria essa competência constitucional! O que se assiste actualmente resulta da Constituição, a atípica de 2010!
Quanto à Governação de João Lourenço, não tive razões para expectativas de que tal pudesse ser diferente! Na verdade, no seu discurso de posse, assistimos a anúncios pomposos, tais como o combate à corrupção, a implantação das autarquias locais, a justiça para todos, o acabar com as “ordens superiores” e etc.!
Qual é o balanço possível? Decorridas quase duas legislaturas, a única coisa que o país ganhou foi mais uma nova divisão administrativa, baseada em critérios pouco fundamentados e pouco credíveis que parecem retirados de uma cartola e sem atender aos custos associados! É assim que “a vida se faz no município”?
Para assegurar a proximidade da administração aos cidadãos é preciso criar províncias ou antes, tratar de criar condições de instalação dos funcionários administrativos nas localidades?
Bom, se criar mais províncias for o critério, acabaremos por ter de promover à categoria de província todas as localidades!
Aliás, antes de qualquer decisão, justificava-se a definição de critérios a aplicar, com base na realização de um balanço dos resultados das primeiras divisões de províncias e facilmente concluiríamos que, ao contrário dos governantes nomeados, poucos foram os benefícios para as populações das então novas províncias!
E no que conta para o dia a dia dos angolanos, no geral, a única diferença da era JLo é que houve uma acentuada degradação das suas condições de vida, demonstrando a incapacidade e o quão esgotado está o Governo, no que respeita a encontrar soluções para os problemas do país!
No resto mantêm-se os vícios da governação do MPLA: a partidarização do Estado, a falta de independência da justiça, a corrupção, o nepotismo, o compadrio, a falta de transparência na gestão da coisa pública, a banalização da contratação directa, a delapidação dos recursos públicos, com investimentos em autênticos “elefantes brancos”, a falta de foco na resolução dos problemas que os cidadãos enfrentam no seu dia a dia e que continuam adiados, entre os quais destaco, a falta de água potável, o saneamento básico, a falta de cuidados de saúde, a falta de transportes públicos, a construção/ampliação de infra-estruturas vitais para o relançamento económico do país, etc.!
É um exemplo da tomada de decisões desfasadas da realidade o aumento, em Julho, do preço de combustíveis, ignorando/desvalorizando o impacto dessa medida, para a maioria dos cidadãos que recorre aos chamados “azulinhos”! E depois é o espanto porque a população revolta-se!
- Vamos abrir o seu coração: está desiludido com os seus companheiros do vosso para partido ou desconfiado da governação do MPLA?
S.C. – Eles fazem parte do meu passado de militância política e partidária! Hoje não estou filiado em nenhum partido!
Observando à distância, não vejo razões para estar desiludido com eles, antes pelo contrário! Têm o meu apreço por, apesar das dificuldades que enfrentam, continuarem a bater-se por um futuro melhor para o país e consequentemente para os angolanos.
Quanto a governação, não se trata de desconfiança, mas sim da confirmação de que não há ilusões, pois com o que observo e registo no dia-a-dia da maioria dos angolanos, confirma-se o retrocesso e a falta de soluções por parte desta governação! Muitos planos e anúncios-propaganda e o balanço é francamente negativo! A promoção do bem-estar económico e social dos angolanos deveria estar no centro da governação.
- E a oposição de agora está como antes ou na mesma,acutilante ou agressiva?
S.C. – Agressivo é o Mpla e não a oposição! Perante a situação do país, se a oposição fosse agressiva haveria manifestações um pouco por todo o país!
Não é fácil ser oposição num país em que a única instituição que conta é o Presidente da República!
Creio que, para o partido governante, a existência de oposição é um estorvo que tolera porque necessária à farsa da democracia que pretende vender para o exterior!
Angola é um país em que as instituições do Estado estão ao serviço do partido do Governo, os órgãos de comunicação estatais estão em permanente campanha promocional do Governo e por isso não se abrem à oposição, nem mesmo em período eleitoral!
Em 1992, enquanto candidato a PR, tive a oportunidade de ser entrevistado pela TPA.
Em todas as eleições seguintes, nunca mais aconteceu uma entrevista aos líderes dos partidos concorrentes. Registe-se o retrocesso verificado!
Em período eleitoral além da transmissão dos tempos de antena deveria haver debates entre os líderes dos partidos concorrentes, para melhor esclarecimento dos eleitores sobre os seus programas de governo.
As eleições são um processo organizado com transparência e escrutinável, porque só deste modo serão evitadas ou esclarecidas as contestações recorrentes. Infelizmente em vez de se fortalecer os mecanismos de transparência e escrutínio do processo eleitoral, o partido governante opta por aumentar a nebulosa sobre o processo!
Um dia chegará a vez do Mpla experimentar a cadeira da oposição e provará do efeito das entorses que vem colocando nas legislações eleitoral e dos partidos!
- Disseram-me que Abel Chivukuvuko está a convencer-lhe para ir ao partido dele.Verdade ou mentira?Justifique.
S.C. – Nada tenho a justificar! Isso não passa de mais uma invencionice! Não falta imaginação e eu já estou habituado a este tipo de “contos”!
Nunca tive qualquer contacto dessa natureza com Abel Chivukuvuko e como já referi, não tenciono voltar à política activa.
- Abel Chivukuvuko ou Adalberto Costa Júnior,o que escolhe para trabalhar junto como aliado ou integrante dos partidos deles?
S.C. – Tal como com Chivukuvuku, também não tenho qualquer contacto dessa natureza com Adalberto Costa Júnior!
Continuo como cidadão a procurar manter-me informado sobre o país, para quando e se tiver a oportunidade de votar, poder fazer a minha escolha informada.
O cenário de alianças que coloca não está nas minhas cogitações!
As minhas escolhas faço-as nas urnas quando me é dada a oportunidade de o fazer!
- E Filomeno Vieira Lopes é um bom líder para o Bloco Democrático,que no seu tempo era o Partido dos verdes?
S.C. – Conheço o Filomeno há muitos anos e conta com um passado de militância política, que a dado passo dos nossos percursos, partilhámos. Esse percurso inclui, entre outros, a fundação da FpD, de que foi o primeiro líder. Pág. 5 de 5
Não estando filiado no Bloco Democrático, não me compete avaliar a liderança do Filomeno Vieira Lopes. No entanto e tanto quanto julgo saber, foi-lhe renovada a confiança na última Convenção realizada em 2025!
- Fugiu ou foi embora para Portugal como é evidente que foi com a família. Correcto ou arranjou família e trabalhava?Como engenheiro ou vivia tirando nos bolsos o que ganhou na política?
S.C. – R.: Quando saí de Angola não imaginava que me fixaria em Portugal e por isso, a família ficou em Luanda e só mais tarde se juntou a mim. Nunca tive a expectativa de ganhar dinheiro na política ou com a política!
Essa de que terei recebido dinheiro, já agora, quanto e de quem?! Quem será que se entretém a contar essa estória e com que propósito!?! Essa é mais uma invencionice, certamente com origem na tal “central” que se entretém a contar estórias sobre mim e cujo propósito desconheço!
Como jornalista veterano que é, talvez pudesse ajudar-me a desvendar esse “mistério” identificando quem terá ficado com o dito dinheiro, porque eu não lhe pus o olho! Ficar-lhe-ia grato!
Em Angola ou em Portugal sempre vivi do meu trabalho e tenho um percurso profissional de que muito me orgulho! A política apenas contribuiu para a minha exclusão de Angola!
- Tem tempos livres no dia a dia? O que faz?
S.C. – É claro que tenho tempos livres e procuro ocupá-los de formas diversas!
- Qual o seu hobby? Música e leitura?Gosta? O que tem na cabeceira da sua cama? O que gosta na música?
S.C. – A leitura é um “vício” adquirido desde cedo! Daí que tenha sempre vários livros na mesa de cabeceira e que vou lendo “simultaneamente”! E a música também é uma companheira, muito presente no meu dia-a-dia!



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