Economia & Negócios

SOBROU MÊS E FALTOU SALÁRIO? Economia doméstica: o que é, importância e sugestões para sair do “aperto”

Escrito por figurasnegocios

Sobrou mês e faltou salário? Infelizmente, o problema não está tanto no quanto cada um ganha, mas mais no modo como se administra o dinheiro.

Por: Édio Martins / Fotos: Arquivo NET

Muitos de nós passa os dias reclamando que ganha pouco, que nunca tem dinheiro para nada, que a vida está cada vez pior…, mas importa entender uma coisa: não existe salário (por melhor que seja) que sobreviva a uma mente consumista e completamente desorganizada relativamente ao orçamento doméstico.

Como podemos melhorar, substancialmente, os “apertos” financeiros com que, ciclicamente, nos vemos envolvidos?

Neste artigo procuraremos, despretensiosamente, trazer para reflexão o essencial da economia doméstica, bem como, um punhado de sugestões para sair do “aperto” e alertando para situações perniciosas que podem tornar a vida familiar sufocante.

O impacto negativo da crise económica na vida dos indivíduos e das famílias. Os media, tanto em Angola como um pouco por todo o lado, desde os países desenvolvidos aos países em desenvolvimento, têm discutido o impacto negativo da crise económica, não só numa perspetiva mais macro (na democracia, na justiça social, na liberdade, entre outros), como também a um nível mais micro, mais especificamente, para a vida dos indivíduos, como por exemplo, na saúde, na qualidade de vida, nas dependências, na violência doméstica e, mais extremadamente, na fome, entre muitos outros aspectos.

No entanto, grande parte das notícias sobre o impacto da crise no funcionamento individual e familiar dos indivíduos não tem na sua base um olhar “especialista” sobre esta matéria, leva-nos a concluir que, apesar de muito se especular e de toda gente ter uma opinião mais ou menos fundamentada sobre este assunto, em termos científicos, pouco se sabe.

Num contexto de crise, podemos admitir uma abordagem da economia doméstica, a três níveis: i. como é que os casais gerem o seu orçamento familiar; ii. se são identificados padrões de género nas decisões financeiras das famílias; iii. qual o impacto da crise económica nos modos de gestão dos orçamentos familiares.

Um melhor conhecimento sobre os processos de decisão e as práticas financeiras das famílias é crucial para compreender a distribuição geral do bem-estar, do poder e do controlo sobre os recursos na sociedade.

Do ponto de vista normativo, esta questão adquire particular relevo no contexto de graves dificuldades vivido pelas famílias angolana, que se manifesta em reduções de rendimento, desemprego crescente, descontrolo de custos significativo e peso reforçado do endividamento.

Tal significa que muitas famílias foram obrigadas a ajustamentos pronunciados nos seus padrões de despesa e, consequentemente, no seu nível de vida. Considerando os papéis de género tradicionais no seio da família angolana, é de admitir que a maior fatia dos impactos negativos na economia familiar foi suportada pelas mulheres, particularmente no caso de mães de filhos dependentes.

Desta problemática, com o endividamento à cabeça, que a crise acentuou, emerge, ainda com maior relevância e particular pertinência, a importância da economia/orçamento doméstico, qual calvário mensal para muitas famílias angolanas.

O que é a economia doméstica? A economia doméstica é uma ferramenta de controlo e administração das reservas financeiras do lar e da família. É também o modo mais eficaz de gerir e equilibrar o quanto se ganha e o quanto se gasta todos os meses, não só com as contas dentro de casa, mas com tudo aquilo que se consome ao longo do mês, incluindo passeios, jantares, roupas, viagens…

É saber governar uma casa, pagar o que tem de ser pago todos os meses – prestação da casa, contas da luz, do gás, da água, mais a alimentação -, definir o que será gasto no vestuário, calçado, reparações, e outras despesas circunstanciais, precaver alguma surpresa, e poupar, se possível. Para isso, é preciso distribuir e gerir o que se tem da melhor maneira possível.

A economia doméstica é uma ferramenta de controlo e administração das reservas financeiras do lar e da família. É também o modo mais eficaz de gerir e equilibrar o quanto se ganha e o quanto se gasta todos os meses, não só com as contas dentro de casa, mas com tudo aquilo que se consome ao longo do mês, incluindo passeios, jantares, roupas, viagens

Equilíbrio e realismo são duas premissas fundamentais na elaboração do orçamento familiar. Pés assentes na terra, portanto. Há um rendimento, há despesas fixas que devem ser acauteladas em primeiro lugar, há outros gastos que variam e ainda há imprevistos que podem abalar o melhor dos orçamentos.

Ordem em casa porque o orçamento não estica. É preciso organização e disciplina, fazer uma lista de rendimentos e despesas. Distribuir o dinheiro tem a sua ciência, até porque há imprevistos que podem dar a volta às contas.

Porque a economia doméstica é tão importante? É com ela (e graças a ela) que se pode economizar, poupar e administrar melhor o seu dinheiro, além de se conseguir realizar sonhos e projectos pessoais.

A economia doméstica é fundamental para quem deseja desfrutar de uma vida com mais qualidade, valorizando aquilo que realmente tem importância ao invés de ficar preso no meio de dívidas, processos de cobrança, penhoras…

No fim, vai-se perceber que a economia doméstica é, na verdade, um grande salto para a liberdade.

Sugestões para sair do “aperto”:

  1. O hábito de fazer um orçamento mensal, assegurando em primeiro lugar as despesas fixas, estipulando os gastos previstos, é uma boa maneira para não se perder e não correr o risco de ficar sem dinheiro ainda o mês vai a meio. Anote as despesas diárias e não se esqueça dos pormenores que podem fazer a diferença.
  2. Gastar menos do que aquilo que se tem, mas, atenção, não menos do que é necessário para viver.
  3. Saber comprar é comprar bem e não, necessariamente, comprar barato ou de má qualidade. Comprar barato significa avançar quando os preços realmente compensam e há uma boa relação entre qualidade e custo.
  4. Produtos demasiados baratos, artigos com preços impensáveis? Pense duas vezes. O barato, às vezes, sai caro. Muito caro. Comprar barato pode significar comprar duas vezes.
  5. Aquela mania de comprar uma coisa porque um dia pode ser necessária? Não faça isso. Além da despesa, a casa fica atulhada de objectos sem utilidade imediata. Só deve comprar quando realmente precisa.
  6. Avarias graves não devem ser ignoradas. A máquina de lavar roupa que deixou de funcionar, a da louça que já não lava como devia. Adiar reparações é meio caminho andado para aumentar despesas e dores de cabeça.
  7. Comprar grandes quantidades de determinado produto pode compensar quando vale mesmo a pena e há capacidade de armazenar lá em casa o que está a colocar no cesto de compras.
  8. Disciplina precisa-se. Comprar duas vezes a mesma coisa porque não se lembra que já comprou o mesmo produto e não se recorda o sítio onde guardou? Não devia acontecer.
  9. Não deve fazer despesas antecipadas com olho em possíveis rendimentos ou eventuais lucros que podem não se concretizar. Compre com dinheiro na mão ou na conta.
  10. Pague a pronto sempre que possível. Cartões de crédito ajudam, mas os pagamentos adiados podem surpreender uma conta sem fundos.

Explorando-se um pouco mais as sugestões acima apresentadas, façamos algumas incursões em alguns dos domínios mais significativos da vivência individual e familiar e que podem ter implicações mais ou menos significativas na economia doméstica como as que a seguir exponho.

Raio X financeiro. O primeiro e mais fundamental passo para organizar as finanças domésticas e pessoais é saber exactamente o quanto se ganha em conjunto com os outros membros da família, kuanza por kuanza. Depois, reunir todos os gastos e compromissos, incluindo contas de água, luz e telefone. Não esquecer de incluir empréstimos, financiamentos e acordos financeiros.

Agora chegou a hora de organizar toda essa informação. O modo mais prático e fácil de fazer isso é com uma tabela que se pode fazer usando programas como o Excel ou utilizando um aplicativo de gestão financeira pessoal.

A táctica do bom e velho caderninho também funciona. O importante é ter anotado de modo claro e objectivo todos os seus compromissos.

Numa coluna ao lado, anote os rendimentos, incluindo salário e outras rendas extras. O objectivo aqui é que a coluna de rendimentos possua um valor maior do que a de gastos e compromissos.

Regra do 50/30/20. Uma boa maneira de equilibrar as finanças domésticas é adoptando o uso da regra conhecida como 50/30/20. Essa regra sugere que se disponibilize 50% dos seus rendimentos para gastos essenciais, como pagamento de contas de água, energia eléctrica, telefones, seguro de saúde, educação, alimentação, habitação, transporte e outros itens básicos de sobrevivência no mundo moderno.

Em seguida, deve-se separar 30% do orçamento para cobrir o seu estilo de vida. Isso inclui passeios, refeições fora de casa, viagens, ginásio, entre outros itens que não podem ser considerados como básicos (porque você pode viver sem), mas que, convenhamos, nos fazem felizes.

Por fim, reservar os 20% restantes para cobrir despesas de financiamento, empréstimos, acordos e, claro, para fazer investimentos.

Na prática, essa regra funcionaria assim: se receber 400.000 Kz mensalmente, 50% desse valor (200.000 Kz) deve ser direccionado a gastos essenciais, 30% ou 120.000 Kz para gastos com estilo de vida e 20% ou 80.000 Kz para cobrir despesas financeiras de empréstimos e investimentos.

Fazer essa divisão directamente na tabela de orçamento doméstico. Assim, consegue se visualizar ao que se destina cada gasto.

Definir prioridades – Não existe economia doméstica que sobreviva sem uma lista de prioridades. Se continuarmos achando que se precisa de tudo o que tem e que deve continuar sustentando todos os gastos, nem se precisa continuar a estabelecer planos.

Além dos gastos essenciais que por motivos óbvios devem ser mantidos, é muito importante que se avalie a necessidade de alguns itens que constam no orçamento. O importante é perceber que sempre dá para criar alternativas para o que se está acostumado a fazer. Pode ser que descubra que uma reunião em casa na companhia da família e dos amigos é muito mais divertida do que em um bar ou restaurante, por exemplo.

Permita-se experimentar essas possibilidades!

Ter objectivos – Para que o orçamento doméstico faça sentido é sempre bom contar com objectivos de curto, médio e longo prazo. Chame a família e estabeleçam esses objectivos juntos. Pode ser uma viagem para daqui dois meses, um passeio no final de semana ou a compra da casa própria.

Mas é muito importante definir metas e objectivos. Isso faz com que todos se empenham e se dediquem a cumprir com as regras do orçamento.

Renegociar –  A economia doméstica também envolve renegociação de dívidas, especialmente aquelas que você tem com o banco, ou outras com alguma envergadura.

Aborde o banco e proponha uma renegociação, procure obter uma redução da taxa de juros ou o acréscimo do período para pagamento do empréstimo, por exemplo. Caso resulte vai, certamente, sentir algum alívio.

Rever gastos, fazer listas, levar o dinheiro contado sempre que for às contas, são iniciativas e propósitos que se deve adoptar e seguir à risca trarão, com certeza, um aumento significativo de controlo sobre os gastos, tornando-os mais enxutos.

Organizar os seus armários – O que organização dos armários tem a ver com economia doméstica? Tudo! Se não se sabe o que se tem, provavelmente vai acabar comprando o que não precisa. Por isso, antes de ir ao mercado organize os seus armários da cozinha e veja o que já tem na dispensa.

Economizar nos consumos, na água, na energia, nos transportes e em tudo o mais, mesmo que possa parecer insignificante, pois pouco a pouco, pode ter um grande ganho.

Antecipe-se as suas compras e pague à vista. Planeamento é a melhor maneira de economizar dinheiro ao fazer compras. Por isso, se você deseja, por exemplo, comprar uma TV nova, comece pesquisando modelos e os preços nas lojas. Utilize a internet para ajudar nesse processo. Depois de definir a marca e o modelo, comece a poupar o dinheiro necessário e crie uma meta de curto prazo para realizá-la.

Com o dinheiro em mãos é muito mais fácil conseguir descontos e aproveitar promoções relâmpagos. Vale também esperar por datas especificas, como a Black Friday ou as renovações de stock.

Faça uma reserva de emergência. Por último, ter uma reserva de emergência. Isso é fundamental para que nunca mais ser apanhado desprevenido.

De modo geral, a ideia é ter, no mínimo, um valor guardado que corresponda a 12 salários. Por exemplo, você ganha 400.000 kz ao mês, então sua reserva de emergência “ideal” deve ser de 4.800.000 kz.

Esse valor seria importante para se manter caso perca o emprego, por exemplo. Mas também pode ser usado para uma emergência de saúde ou para uma intervenção inevitável em casa.

A reserva de emergência só não deve ser usada para coisas supérfluas, como comprar roupas ou ir passear.

O importante é que o dinheiro da reserva de emergência seja mantido quieto no lugar dele. Afinal, como o próprio nome diz é uma “reserva de emergência”.

Depois de todas essas dicas de economia doméstica não tem mais desculpa para ficar no “aperto”. Coloque em prática ainda hoje e sinta-se no controlo da vida!

Economia doméstica – A importância de se falar sobre o dinheiro em família. Falar de dinheiro em família é importante. A consciência do dinheiro disponível e do modo como é gasto é imprescindível para o sucesso de um orçamento familiar, daí que seja tão importante falar sobre este assunto entre todos.

É imprescindível que todos colaborem para o equilíbrio financeiro dos orçamentos familiares e que conversem sobre dinheiro e finanças. Muitas famílias apresentam dificuldades financeiras e muitas têm falta de competências de literacia financeira.

Por isso mesmo, é importante que todos os membros da família colaborem para o “bolo” final e, ainda, que conheçam onde é que o dinheiro é aplicado. Tomar consciência do destino do rendimento disponível é meio caminho andado para evitar despesas desnecessárias.

Concluindo – Além das sugestões que deixamos, existem dezenas de maneiras de realizar uma economia doméstica.

Pode ser preciso um pouco de esforço para descobrir como reduzir as despesas em coisas como transporte, contas em atraso, etc, mas o resultado geralmente é melhor do que quando não nos estamos esforçando para economizar.

Infelizmente, não há como evitar o facto de que poupar dinheiro requer disciplina e sacrifício, porém, não dá para questionar os benefícios, como sair das dívidas e assumir o controlo de sua vida.

Acompanhar as suas despesas é a melhor maneira de obter o controlo do seu dinheiro. Primeiro, se quiser parar de viver de salário em salário, tem de saber para onde está indo o seu dinheiro e tem que dar a cada kuanza um propósito.

Rastrear quanto dinheiro está a entrar e quanto está a sair da família – e exactamente para onde está indo – é a chave para tomar decisões financeiras inteligentes que tenham um grande impacto tanto na sua vida actual quanto no futuro.

Nesse sentido, uma das ferramentas que podem ajudar a simplificar bastante essa tarefa são as apps de controlo financeiro, disponíveis e em ampla utilização. Então, se ainda não utiliza nenhuma, análise a possibilidade de começar a usar hoje mesmo!

Preste atenção ao orçamento familiar/economia doméstica e prepare-se, adequadamente, para cada um dos seus grandes objectivos.

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