Por: Édio Martins/ Foto: Arquivo NET
(edio.martins@netcabo.pt)
Analisar quem são as personalidades mais admiradas — e como o são — pode ser uma gazua para entender a condição da humanidade. As personalidades admiradas tornam-se espelhos coletivos que refletem a sociedade.
A evolução histórica da humanidade pode ser compreendida à luz das figuras que foram veneradas em diferentes épocas. Caindo na tentação da simplificação por rótulos, podemos dizer que na Antiguidade predominava a admiração dos deuses e dos guerreiros; na Idade Média, do clero e da nobreza; e na Modernidade, de artistas e cientistas. E hoje?
Hoje, as figuras mais admiradas são influencers e celebridades do consumo — pessoas cuja presença pública, mais do que a substância das suas ações, se torna critério de relevância. A lógica contemporânea não se alimenta da substância, mas da visibilidade: admiramos não pelo que se é ou pelo que se faz, mas simplesmente porque se aparece. O que não aparece não existe.
O medo da invisibilidade trai-nos. Não ser reconhecidos por aquilo que gostaríamos, e não alcançar o que ambicionamos, arrasta-nos para crises existenciais. A existência parece perder valor. Confundimos invisibilidade com vazio. Tememos esse vazio, que parece não ter lugar no mundo contemporâneo.
O mesmo mecanismo afeta a política. Líderes emergem não pelo enraizamento em ideologias ou pelo compromisso com a causa pública, mas pela capacidade de ocupar o espaço mediático. Catapultados por algoritmos, propagandas e fake news, vivem da contradição performativa — dizem e desdizem, afirmam e retratam-se. O campo político transformou-se num mercado: o eleitor é um consumidor que troca de produto conforme a tendência. Os líderes e os seus programas políticos, tal como os nossos votos, são descartáveis.
A erosão das ideologias reforçou o vazio que tememos e a nossa vulnerabilidade à manipulação. Vivemos dentro de um círculo de desorientação. Perdemos guiões que, embora imperfeitos, ofereciam matrizes de posicionamento social e político. Hoje, as escolhas assentam sobretudo numa lógica comercial e afetiva, frágil e volátil. A linha do tempo da admiração já não progride: fecha-se nesse círculo, regressando a crenças dogmáticas, fronteiras e ódios tribais — agora exponenciados pela tecnologia e pelas redes sociais. Podemos chamar a isso a banalidade do mal: a normalização da irracionalidade e da violência.
Mas a erosão das ideologias não significa o seu desaparecimento. Há ideologias que se julgavam vencidas — pelas feridas que deixaram na humanidade — e que voltam a ganhar vigor. Fala-se em populismo, mas é sobretudo o culto da personalidade dos seus líderes que mobiliza essa banalidade do mal, atraindo a nossa admiração e o nosso voto. Esses líderes preferem a mentira à verdade; a crença à ciência; a guerra à paz; a desigualdade à igualdade; o confronto à fraternidade; o ódio ao amor.
A paisagem é sombria: desigualdade crescente, degradação ambiental e risco de colapso coletivo. A linha do tempo tornou-se um círculo à volta do nosso vazio.
Quanto tempo teremos de contemplar esses líderes no espelho, quando não somos nós, quando não queremos ser essa pessoa? Olhamo-los apenas por entretenimento?
Poderá haver muitas razões para acreditarmos que merecemos uma vida melhor, mas não há nenhuma que justifique deixarmo-nos manipular. A nossa inocência custa vidas, direitos e liberdades. E, nós os angolanos, bem sabemos, por experiência própria, que assim foi e ainda é!
Contudo, esta crítica não deve terminar no desespero. A admiração pode ser reorientada. Em vez do vazio da celebridade, podemos escolher a consistência da criação, do cuidado, da resistência. Ainda podemos colocar-nos do lado certo da história. Há sempre sinais de esperança.
A humanidade revela-se nas figuras que eleva. A condição humana é, nesse sentido, uma incondição: depende sempre das escolhas do presente. O vazio pode aprisionar-nos, mas também pode ser o espaço de um recomeço. Ainda podemos voar? Ainda podemos ser felizes? Estamos juntos!


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