Recado Social

DOR, PERDÃO, LUTO E RECONCILIAÇÃO

A CIVICOP (Comissão para a Reconciliação em Memória das Vítimas dos Conflitos Políticos), um órgão do Estado angolano, criado em 2019 pelo Presidente João Lourenço, encarregado de elaborar um plano geral de homenagem e localizar ossadas de vítimas dos conflitos políticos ocorridos entre 1975 e 2002, está a fazer o seu caminho.

No passado dia 22 de Maio, provavelmente deu um dos mais importantes quando,  em dia de Luto Nacional decretado a propósito, procedeu  à entrega formal de certidões e as ossadas das primeiras vítimas recolhidas de uma vala comum localizada no Cemitério da Mulemba,em Luanda, onde recentemente foram encontrados  mais de 600 restos mortais enterrados, na sequência dos violentos acontecimentos registados no país, antes, durante e depois do dia 27 de Maio de 1977.

De facto , foi um acto duro de se assistir, pois o momento era de muito sofrimento e envolvido por uma mescla de resignação e gratidão por, finalmente, aquelas pessoas terem a oportunidade de “lavar a alma”, descomprimir os corações e fazer o óbito daqueles que partiram.

A reconciliação é um processo longo. Dura décadas e décadas, mas chega sempre, desde que os homens expressem com sinceridade o que de bom têm no seu ser. Durante aquela cerimónia, confirmou-se que os angolanos são seres humanos especiais; sabem exprimir as suas mágoas, sobretudo também sabem como manifestá-las no momento certo, ainda que em todas as fases desta gesta histórica existencial do seu país, sejam sempre vítimas dos erros cometidos pelos políticos, indistintamente: sejam de bandeiras castanhas ou cinzentas…

Depois de 49 anos, os familiares, amigos e conhecidos daquelas vítimas foram capazes de manter viva a chama da esperança e voltar a reviver os tristes acontecimentos do nefasto “27 de Maio”. Testemunhou-se que, sim, é possível “abraçar e perdoar”. Mas a forte carga emocional do acto não lhes permitiu exprimir tudo o que lhes ia na alma, como é evidente, mas uma verdade deve ser dita: quem torturou ou matou e se viu o que aconteceu durante a cerimónia, se ainda estiver lúcido, julgou-se a si próprio; reviveu os momentos mais trágicos da sua vida. Pior ainda. Sabe que, quer quisesse, quer não, desde o “27 de Maio” jamais viveu em paz.

A CIVICOP tem muito trabalho pela frente. Talvez demore mais de uma década, mas é nobre. Dará continuidade do processo de exumação, localização e entrega das ossadas às famílias. Actos formais desta natureza prosseguem noutras províncias do país, onde hajam provas cabíveis da existência de mais vítimas, não só do “27 de Maio”, mas também de outros tantos registos ocorridos.

Em todo este processo há que assinalar o pedido de desculpas públicas do Presidente da República, João Lourenço, tendo salientado, ainda aos 26 de Maio de 2019 , que o momento “não é de se apontar dedos”.  “Este pedido público de desculpas e de perdão não se resume a simples palavras, ele reflecte o nosso sincero arrependimento e vontade de pôr fim à angústia que ao longo destes anos as famílias carregam consigo por falta de informação sobre destino dado aos seus ente-queridos”, disse.

 

Mas o Chefe de Estado mais afirmou: “Este povo heróico e generoso que já deu provas de saber perdoar, merece ouvir igualmente de quem tem a responsabilidade de o fazer, um pedido público de desculpas e de perdão pelas almas de Tito Chingunji, de Wilson dos Santos e respectivas famílias; das valentes mulheres das figuras da Jamba, dos passageiros do comboio do Zenza do Itombe, dos mártires da cidade do Cuito-Bié, do Huambo e de outros não citados aqui”.

 

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