O Ministro das Relações Exteriores de Angola, Téte António em entrevista em e-mail ao jornalista Victor Aleixo. revelou-se um africanista retinto na defesa do nosso Continente. Aparentemente tímido, Téte António, veterano na diplomacia, demonstra o seu patriotismo em relação ao nosso País, cuja diplomacia “é dinâmica face à conjuntura mundial, onde se observa que os considerados países grandes atiçam os pequenos, curiosamente para entregarem os seus recursos naturais. “Poligiota, o Ministro, para além de português e kikongo, língua materna, fala inglês, francês, russo e espanhol”.
Foi uma entrevista interessante para se ler e absorver as dinâmicas da diplomacia activa de Angola em África e no mundo. ”Angola é de paz e procura reciprocidade com todos países do mundo” – afirmou Téte António. É um documento para ler e sublinhar:
Figuras & Negócios (F&N) – “Senhor Ministro; muito obrigado por conceder esta entrevista à revista Figuras & Negócios. Gostaria de começar por perguntar: por que razão Angola aposta agora numa diplomacia mais activa no cenário internacional, como o Senhor afirmou recentemente?”
Téte António (T.A.) – “Muito obrigado pela oportunidade. Angola aposta numa diplomacia mais activa porque o mundo atravessa uma fase de profundas transformações, em que os países que permanecem passivos acabam por ver os seus interesses definidos por terceiros.
A política externa angolana assenta hoje numa visão clara: defender os interesses nacionais, reforçar a cooperação económica, atrair investimento produtivo, promover a paz e a estabilidade em África e afirmar Angola como um parceiro credível, previsível e responsável no sistema internacional.
Temos uma história marcada por sacrifícios, por luta pela soberania e por um percurso de reconciliação nacional. Essa experiência dá-nos autoridade moral para defender o diálogo, a paz e a concertação entre os povos. A diplomacia activa de Angola não é uma diplomacia de ruído; é uma diplomacia de resultados, de pontes, de equilíbrio e de afirmação estratégica.
F&N- Num mundo da geopolítica mundial onde existe uma ebulição, justifica-se essa diplomacia activa da República de Angola? Porquê?
T.A. – Sem dúvida. Precisamente porque o mundo vive uma fase de ebulição geopolítica. Angola deve estar mais presente, mais atenta e mais actuante.
Vivemos num tempo de rivalidades entre grandes potências, reconfiguração das cadeias de valor, tensões energéticas, desafios climáticos, insegurança alimentar, conflitos armados e competição por recursos estratégicos. Neste contexto, nenhum país pode dar-se ao luxo de permanecer isolado ou indiferente.
A diplomacia activa permite a Angola proteger melhor os seus interesses, diversificar parcerias, captar investimento, fortalecer a segurança regional e participar na definição das soluções que afectam África e o mundo. A nossa opção é por uma diplomacia pragmática, aberta a todos, subordinada aos interesses nacionais e comprometida com a paz, o desenvolvimento e o multilateralismo.
F&N – A propósito, Angola foi pela primeira vez, por coincidência com o senhor Ministro das Relações Exteriores, Presidente pro-tempore da União Africana. Cerca de cinquenta anos após a sua independência… Porquê dessa vez?
T.A. – A assunção, por Angola, da Presidência em exercício da União Africana constitui um momento de grande significado político, histórico e diplomático. Ocorre num período particularmente simbólico, próximo da celebração dos cinquenta anos da Independência Nacional, e representa o reconhecimento de uma trajectória de afirmação continental.
Angola não chegou a esta posição por acaso. Ao longo de décadas, o país consolidou uma imagem de actor sério, comprometido com a paz, com a mediação de conflitos, com a estabilidade regional e com a defesa dos interesses africanos.
A confiança depositada em Angola pelos Estados-membros da União Africana reflecte o reconhecimento do papel que o nosso país tem desempenhado, sobretudo na região dos Grandes Lagos, na África Austral e nos principais fóruns multilaterais. É também uma oportunidade para Angola contribuir para uma África mais unida, mais respeitada e mais capaz de falar com voz própria no mundo.
F&N – Depois da experiência da presidência pró-tempore da UA, Angola vê definitivamente que há a necessidade de mobilizar a África pela sua autonomia e desenvolvimento?
T.A. – Sim. A experiência da Presidência em exercício da União Africana reforça a convicção de que África deve acelerar o seu caminho rumo à autonomia estratégica, à integração económica e ao desenvolvimento sustentável.
O nosso continente possui recursos naturais abundantes, uma população jovem, vasto potencial agrícola, energético, mineral, tecnológico e humano. No entanto, continuamos confrontados com desafios estruturais: industrialização insuficiente, dependência de matérias-primas, défices de infra-estruturas, insegurança alimentar, conflitos armados e limitações no acesso ao financiamento.
Angola entende que chegou o tempo de África transformar o seu potencial em poder real de desenvolvimento. Isso exige integração continental, maior comércio intra-africano, investimento em infra-estruturas, educação, ciência, tecnologia, agricultura, energia e industrialização.
A autonomia africana não significa isolamento. Significa capacidade de decidir, negociar e cooperar com o mundo a partir de uma posição de dignidade, soberania e interesse próprio.
F&N- Há diversos conflitos em África e com países africanos, mormente na RDC, entre as autoridades congolesas e rwandesas, do Tchad com o Sudão, enfim no Burkina Faso, entre a Côte D’Ivoire e o Benin… Volto a falar da política diplomática de Angola: vai interceder com os países para uma perfeita harmonia africana?
T.A. – Angola tem defendido, de forma coerente, que os conflitos africanos devem ser enfrentados com diálogo, diplomacia preventiva, mediação responsável e respeito pela soberania dos Estados.
O nosso país tem uma experiência histórica particular. Conhecemos o preço da guerra e, por isso, valorizamos profundamente a paz. A nossa política externa não se orienta pela interferência nos assuntos internos dos Estados, mas pela disponibilidade para apoiar processos de aproximação, reconciliação e entendimento sempre que as partes assim o considerem útil.
Angola continuará a apoiar os esforços da União Africana, das comunidades económicas regionais e das Nações Unidas na procura de soluções pacíficas para os conflitos no continente. A estabilidade de África é condição essencial para o desenvolvimento, para a segurança colectiva e para a afirmação internacional do continente. Uma África em paz ganha voz, ganha respeito e ganha capacidade de negociação.
É evidente que muitos conflitos em África não podem ser analisados apenas numa perspectiva interna. Existem, em vários casos, interesses externos ligados a recursos naturais, corredores estratégicos, influência geopolítica, mercados, segurança e competição internacional.
Mas a resposta de África não deve ser o isolamento nem a hostilidade automática em relação aos parceiros externos. A resposta deve ser a maturidade política, a unidade continental e o fortalecimento das instituições africanas.
Angola defende que qualquer apoio externo deve respeitar a soberania dos Estados africanos, contribuir para a paz e estar alinhado com as prioridades definidas pelos próprios africanos.
O princípio é simples: África deve cooperar com o mundo, mas não deve abdicar de decidir sobre o seu próprio destino. Parcerias são bem-vindas quando são equilibradas, transparentes e orientadas para o desenvolvimento dos povos africanos.”
F&N – No conflito do Médio-Oriente, onde os EUA e Israel atacaram o Irão, qual é a posição de Angola? E também como pensa Angola sobre a posição de África neste conflito?
T.A. – Angola acompanha com profunda preocupação a escalada de tensões no Médio Oriente, uma região cuja instabilidade tem repercussões directas sobre a paz, a segurança internacional, a energia, o comércio e a economia mundial.
A posição de Angola é clara e coerente: defendemos o respeito pelo direito internacional, pela soberania dos Estados, pela Carta das Nações Unidas e pela resolução pacífica dos conflitos. Apelamos à contenção de todas as partes, à protecção das populações civis e à reabertura dos canais diplomáticos.
Angola considera que qualquer agravamento militar no Médio Oriente pode ter consequências imprevisíveis, não apenas para a região, mas para todo o sistema internacional. Por isso, privilegiamos a diplomacia, a negociação e o multilateralismo.
Quanto à posição africana, entendemos que África deve falar com responsabilidade e equilíbrio. O continente deve defender a paz, rejeitar a escalada militar e apoiar soluções negociadas, porque os efeitos das crises globais atingem também as economias africanas, especialmente nos domínios da energia, alimentação, comércio e financiamento.”
F&N – Não vê os EUA na presidência de Donald Trump atacar África ou, pelo menos, alguns países africanos como a Nigéria ou a África do Sul, por exemplo?
T.A. – Angola acompanha com atenção a política externa de todas as grandes potências, incluindo os Estados Unidos da América. Contudo, a nossa leitura é sempre feita numa perspectiva de Estado e não de conjuntura partidária.
As relações entre África e os Estados Unidos devem assentar no respeito mútuo, na soberania, na não ingerência, na cooperação económica e no reconhecimento do valor estratégico do continente africano.
Podem existir, em determinados momentos, divergências diplomáticas entre Washington e alguns países africanos. Isso faz parte da vida internacional. O essencial é que se preservem canais de diálogo, respeito institucional e capacidade de cooperação em áreas de interesse comum.
Angola entende que África deve reforçar a sua unidade, aumentar a sua capacidade negocial e construir parcerias equilibradas com todos os centros de poder mundial. O continente não deve ser apenas objecto da política internacional; deve ser sujeito activo dessa política.”
F&N – Como vê a ofensiva destruidora dos EUA sob a presidência de Donald Trump no mundo, notadamente na Venezuela, em Cuba e no Irão?
T.A. – Angola observa com preocupação todas as situações de tensão internacional que possam colocar em risco a paz, a estabilidade e o bem-estar das populações, seja na América Latina, no Médio Oriente ou noutras regiões.
A nossa posição tem sido consistente: defesa da soberania dos Estados, da não ingerência nos assuntos internos, do diálogo político e da resolução pacífica dos diferendos, de acordo com a Carta das Nações Unidas e os princípios do direito internacional.
Angola não acredita que o recurso à força, a pressão unilateral ou sanções excessivas sejam, por si só, caminhos sustentáveis para resolver crises complexas. Muitas vezes, essas medidas agravam o sofrimento das populações e dificultam soluções políticas duradouras.
Defendemos uma ordem internacional mais equilibrada, mais justa e mais inclusiva, onde o diálogo prevaleça sobre a confrontação e onde as diferenças sejam tratadas pela diplomacia.”
F&N – Com essa escalada ofensiva dos EUA, onde está pretensamente ajudar a Ucrânia contra a Rússia de Putin, o senhor não receia o início de uma guerra mundial? Se for assim, qual a posição de Angola que no momento está propensa a reforçar a “amizade estadunidense”, ao contrário do bloco contrário?
T.A. – A guerra entre a Rússia e a Ucrânia continua a ser uma das maiores preocupações da comunidade internacional, não apenas pelo sofrimento humano que provoca, mas também pelo risco de alargamento das tensões entre grandes potências.
Angola defende, desde o início, que a solução para este conflito deve ser política e diplomática. A nossa posição assenta em princípios: respeito pela soberania dos Estados, integridade territorial, cessação das hostilidades, protecção das populações civis e criação de condições para negociações sérias e credíveis.
Angola mantém relações históricas com vários parceiros internacionais, incluindo a Rússia, os Estados Unidos, a China, a União Europeia e os países africanos. A nossa política externa não se orienta por blocos ideológicos, mas por interesses nacionais, equilíbrio estratégico, diversificação de parcerias e defesa da paz.
Não se trata de escolher entre este ou aquele bloco. Trata-se de afirmar uma diplomacia soberana, que coopera com todos, sem abdicar dos seus princípios. Angola continuará a privilegiar o diálogo, a moderação e o multilateralismo como instrumentos para evitar uma escalada de consequências imprevisíveis.”
F&N – O antigo Presidente de Portugal, Mário Soares, uma vez disse, sobre Angola, que os dirigentes angolanos querem cooperar com a Europa que os despreza, ao contrário de África onde está inserida e que nos acolhe e apoia. Não concorda, senhor Ministro, que os angolanos cooperam e bajulam em Europa e desprezam a África irmã que tanta coisa tem para o fortalecimento e prosperidade do Continente?
T.A. – Essa reflexão é importante, porque toca numa questão central da identidade estratégica africana. Angola tem relações históricas, culturais, económicas e diplomáticas com a Europa, e essas relações devem continuar a ser desenvolvidas com respeito mútuo e benefício recíproco.
Mas Angola é, antes de tudo, um país africano. A nossa geografia, a nossa história, a nossa segurança e grande parte do nosso futuro estão profundamente ligados ao continente africano.
Não vemos a cooperação com a Europa e a valorização de África como dimensões incompatíveis. O desafio está em evitar relações de dependência e construir parcerias mais equilibradas. Angola deve cooperar com a Europa, com os Estados Unidos, com a China, com a Rússia, com o mundo árabe, com a América Latina e com a Ásia, mas deve fazê-lo a partir de uma consciência africana forte e de uma estratégia nacional clara.
África tem tudo para ser um dos grandes centros de crescimento do século XXI. Para isso, precisa de mais integração, mais comércio entre africanos, mais industrialização, mais mobilidade, mais infra-estruturas e mais confiança nas suas próprias capacidades.
Portanto, não se trata de bajular a Europa nem de desprezar África. Trata-se de cooperar com o mundo sem perder a nossa identidade, a nossa soberania e o nosso compromisso com o continente africano.”
F&N – O outro lado do Ministro Téte António. Diplomata experiente que sabe cozinhar contratos e acordos com os países.. Quem é o senhor em casa? Cozinha ou ordena só?
T.A. – Na vida pública, todos conhecem o Ministro pela função institucional, pelas negociações, pelas reuniões e pelos compromissos de Estado. Mas, em casa, procuro ser uma pessoa simples, próxima da família e consciente de que a vida não se resume aos protocolos oficiais.
A diplomacia ensina-nos a ouvir, a ponderar e a construir consensos. Esses valores também são importantes no ambiente familiar. Em casa, ninguém deve viver apenas de ordens. A família é um espaço de afecto, respeito, partilha e equilíbrio.
Quanto à cozinha, posso dizer que a diplomacia também tem algo de culinário: exige paciência, medida certa, conhecimento dos ingredientes e sentido de oportunidade. Um bom acordo, tal como um bom prato, raramente nasce da pressa. Nasce da combinação certa entre experiência, sensibilidade e tempo.
F&N-Dizem-me que o senhor é um poliglota que fala e escreve línguas diversas, mas é um diplomata comedido. Porquê esta posição, porquanto notamos diversos diplomatas no mundo “assanhados”, permitam-me o termo, muito conversadores como um jornalista?
T.A.-A diplomacia não é uma competição de palavras. É, muitas vezes, a arte de saber quando falar, como falar e quando permanecer em silêncio.
Falar várias línguas é importante, porque permite compreender culturas, negociar melhor, aproximar posições e reduzir mal-entendidos. Mas o domínio das línguas não deve conduzir ao excesso verbal. Pelo contrário, quanto maior é a responsabilidade, maior deve ser a prudência.
Há diplomatas que privilegiam uma postura mais pública e mediática. Outros preferem uma diplomacia discreta, serena e construtiva. Eu acredito que, em muitos momentos, uma palavra mal colocada pode fechar portas que anos de trabalho abriram.
Angola tem procurado afirmar uma diplomacia de equilíbrio, de ponderação e de resultados. Num mundo marcado por polarizações e discursos inflamados, a moderação não é fraqueza. É uma forma de responsabilidade.
F&N – Para afazeres de casa e como distração, gosta de música e quais? Leitura: o que está a ler?
Por sua compleição física, pratica ou praticou desporto? Qual?
Gosta de viajar pelo País e ao mundo, como diplomata e turista?
T.A. – A vida diplomática é muito exigente e deixa pouco espaço para uma rotina pessoal regular, mas é importante preservar momentos de equilíbrio.
A música tem um lugar especial na cultura angolana e africana. A nossa música transporta memória, identidade, alegria e resistência. É natural que alguém ligado à vida pública angolana tenha apreço pela riqueza da nossa expressão cultural, do semba à kizomba, da música tradicional às sonoridades africanas contemporâneas.
A leitura é indispensável para quem trabalha em política externa. Leio sobretudo sobre história, relações internacionais, geopolítica, economia, biografias e documentos estratégicos. Um diplomata que deixa de ler perde capacidade de interpretar o mundo.
Quanto ao desporto, procuro valorizar hábitos que ajudem a manter disciplina, saúde e equilíbrio. A função pública exige resistência física e mental.
Viajar, para um diplomata, é diferente de viajar como turista. Muitas vezes conhecemos aeroportos, salas de reunião, hotéis e conferências, mas nem sempre temos tempo para conhecer verdadeiramente os lugares. Ainda assim, cada viagem é uma oportunidade de compreender povos, culturas e realidades diferentes.
E quanto a Angola, acredito que todos nós devemos conhecer melhor o nosso próprio país. Angola é vasta, diversa e profundamente rica. Conhecer Angola é também uma forma de servir melhor Angola.
F&N – Muito Obrigado
T.A. – Agradeço à revista Figuras & Negócios pela oportunidade desta conversa. Angola continuará a desenvolver uma diplomacia activa, serena, soberana e orientada para resultados.
O nosso compromisso é com a paz, com o desenvolvimento, com a integração africana, com a defesa dos interesses nacionais e com a construção de uma ordem internacional mais justa, equilibrada e respeitadora da soberania dos Estados.
Muito obrigado.



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