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onsiderado com um dos grupos mais icónicos da música popular angolana, foi formado por jovens oriundos de famílias humildes, destacando-se, inicialmente, em festas de bairros. A denominação “Kiezos” tem origem na expressão em língua kimbundu, que significa “vassoura”. O conjunto é conhecido pela sua autenticidade e excelência artística, sendo um dos pilares do Semba e da identidade musical de Angola.
Entre desafios de consolidação política, reconstrução social e tensões do momento, a cultura emergia como território de reafirmação. Em Luanda, nos musseques e nos quintais onde se afinavam conversas com batuques, a música popular deixava de ser apenas entretenimento: tornava-se necessidade de identidade.
O grupo chegou a uma cena musical, onde o Semba já carregava a tocha acesa por gigantes como Bonga, cuja música levou a alma do país para palcos globais, Liceu Vieira Dias, fundador do histórico Ngola Ritmos, que provou que a modernidade podia dialogar com a dikanza sem trair o coração do bairro, e Artur Nunes, cuja voz chorava e dançava a mesma saudade.
Esses arquitectos deram estrutura ao som que Os Kiezos mais tarde consolidaria em formato popular, dançável e profundamente urbano, ampliando o género para as novas gerações e devolvendo-o ao povo com novas molduras.
Os Kiezos apresentou-se pela primeira vez em público, em 1969, no Ngola Cine e, em 1970, gravaram o primeiro disco na Voz de Angola. Foi numa altura em que entram para o conjunto o percussionista e vocalista Juventino Anselmo de Sousa Arcanjo, Vate Costa e Fausto Lemos. O último se notabilizou como um dos vocalistas principais desta formação.
Dos musseques para a posteridade – A história de Os Kiezos não pode ser separada da geografia sentimental dos musseques, territórios sociais e culturais onde o semba, a canção de intervenção e a lírica de reafirmação nacional encontraram abrigo. Foi ali, nessa cartografia de resistência e fraternidade, que jovens cantores moldaram harmonias que cruzavam tradição e modernidade, com arranjos vocais inspirados na lógica comunitária do canto africano, mas dialogando com influências de agrupamentos vocais lusófonos e do continente americano.
Os Kiezos é um grupo icónico da Música Popular Angolana. A história desse conjunto musical remonta ao bairro Marçal, quando Mestre Kituxi reuniu Marito, Adolfo Coelho e Avozinho. Juntos formaram um grupo anónimo que animava as noites no Marçal.
Os Kiezos têm uma grande relevância histórica na complexa tessitura social da Música Popular Angolana. Alguns dos temas famosos associados a eles incluem “Comboio”, “Milhoró”, “Princesa Rita”, “Zá Boba”, “Tristezas não pagam dívidas”, “Monami” e “Nganga Nzambi”. Na estrutura dessas músicas, é possível vislumbrar ingredientes da música latino-americana, rock e do Congo Democrático.
A voz como arma e abraço – Se o semba já era a espinha dorsal da expressão popular, o grupo, com o seu canto colectivo, elevou-o a formato épico. As suas músicas tornaram-se crónicas cantadas da vida quotidiana, do amor, da dor social, da esperança e da luta política. Os Kiezos, mais que um conjunto artístico, funcionou como espelho identitário de um povo. Cantava para unir, consolar, alertar, mobilizar.
Diferente dos projectos formatados em laboratórios de estúdio, Os Kiezos surgiu de algo mais orgânico: a música que se aprende no convívio, na improvisação de festas de bairro, nas serenatas noturnas e na prática de coro. A sua assinatura artística firmou-se na fusão de três pilares: Vocal potente e harmonizada, vozes que não disputam protagonismo, mas se entrelaçam em polifonias quase espirituais, lembrando a estética dos corais de musseque, Ritmo dançante e percussivo, congas, bateria, dikanza (dikanza aqui simbolicamente referida sem repetir nomes), guitarra limpa e alegre, metais cintilantes, tudo organizado para conduzir corpo e espírito à mesma cadência.
Letra de rua com profundidade universal, canções que narram amor, desilusões, humor social, orgulho nacional e a visualidade da vida quotidiana, com a suavidade moral das narrativas orais africanas e a clareza directa da linguagem popular.
Era a Luanda que se reconhecia nas suas histórias cantadas; era o interior do país que se ouvia na alma melódica das composições; era, sobretudo, a ideia de colectividade a falar mais alto do que o individualismo artístico.
Influência, estética e diálogo – Quando outras cenas lusófonas se projectavam com narrativas mais cosmopolitas, Os Kiezos fez o caminho inverso: tornou global o que era local, sem diluir a essência africana e angolana. Em vez de importar identidades, exportou autenticidade. A sua estética musical e performativa dialogava com a musicalidade urbana dos musseques de Luanda, especialmente a cultura vibrante de bairros como o Prenda, território simbólico do semba moderno, a ligação orgânica entre celebração e reflexão social, traço marcante das letras de música popular do país e a introdução habilidosa de instrumentos modernos, sem perder a percussão tradicional e o poder coral.
Ao longo do seu percurso, o grupo conquistou palco e audiência em várias geografias. A sua música percorreu países africanos, cidades europeias e festivais internacionais, projectando uma Angola sonora antes mesmo de o país se afirmar politicamente no mapa mundial.
Naquela altura, Os Kiezos conseguiu fazer uma tournée pela Europa Ocidental, o que era muito difícil. França, Alemanha Ocidental, Bélgica e Itália marcaram o roteiro internacional, nos anos 80, de um conjunto que continua a marca a cena musical angolana.
“A história de Os Kiezos prova algo essencial: a música angolana não precisa de tradução, ela traduz quem somos. E se amizade tem som, ela dança semba e chama-se Kiezos”



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