Texto Manuel Muanza (Jornalista)
Fotos Arquivo FN
A imprensa da RDCongo crê que João Lourenço, presidente de Angola, restabelecerá o caminho para uma mediação regional conducente à paz. João Lourenço avançou propostas tidas por Kinshasa como chave para a paz. A imprensa congolesa deixa entender que o governo congolês e a opinião pública vêem com interesse a retoma do papel de mediador entre Tshisekedi (RDCongo) e Paul Kagame (Ruanda) por parte do também chefe de Estado Angolano. La Prospérité noticia que João Lourenço terá informado Thisekedi sobre a sua intenção de “reunir rapidamente os representantes de Kinshasa e Kigali para ultrapassar obstáculos que inviabilizam os acordos”. Ao veicular esta visão, o influente diário Le Potentiel sublinha o “falhanço da facilitação” das negociações conduzidas pelo Qatar. A esperança na “mão forte” de João Lourenço terá sido a causa da viagem a Luanda de Félix Tshisekedi, segundo a fonte. Para Congo Nouveau, idas a Luanda encobrem um “jogo de alianças onde paz, poder e interesses estratégicos se entrelaçam”. No plano interno, a oposição reclama por um “diálogo nacional inclusivo” destinado a debater a crise em diversos sectores do Estado. Adversários de Tshisekedi acusam-no de privilegiar a diplomacia junto dos actores externos em Whashington e Doha.
“Mão forte” de João Lourenço
Para o diário Le Potentiel, o último encontro, em Luanda, aconteceu “por iniciativa” de João Lourenço. O jornal qualifica de “falhanço” a intervenção de Qatar na facilitação das negociações entre a RD Congo e Ruanda.
Presidente da União Africana, João Lourenço terá avançado “algumas propostas” consideradas “muito interessantes” e “susceptíveis de ajudar bastante” na busca de “saída pacífica ao conflito”, segundo Le Potentiel citando Félix Tshisekedi.
Em função de tais propostas avançadas por João Lourenço, o também chefe de Estado Angolano informou Thisekedi sobre a sua intenção de “reunir rapidamente os representantes de Kinshasa e Kigali para ultrapassar obstáculos que inviabilizam os acordos”, noticia o La Prospérité.
Infos7 refere que “as propostas invocadas em Luanda são recebidas por Kinshasa como complementares aos quadros diplomáticos engajados nomeadamente em Washington e Doha”.
O trissemanário Congo Nouveau explora o vai-vem Kinshasa-Luanda do chefe de estado da RD Congo: “as idas e voltas reiteradas de Félix Tshisekedi a Luanda encobrem um jogo de alianças, onde paz, poder e interesses estratégicos se entrelaçam”.
Esta publicação deixa entender que João Lourenço terá produzido contribuições relativas aos caminhos para uma solução à crise interna na RD Congo. Quanto a esta temática, recorde-se haver forte pressão dos adversários de Félix Tshisekedi e da sociedade civil congoles com a finalidade de obrigar o chefe de estado a lançar um “diálogo interno inclusivo”.
Infos27, editado em Kinshasa para circulação em linha, exprime surpresa por haver “dois encontros em menos de uma semana” em conversa à porta fechada: “o mesmo local, a mesma estaca”.
Trata-se de uma expressão (“a mesma estaca”) que remete para a ideia de lançar as bases para a paz a partir do zero tendo Luanda como ponto de sustentação, visto o “falhanço” de Doha e as interrogações de Washington.
Em editorial publicado na sequência dos preparativos de Tshisekedi para a ida a Luanda, La Prospérité questiona os benefícios dos acordos de Washington e Doha. “O barómetro dos acordos de paz assinados põe à luz uma realidade inquietante: Um afogamento flagrante da prática dos acordos. A violência continua no Leste do país, apesar dos acordos de Washington e Doha. A expectativa foi tão grande, agora constata-se que nenhum avanço significativo foi realizado”.
Tendencialmente muito crítico em relação aos actores políticos, La Prospérité assinala a “falta de provas visíveis da implementação desses acordos, o que levanta questões sobre a vontade real dos dirigentes congoleses e ruandeses de construir uma paz duradoura”.
O editorialista atribui tal “estagnação na execução dos acordos” às “fragilidades inerentes às dinâmicas da paz marcadas por interesses geopolíticos divergentes e desafios internos mal definidos”.
Nova fórmula diplomática
Segundo Infos 27, a presença de Tshisekedi em Luanda tem a ver com o facto de que “João Lourenço é visto como um pivô capaz de relançar os mecanismos africanos de prevenção e de resolução de conflitos”.
O uso da fórmula “guerra imposta” por Félix Tshisekedi, em declarações na capital angolana, “visa reposicionar o debate, deslocando-o do conceito de ‘insegurança endémica’ para o de ‘responsabilidade regional”.
O conceito de “responsabilidade regional” terá sido detalhadamente exposto por Félix Tshisekedi durante a conversa com o seu homólogo João Lourenço quando explicou “a situação nas províncias orientais”, escreve Nouveaumedia.CD.
Segundo a mesma fonte, Tshisekedi explicou serem os “grupos armados na região” responsáveis pelas actividades bélicas na região.
“Félix Tshisekedi exprimiu o reconhecimento a João Lourenço pelo seu engajamento na procura da paz na RDC”, no decurso do encontro entre ambos os estadistas, indica a mesma publicação.
João Lourenço, por sua vez, “na qualidade de presidente em exercício da União Africana”, veiculou o desejo de ver mudanças na crise securitária que perdura no Leste da RDCongo”, escreve o La Prospérité.
Para atingir este objectivo, João Lourenço “anunciou a sua intenção de reunir rapidamente os representantes de Kinshasa e Kigali para remover os obstáculos aos acordos”, acrescenta a mesma fonte.
Diálogo inclusivo
Na véspera da última visita de Tshisekedi, Congo Nouveau augurava ver o encontro de Luanda “a não se limitar ao dossier concernente à segurança: poderá abordar a questão de um diálogo nacional inclusivo, chave para uma solução política e social na RD Congo”.
Adversários do presidente Félix Tshisekedi e a sociedade civil instam-no a convocar o “diálogo nacional inclusivo” destinado a debater abertamente a crise.
Actualité.CD entende que “o chefe de estado privilegia até aqui iniciativas diplomáticas internacionais de Washington e Doha”.
No dizer do opositor Martin Fayulu, “recusar o diálogo inclusivo que é uma necessidade vital, é recusar a paz”, numa clara “interpelação a Félix Tshisekedi”, noticia Actualité.CD.
Na perspectiva de Martin Fayulu, líder do partido ECiDé (Compromisso para a Cidadania e Desenvolvimento), as investidas diplomáticas de Tshisekedi “não poderão substituir um diálogo nacional inclusivo forjado pelos próprios congoleses”.
Fayulu procurou justificar a manutenção da crise congolesa, associando-a à tese segundo a qual Tshisekedi não terá vencido as eleições de 2018, facto cujas repercussões “expõem o país a pesadas consequências”.
O opositor remete para Félix Tshisekedi a “pesada responsabilidade política” por se recusar ao diálogo.
Por sua vez, o jornal La Prospérité sugere “diálogo sustentado por acções concretas, permitindo à RD Congo sarar as suas feridas e construir bases para a paz duradoura”.



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