Da luta pelo desenvolvimento da indústria naval, com foco no ramo militar, às perspectivas de soberania energética e autonomia nos derivados do petróleo, a “nascente” do maior Corredor Económico do País reforçou o estatuto de uma potência industrial aberta ao mundo. No caso da Refinaria, ficou patente que o processamento de 200 mil barris de petróleo por dia será integrado numa cadeia com produtos petroquímicos e enxofre granulado, matéria-prima para os fertilizantes agrícolas.
Texto: Marcos Pontes António
Com a inauguração, a meio do mês de Janeiro, da primeira de três linhas de montagem de embarcações militares, a Lobinave – Estaleiro Naval do Lobito, na província de Benguela, posiciona-se na rampa de lançamento rumo à recuperação do potencial que começou a exibir há 70 anos, devendo voltar a reparar entre 20 e 40 navios por mês.
Por ora, a linha de montagem inaugurada pelo ministro de Estado e Chefe da Casa Militar do Presidente da República, Francisco Furtado, está apenas para embarcações militares, mas a evolução permitirá prestar assistência também a meios civis.
Na Lobinave, empresa metalúrgica e de reparação naval, vão ser produzidas embarcações dos tipos WP18 e DV 15, ambas de alto desempenho, para a Marinha de Guerra.
A revitalização da indústria naval no ramo militar, em parceria com a empresa francesa CN Naval, é a resposta, diz o general Pereira Furtado, à nova dinâmica geo-estratégica mundial.
Num futuro próximo, já com as duas outras linhas em operação, será prestada assistência a embarcações de marinhas mercantis de outros Países, fundamentalmente daqueles que integram a Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral (SADC).
“As circunstâncias geo-estratégicas obrigam que os Estados tenham capacidade de defesa. Angola possui uma costa marítima de 1650 quilómetros, com uma zona económica exclusiva de quase 200 milhas náuticas”, justificou o ministro de Estado
Tanto que a Marinha de Guerra, como explicou Pereira Furtado, recebeu, em Outubro de 2025, duas aeronaves adquiridas pelo Executivo angolano para o reforço da vigilância.
“Tudo isto numa estreita relação com a Força Aérea Nacional. A Marinha, hoje, é capaz de garantir a defesa das nossas águas territoriais”, assegurou o ministro de Estado, ao revelar que outros investimentos em curso permitirão equipar o Exército, principal ramo das FAA.
Responsáveis da francesa CN Naval vaticinaram um estaleiro importante na região austral, até pela “posição estratégica” de Angola, reiterando que “toda a tecnologia será feita a partir do Lobito”.
Na sua intervenção, o presidente do Conselho de Administração da Lobinave, Hermenegildo dos Santos, não avançou o orçamento da linha de montagem, mas sublinhou que o Estado angolano é, actualmente, o principal pivot deste investimento.
Ao assinalar que a CN Naval é o parceiro que trata da montagem, o gestor aventou a possibilidade de capital estrangeiro na Lobinave, havendo já negociações nesse sentido.
“O objectivo é devolver a capacidade instalada, mas com nova tecnologia. Dependendo do porte de cada um, podemos chegar a reparar até 40 navios por mês”, frisou.
Os catamarãs são algumas das embarcações civis que terá assistência no Estaleiro Naval do Lobito, ao abrigo de um protocolo com a Sécil Marítima.
SONAREF ACELERA PARA 2027 COM RECURSO À BANCA
Se na Lobinave já se respira o ar da primeira fase do relançamento da fábrica, num outro ponto do potencial industrial do Lobito, que é o projecto Sonaref (Refinaria), corre-se para Dezembro de 2027. Nesta altura, partindo do pressuposto de que tenham decorrido cinco meses de testes, o empreendimento idealizado para a auto-suficiência em termos de derivados do petróleo começa a produzir.
Ainda sem a gasolina, a Refinaria do Lobito, vista como sinónimo de segurança energética, arranca com o gasóleo, Hfo-Fuel oil, derivado usado em embarcações como porta-contentores e petroleiros, e jet- A1, para aeronaves.
A primeira fase vai absorver 3,8 mil milhões de dólares, pouco mais de 50 por cento do valor total, que é de USD 6.3 mil milhões.
Desde Maio de 2023, quando o Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás consignou o reinício das obras à China National Chemical Engineering Company (CNCEC), a Sonangol aplicou já 1,4 mil milhões de dólares norte-americanos.
Agora, ainda sem parceiro com investimentos para fazer parte da estrutura accionista, está a negociar dois créditos, um de dois mil milhões e outro de 170 milhões de dólares, com bancos chineses e angolanos.
A petrolífera angolana já só conta com uma reserva financeira de USD 281 milhões para as suas operações ao longo do primeiro trimestre deste ano.
Garantidos, segundo o coordenador do projecto Sonaref, Guiomaro Correia, estão equipamentos pesados avaliados em 330 milhões de dólares.
Só em 2029 a Refinaria do Lobito estará a 100%, já a produzir gasolina e gás, produto que será aproveitado para gerar energia. Até à chegada deste momento, a sua nafta vai ser transformada em gasolina na Refinaria de Luanda.
Terá espaço, numa área total de 3.800 hectares, para desenvolver a indústria petroquímica e produzir o enxofre granulado, a partir do qual se pode avançar para a produção de fertilizantes.



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