Sociedade

O NATAL EM ÁFRICA COM ÊNFASE EM ANGOLA

Escrito por figurasnegocios

Em África, em geral, o Natal é celebrado com fé, música, partilha comunitária, dança, comida tradicional e forte sentido de família, sendo, de uma maneira comum, uma celebração rica em tradições, costumes e simbolismos que variam de região para região, nomeadamente, nas dissemelhanças entre os “Natais” na África do Norte e no Sahel, onde predomina o islamismo, e o Natal sub-sahariano, onde o Natal é um misto de religiosidade cristã mesclada com rituais de base animista, o que lhes dá uma característica muito própria dos Africanos.

Por: Eugénio Costa Almeida*
Foto: Arquivo F&N

De uma maneira geral na África sub-sahariana, a celebração centra-se mais na partilha e na presença da família alargada do que no consumo material. As igrejas –católicas, protestantes ou evangélicas – desempenham um papel central, com missas longas, cânticos corais, danças e encenações do nascimento de Jesus. Em muitas regiões, o Natal é um misto de religiosidade cristã mesclada com rituais de base animista, o que lhes dá uma característica muito própria dos Africanos. As celebrações começam na véspera e prolongam-se por vários dias. A música e a dança tradicionais misturam-se com hinos cristãos – e, ou, animistas cooptados pelas igrejas cristãs –, criando um ambiente festivo e identitário. A comida tem grande simbolismo: prepara-se aquilo que é possível, mas partilha-se com vizinhos e visitantes, reforçando laços sociais. Mesmo em contextos de pobreza ou instabilidade, o Natal é visto como tempo de esperança, reconciliação e renovação espiritual

E em Angola, um País com uma diversidade cultural marcante, como todos os Países sub-saharianos, em geral, no Natal também misturamos a religiosidade com as tradições locais, independentemente do actual contexto político, social e económico do País.

No entanto, há que ressalvar que após a independência e devido à linha política vigorante, à época, o Natal, ainda que se tenha mantido em muitos lares – onde era possível, devido ao conflito interno, a guerra-civil – passou a ser denominado de “Dia da Família”.

No geral, Angola, após anos de guerra-civil, que terminou em 2002, tem enfrentado desafios significativos em termos de desenvolvimento social e económico. A economia angolana, historicamente dependente do petróleo, sofreu um declínio acentuado nos últimos anos devido à queda dos preços do petróleo e à necessidade de diversificação económica. Este cenário económico impacta directamente a forma como as festividades, como o Natal, são vivenciadas pelo povo angolano.

Politicamente, Angola tem passado por transformações desde a eleição de João Lourenço em 2017. Embora tenha prometido reformas e um combate sério à corrupção, o País ainda enfrenta tensões sociais e uma população que clama por melhores condições de vida. O Natal surge, pois, como um momento de reflexão e esperança, onde muitos angolanos buscam um escape no meio das dificuldades quotidianas.

Daí que as tradições Natalinas em Angola, celebrado, como em todos os Países cristãos, no dia 25 de Dezembro, é um evento de grande importância religiosa e social. De notar que após a independência e para retirar religiosidade à celebração, dado o País ter optado por uma via socialista laica. As festividades começam semanas antes, com a preparação das igrejas e dos lares. Muitas famílias angolanas – embora algumas, a certa altura, se tenham se afastado da religião, se bem que a actual situação política e social, comece a reencaminhar as populações para as Igrejas, em geral, – ainda mantêm a tradição de celebrar o Natal, qualquer que seja o rito cristão que abracem.

As celebrações tradicionais começam com a Missa do Galo, realizada na véspera de Natal, onde os fiéis se reúnem para celebrar o nascimento de Jesus. As igrejas, decoradas com luzes e enfeites, atraem multidões que participam desse momento espiritual. A música é uma parte essencial da celebração, com corais e grupos de jovens que entoam hinos natalinos, muitas vezes mesclados com ritmos africanos, criando uma atmosfera forte, vibrante e festiva.

E, naturalmente, após a missa há as oferendas ao estômago que podem ir da habitual Ceia de Natal ao almoço de Natal. E estas oferendas mostram quanto os Angolanos levam a sério este acto. No geral, procuramos que as mesas sejam fartas, com pratos típicos nacionais que refletem a riqueza multi-cultural da culinária angolana. Ainda que, em muitas mesas haja um resquício colonial que nalgumas delas se torna num prato tradicional, o “bacalhau” (se bem que só para os mais abonados), o frango grelhado, a carne de porco, alguns uma caldeirada de cabrito e, principalmente, a maioria, a funjada (à base de farinha de mandioca) acabam por ser os pratos mais consumidos, por serem os mais económicos. Para acompanhar, nada como as nossas bebidas típicas como a “Cuca” (cerveja) ou, nos bolsos menos “fartos” escorre o marufo ou maluvo (vinho de palma, na maioria dos casos, mas também de cajueiro), proporcionando um toque especial ao encontro familiar.

A partilha dos presentes, embora não tão comum como noutras culturas, também faz parte da tradição. Muitas crianças esperam ansiosamente pela chegada do “Pai Natal”, que, em algumas regiões, é representado por figuras locais, que, mais que presentes, acabam por nos dar alegria e esperança.

E a esperança é cada vez mais necessária face à situação social e política do País. Nesse contexto, o Natal em Angola acaba, também, por ser um momento de reflexão sobre os desafios enfrentados no e pelo País. As desigualdades sociais são cada vez mais patentes, e muitas famílias lutam para colocar comida na mesa, especialmente em tempos de crise económica, de que não podemos escamotear. O desemprego e a pobreza afectam uma parte significativa da população, e, para muitos, o Natal pode ser mais uma triste recordação das muitas dificuldades, do que uma desejada celebração.

No entanto, o espírito natalino também traz uma mensagem de esperança e solidariedade. Muitas organizações não governamentais (as ONG) e grupos comunitários tentam promover campanhas de doação durante esta época, arrecadando alimentos e roupas para os mais necessitados. Esse gesto de compaixão é uma maneira de a comunidade se unir e ajudar aqueles que enfrentam dificuldades, reforçando os laços de solidariedade que são fundamentais em tempos tão desafiadores.

E neste aspecto a Juventude tem um importante papel, já que, em muitos casos, são, frequentemente, os responsáveis por organizar celebrações, eventos e actividades que promovam a união e a alegria nas comunidades. A música e a dança são elementos essenciais, e muitos grupos de jovens usam essa época para promover eventos culturais que valorizam a nossa identidade angolana. A mistura de tradições africanas e influências ocidentais cria um ambiente festivo e inclusivo, onde todos são convidados a celebrar.

Resumindo, o  Natal em Angola, é, pois, uma época de celebração, mas também de reflexão sobre o contexto político, social e económico do País. É um momento em que as famílias se reúnem, as tradições culturais são reforçadas e a esperança por dias melhores é renovada.

Apesar das dificuldades, a força do Povo Angolano e a sua capacidade de resiliência fazem do Natal não apenas uma festividade, mas um símbolo de união e esperança visando um futuro mais próspero. As celebrações natalinas em Angola, com suas cores, sons e sabores, refletem a rica “tapeçaria” multi-cultural do País, mostrando que, mesmo em tempos difíceis, a alegria e a solidariedade encontram um espaço para florescer.

Neste contexto, desejo a todos, e por isso mesmo, um Feliz e Solidário Natal e um excelente Ano de 2026, cheio de Paz – como ela é cada vez mais necessária, não só no País, como a nível mundial –, Amor, Fraternidade e muita Solidariedade.

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*Pós-Doutorado; Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL), Investigador-Sénior Associado do Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA/Angola Research Network) e Investigador-Associado do CINAMIL **
** Todos os textos por mim escritos só me responsabilizam a mim e não às entidades a que estou agregado.

Sobre o autor

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