Economia & Negócios

Política protecionista não resultou em melhorias para os EUA

Escrito por figurasnegocios

Vítor Norinha
vnorinha@gmail.com


A balança comercial dos EUA não melhorou depois de 1 ano de políticas protecionistas, nomeadamente com a imposição de tarifas. A análise é do segurador Crédito y Caución que afirma terem os EUA entrado “numa fase estruturalmente protecionista, que representa uma rutura com décadas de abertura comercial que persegue objetivos geopolíticos em vez de eficiência económica”.

Referem estes analistas que a política da administração Trump “remodelou os padrões comerciais, mas não conseguiu alcançar uma melhoria duradoura na balança comercial”.  E o aumento das tarifas teve como consequência a mudança das decisões de aprovisionamento, registou a desvinculação da China e forçou o desvio comercial para outros parceiros comerciais, especialmente em maquinaria e equipamentos elétricos. Temos também maior instabilidade no comércio internacional com as tarifas, depois de que algumas dessas tarifas foram invalidades por deliberação do Supremo Tribunal. Logo depois desta decisão, o Governo norte-americano impôs uma tarifa universal de 10% sobre todas as importações, sendo que esta é uma medida temporário por 150 dias. Diz a economista sénior da Atradius, Dana Bodnar, que o reajuste do quadro tarifário “não deve ser confundido com um regresso a barreiras mais baixas”, e isto porque com a nova taxa fica-se num nível da ordem dos 13,9%, e que é seis vezes superior ao que existia antes das decisões da administração Trump. Acrescenta que o facto de ser uma tarifa temporária significa que há maior imprevisibilidade para as empresas.

No entanto, revelam os analistas os importadores norte-americanos estão a absorver o impacto das tarifas, o que não facilita o objetivo inicial que era a relocalização das cadeias de produção, ao mesmo tempo que acelera a fragmentação das cadeias de distribuição e aumenta as pressões financeiras sobre as empresas. O segurador antecipa custos crescentes dos produtos e atritos comerciais,

Custos das matérias-primas

Embora o momento atual seja de paz temporária para que EUA e Irão alcancem um cessar-fogo definitivo, assim como se define a situação no Líbano, as perturbações no abastecimento de matérias-primas através do Estreito de Ormuz mantêm a volatilidade dos preços. O anúncio da abertura do Estreito de Ormuz durante o período de tréguas fez baixar o preço do crude, muito embora os últimos dias tenham levado o valor do crude a estabilizar em torno dos 100 US dólares, mas há crescentes notícias de escassez de derivados, sobretudo do jet fuel para a aviação comercial, com algumas companhias a anunciarem a redução do número de rotas exploradas.

Assinala um estudo do final de março da responsabilidade do economista setorial do segurador de crédito Coface, Simon Lacoume, que a subida do preço do brent é desigual, e varia consoante a região e o produto. O crude Omã DME ultrapassou os 160 US dólares/barril, enquanto o WTI norte-americano se mantém próximo dos US 100 dólares. A propagação desta subida para os derivados é nítida, tendo o preço médio da gasolina nos EUA subido 35%, e em Singapura o preço do gasóleo triplicou e o preço do jet fuel duplicou na Ásia, segundo a IATA. No gás natural os futuros do TTF holandês dispararam 85% num mês, e o índice asiático de LNG Japan/Korea Marker duplicou durante o mês de março.

Mas podemos falar ainda do aumento dos preços dos compostos petroquímicos, relevante para a indústria de plásticos, e em que uma tonelada de nafta subiu para os mil dólares a tonelada, um aumento de 60% durante o mês de março. O enxofre revelou uma subida de 25%, um componente usado na indústria do minério de cobre e níquel, e que afeta países como o Chile, a República Democrática do Congo ou a indonésia. Os fertilizantes estão em forte alta, pois o gás natural representa até 80% dos custos de produção de fertilizantes azotados, o que levou a ureia granulada a subir 37%. Os agricultores norte-americanos estão a ser afetados e a perspetiva é que a inflação do preço dos fertilizantes afete o Brasil, Índia e alguns países europeus. O alumínio é o metal em maior risco, pois os países do Golfo são responsáveis por parte da produção mundial, e não conseguem importar bauxite e alumina, componentes necessários para as fundições. A Mosal, em Moçambique, anunciou a suspensão das operações devido aos custos energéticos. Em março o alumínio subiu 11%.

Mercosul e a Europa

A União Europeia está a avançar com a aplicação provisória do acordo comercial com o Mercosul, que foi assinado em fevereiro, mas que ainda tem obstáculos na ratificação. As oportunidades deste acordo a nível de transição energética e a diversificação de fornecedores fora da China, é relevante. A UE tem necessidade de fontes alternativas de matérias-primas criticas e os países da América do Sul podem fornecer essas commodities. A Crédito y Caución salienta a disponibilidade da Argentina a nível de lítio, enquanto o Brasil dispõe de grafite, manganês, níquel, bauxite e elementos de terras raras. A UE está igualmente a reduzir a dependência da Rússia a nível e petróleo e gás e conta com os mesmos dois países, destacando-se o potencial no hidrogénio verde.

As controvérsias que lançam “areia na engrenagem” vêm dos agricultores europeus que terão concorrência da América do Sul e que, segundo eles, terão padrões ambientais menos rigorosos. O acordo tem, no entanto, quotas para produtos sensíveis como carne de vaca, aves, açúcar e alguns produtos lácteos. O objetivo final é que ao longo dos próximos 15 anos sejam eliminadas tarifas sobre 91% dos produtos comercializados entre a UE e o Mercosul. Os europeus que mais irão beneficiar deste acordo serão os exportadores de maquinaria, veículos e produtos químicos.

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