Nuno Ribeiro da Silva analisa a ruptura estratégica dos EAU com a OPEP e os desafios da autonomia energética europeia e o alerta para o “folclore” radical nas metas da transição energética.
“Os Emirados Árabes Unidos representam uma espécie de ‘Brexit’ dentro da OPEP”, disse ao SOL Nuno Ribeiro da Silva, antigo secretário de Estado da Energia, que presidiu à Partex e à Endesa Portugal. Economista e gestor com longa experiência no sector energético e petrolífero, falou-nos sobre a dimensão global da crise energética. Começamos pelas notícias mais recentes — a saída dos Emirados da OPEP — e as possíveis repercussões nos preços do Brent, que, para Ribeiro da Silva, não serão significativas.
“Ao contrário de outros países que abandonaram a organização — como o México ou a Indonésia — e que deixaram de ter relevância como exportadores, os Emirados mantêm uma posição de forte exportador líquido, com uma produção acima dos quatro milhões de barris por dia e um consumo interno significativamente inferior, menos de um milhão”, explicou. E acrescentou: “Já existiam várias divergências entre os Emirados e a OPEP, sobretudo devido às quotas de produção, vistas como limitadoras da capacidade de exportação de Abu Dhabi. Num país fortemente dependente da receita petrolífera, esta ‘monodependência’ tornava essas restrições mais sensíveis.”
“A saída surge, neste contexto, como uma oportunidade estratégica — a cereja no topo do bolo — permitindo libertarem-se das quotas e aumentarem a margem de exportação, com capacidade para colocar no mercado cerca de 1,8 milhões de barris adicionais por dia através de pipelines que contornam o Estreito de Ormuz. Este acesso alternativo reduz a vulnerabilidade ao risco geopolítico e reforça a autonomia comercial”, explicou. E prosseguiu: “Aquilo que poderia ser visto como uma crise interna transforma-se numa oportunidade: os Emirados ganham flexibilidade e competitividade. O petróleo torna-se mais valorizado pela menor exposição ao risco e pela maior segurança logística.” Ainda assim, ressalva: “No plano global, o impacto é limitado, mas contribui para reconfigurar o equilíbrio interno da OPEP e do mercado do Brent, introduzindo alguma incerteza.”
A União Europeia tem vindo a tomar medidas — nem sempre alinhadas entre Estados-membros — para responder à crise energética, agravada pelo conflito no Médio Oriente e pelo fecho do Estreito de Ormuz. Ainda assim, Ribeiro da Silva considera que Bruxelas dispõe já de um quadro legislativo robusto, nomeadamente através do RePowerEU e dos planos climáticos nacionais. O problema, diz, é a incerteza: “O contexto é altamente volátil, marcado por factores geopolíticos erráticos, o que torna inevitáveis medidas temporárias de emergência.”
O especialista sublinha que a Europa continua longe da soberania energética, apesar dos avanços na diversificação de fontes, interligações e reservas estratégicas. Durante décadas, argumenta, privilegiou-se o custo e o ambiente, negligenciando a segurança do abastecimento — um dos três pilares essenciais, a par da sustentabilidade ambiental e da acessibilidade económica.
Desde a guerra na Ucrânia houve progressos — terminais de gás natural liquefeito, mais renováveis, maior eficiência e armazenamento —, mas a transição energética continua a ser lenta e estrutural. “À esquerda, acha-se que as renováveis resolvem tudo num ápice. Mas quando dizemos que Portugal produz 80% da energia, estamos a falar de 80% de 25% do consumo. Estamos no bom caminho, mas vai demorar muito tempo a electrificar os usos finais. E não é só mudar a fonte — é mudar os equipamentos.” E conclui: “Dizer que se acaba com o petróleo de um dia para o outro era pôr a economia à bofetada.”



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