O teatro continua a desempenhar um papel determinante na promoção da inclusão social, formação de cidadãos e valorização cultural em Angola, afirmou o actor angolano Quim Fasano, conhecido artisticamente por “Xico Caxico”.
O artista destacou que a arte cénica constitui uma plataforma privilegiada para dar voz a grupos marginalizados, partilhar histórias pouco conhecidas e fomentar a empatia entre os indivíduos.
“O teatro congrega diferentes experiências e pontos de vista, transmitindo empatia e compreensão entre as pessoas”, sublinhou.
Papel formativo e social- Para Quim Fasano, o teatro vai muito além do entretenimento, assumindo-se como um instrumento de formação e informação, capaz de abordar questões sensíveis da sociedade, como a injustiça, a desigualdade social e o preconceito.
Segundo o actor, a prática teatral permite ao ser humano conhecer-se melhor, ao mesmo tempo que reforça valores sócio-culturais das comunidades, funcionando como um verdadeiro espelho da sociedade contemporânea, marcada por uma crescente crise de valores.
Contributo histórico na luta pela independência – O artista recordou que, historicamente, o teatro teve um papel relevante na mobilização dos angolanos durante o período colonial, entre 1950 e 1975, contribuindo para o fortalecimento do espírito revolucionário.
De acordo com Quim Fasano, através das peças teatrais eram transmitidas mensagens que incentivavam a consciência colectiva e motivavam a população na luta pela independência, ao lado de outras formas de expressão artística, como a música e a literatura.
Percurso e reconhecimento- Natural de Luanda, município do Rangel, Quim Fasano revelou que descobriu a sua vocação para o teatro ainda na adolescência, ao participar de uma actividade na Igreja Católica São Luís, durante o período natalino.
O reconhecimento do público não tardou e, ao longo da carreira, acumulou distinções, com destaque para os prémios de melhor actor de teatro no Top Rádio Luanda, em 2000, e no Prémio Cidade de Luanda, três anos depois.
A sua participação, ao lado de Nelo Jazz, na série “Papa Ngulo e Xico Caxico”, exibida a partir de 2005, ampliou a sua notoriedade dentro e fora do país.
O actor revelou ainda ter sido convidado a integrar uma enciclopédia internacional de actores, além de ter sido condecorado pelo Presidente da República de Angola, no âmbito das celebrações dos 50 anos da Independência nacional.
Desafios do sector- Apesar dos avanços registados, Quim Fasano considera que o teatro angolano enfrenta ainda inúmeros desafios, sobretudo no que diz respeito à sustentabilidade financeira dos artistas.
Segundo explicou, muitos profissionais da área são obrigados a criar projectos próprios para garantir a sobrevivência, devido à escassez de apoio institucional e do sector empresarial.
“O maior desafio é sustentar-se através da arte. Em Angola, é difícil viver exclusivamente do teatro”, lamentou.
Estado actual e grupos de referência – Ao fazer uma avaliação do sector, o actor considerou que o período entre 1992 e 2008 representou o auge do teatro angolano, embora reconheça a continuidade de trabalhos de qualidade desenvolvidos por diversos grupos.
Entre os destaques, apontou o Miragem Teatro, o Elinga Teatro, o Horizonte Nzinga Mbande, o Etu Lene e o Henriques Arte, considerados escolas pela qualidade, inovação e rigor artístico.
Perspectivas e futuro
Relativamente ao futuro, Quim Fasano mostrou-se optimista, defendendo que o teatro angolano tem potencial para crescer, impulsionado pela formação académica e pela qualificação de novos profissionais.
O actor, que actualmente frequenta o curso de Gestão e Produção Cultural, acredita que, nos próximos anos, o país poderá contar com gestores culturais e produtores mais preparados para dinamizar o sector.
Destacou ainda a importância da reabilitação de infra-estruturas culturais, como salas de teatro, para garantir melhores condições de apresentação e maior acesso do público às artes cénicas.
Apelo às autoridades- Como forma de impulsionar o desenvolvimento do teatro em Angola, o artista apelou à implementação de políticas públicas que valorizem a arte, nomeadamente a inclusão do teatro no sistema de ensino.
Para Quim Fasano, a introdução da disciplina nas escolas permitirá formar novas gerações de artistas e cidadãos mais conscientes, contribuindo para uma sociedade mais equilibrada.
“O teatro é uma arte viva, com um público presente e sedento de valores. Precisamos de investir mais para garantir o seu crescimento”, concluiu.



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