Conjuntura

ÁFRICA E O MAIO DAS ESPERANÇAS NA GEOPOLÍTICA DO AMANHÃ (DA MEMÓRIA PAN-AFRICANISTA À ENERGIA VIBRANTE DAS NOVAS GERAÇÕES)

Escrito por figurasnegocios

Introdução: o Maio que reivindica o futuro, Maio não é apenas um período de 31 dias no calendário civil. Para o nosso Continente, é uma zona temporal de afirmação e balanço. A 25 de Maio, o Mundo assinala o Dia de África, uma efeméride que remonta à histórica fundação da Organização da Unidade Africana (OUA) em 1963, em Adis Abeba (Etiópia). Se, durante décadas, esta celebração viveu sob a sombra nostálgica dos “pais da independência” e da libertação do jugo colonial clássico, em 2026, o paradigma alterou-se radicalmente. O foco deslocou-se dos palácios presidenciais e das retóricas diplomáticas para a pulsação das ruas, das Universidades e dos pólos tecnológicos.

Nesta paisagem em mutação, a Juventude emerge não apenas como um dado estatístico ou um “problema social” a resolver, mas como o principal factor de esperança e o maior activo estratégico do Continente. África é, hoje, o coração demográfico do planeta, com uma idade mediana que ronda os 19 anos, contrastando com o envelhecimento acelerado do designado “Norte Global”. Esta realidade impõe uma urgência existencial: os “futuros” de África não podem continuar a ser desenhados por uma elite gerontocrática que olha para o espelho retrovisor; os “futuros” estão a ser esculpidos, em tempo real, pela energia disruptiva de quem herdará o século XXI.

 

  1. A Juventude como o “Dividendo” da esperança e motor de inovação

Enquanto grandes potências mundiais enfrentam o desafio da sustentabilidade dos seus sistemas de segurança social devido à baixa natalidade, África pulsa com uma vitalidade humana sem precedentes. Esta massa juvenil é a fonte de uma esperança que não se baseia em utopias, mas sim num pragmatismo resiliente. O jovem africano médio de 2026 é alguém que, perante a ausência de infra-estruturas estatais, cria as suas próprias redes de suporte, economia e comunicação.

  • O despertar do capital humano e a “Educação 4.0”

Para que o Continente atinja o patamar de desenvolvimento desejado pelas suas populações, o primeiro futuro a almejar é o da educação transformadora. A esperança reside na capacidade de converter este “boom” populacional num efetivo “dividendo demográfico”. Isto implica que a Juventude (que já demonstra uma literacia digital orgânica) tenha acesso a uma formação que vá além do modelo académico tradicional herdado do colonialismo.

Apostar no ensino técnico, na inteligência artificial e na economia criativa é a forma de garantir que o talento africano não se perca em travessias perigosas no Mediterrâneo, mas sim que floresça em cidades como Lagos, Nairobi ou Luanda. O optimismo que vemos hoje em África não vem da caridade internacional, mas da crescente consciência de que o capital intelectual do Continente é o recurso mais valioso da humanidade.

  1. Os futuros económicos: o Continente como centro de gravidade

Um dos futuros mais cruciais que África deve almejar é o da integração económica real. A Área de Livre Comércio Continental Africana (ACFTA) é a grande promessa para que o “made in África” deixe de ser um slogan e passe a ser uma realidade nas prateleiras globais. Durante séculos, África foi desenhada – e obrigada – para exportar “para fora” e importar “de fora”, com parcos laços comerciais internos.

  • A soberania industrial e a independência da matéria-prima

A Juventude africana exige hoje uma África que deixe de ser o habitual “armazém de recursos” das potências industriais. O desejo de futuro passa pela industrialização local e pela retenção de valor. O lítio, o cobalto, o petróleo, o gás e o cacau devem ser a base de cadeias de valor regionais. Queremos ver a tecnologia de baterias a ser desenvolvida no Zimbabué e a moda de alta-costura a ser produzida em escala no Senegal, na Nigéria, no Rwanda, na África do Sul, ou em Angola. Este desejo de soberania económica é o que alimenta o dinamismo dos jovens empreendedores que estão a contornar as barreiras burocráticas através da tecnologia blockchain  e de sistemas de pagamento móvel, unificando o Continente pelo mercado.

 

III. A Geração Z e a nova ética do voto: a contestação como zelo

Neste cenário, a Geração Z desempenha um papel complementar, mas vital: o de “sentinela da democracia”. Esta geração, que cresceu com o mundo na palma da mão através do smartphone, trouxe uma nova gramática para a política africana e que as elites tradicionais ainda estão a tentar processar (ver F&N 232-Out 2025, pp: 52-55).

 

  • A recusa das “Democracias de Fachada” e o voto consciente

A contestação que temos visto em diversas eleições recentes não deve ser lida como um sinal de instabilidade, mas como um sinal de saúde cívica. A “Geração Z” africana tem contestado certas eleições porque acredita no poder do voto; eles rejeitam a fraude porque respeitam a democracia. O seu papel é o de exigir que os processos eleitorais sejam transparentes e que os líderes não se eternizem no poder. Esta contestação é o “corretor de rumo” que as instituições africanas necessitavam para sair da estagnação da gerontocracia.

  1. O futuro tecnológico e a identidade cultural

O futuro que África ambiciona é também um futuro de “Afro-inovação”. O Continente está a saltar etapas tecnológicas (leapfrogging ), passando diretamente para soluções móveis de banca e energia solar sem passar pelas infra-estruturas pesadas do século XX.

 

  • A voz própria na cultura global

As populações, e a Juventude em particular, desejam que África dite a sua própria narrativa. Através do cinema, da literatura “Afro-futurista” e da música (como o Afrobeats  e o Amapiano ), África está a exercer um soft-power que procura reconfigurar a sua imagem global. O futuro desejado é aquele onde o jovem africano sente que não precisa de emigrar para ser bem-sucedido, porque o centro do mundo cultural e criativo passou a estar, também no seu Continente.

 

  1. O desafio da Governação: o horizonte da “Agenda 2063”

A Agenda 2063 da União Africana propõe-se a ter uma “África próspera, baseada no crescimento inclusivo e no desenvolvimento sustentável”. Para que este horizonte não seja – não continue a ser – uma utopia, África tem de almejar um futuro de instituições robustas. O ressurgimento de golpes de Estado em certas regiões é um sintoma da falha da governação civil em responder às necessidades básicas da Juventude,

O principal factor de esperança, a Juventude, precisa de um ambiente de paz e segurança e para isso é preciso “calar as armas”. O fim dos conflitos armados e a boa governação são as pré-condições para que os sonhos, da Juventude, em geral e da Geração Z, em particular, e das gerações futuras se materializem. O “futuro desta Juventude passa por exigir instituições que não sejam apenas moldes europeus, mas que reflictam as realidades e as necessidades das populações locais. O zelo pela paz é, talvez, o maior pedido das populações: estabilidade para poderem empreender, estudar e sonhar. A esperança Africana é, hoje, uma força política que exige contas, transparência e, acima de tudo, dignidade.

Conclusão: África é destino, é o “Agora”, e não a partida

Em conclusão, o “Mês de África” deve servir para recordar que o Continente não é uma promessa adiada para o final do século: África é o “Agora” da economia e da demografia mundial. Deixámos de ser um eventual destino ou um ponto de partida. Somos, repito, o “Agora”. Zelar pela Juventude africana é garantir que a maior força de trabalho e de criatividade do planeta tenha as condições para liderar.

Os “futuros” que o Continente pretende – económicos  tecnológicos e democráticos – estão ao alcance da mão. Se o século XX foi o século das independências políticas, o século XXI será – temos de o afirmar como – o século da afirmação plena da inteligência e do potencial africano, impulsionado por uma Juventude que já não pede licença para construir o seu próprio destino. A Juventude Africana, com a Geração Z na vanguarda da contestação democrática, é a garantia de que o Continente não voltará a aceitar a mediocridade.

 

Assim a gerontocracia política e dirigente o entenda…

 

  • Alguma Bibliografia

Agenda 2063. https://au.int/sites/default/files/documents/36204-doc-agenda2063_popular_version_po.pdf;

Ben Yahmed,M. (2026). 2026, l’année où l’Afrique bascule. Jeune Afrique, 19 janvier 2026. https://www.jeuneafrique.com/1756698/politique/2026-lannee-ou-lafrique-bascule/;

Leveraging Potentials of the Youth for Inclusive, Green and Sustainable Development in Africa. AfDB/African Development Institute, 2023. https://www.afdb.org/sites/default/files/2023/08/01/leveraging_potentials_of_the_youth_for_inclusive_green_and_sustainable_development_in_africa_concept_note_en.pdf;

Lopes, . (2020). África em Transformação: Desenvolvimento económico na era da dúvida. Lisboa. Tinta da China.

Lusa (2025). “África Subsaariana tem população jovem mas dificuldades limitam o seu potencial”. RTP online, 3 Julho 2025. https://www.rtp.pt/noticias/mundo/africa-subsaariana-tem-populacao-jovem-mas-dificuldades-limitam-o-seu-potencial_n1666556;

Mo Ibrahim Foundation. (2023). Global Africa: Africa in the world and the world in Africa. Mo Ibrahim Foundation – Forum Report, July 2023. https://mo.ibrahim.foundation/sites/default/files/2023-07/2023-forum-report.pdf

Oyagbola,A. (di.) (2025). African insights 2025: Citizen engagement, citizen power: Africans claim the promise of democracy. Afrobarometer. https://www.afrobarometer.org/wp-content/uploads/2025/05/Citizen-engagement-Afrobarometer-flagship-report-ENG-5july25.pdf;

*Pós-Doutorado; Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL), Investigador-Sénior Associado do Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA/Angola Research Network) e Investigador-Associado do CINAMIL (Academia Militar de Lisboa)**

** Todos os textos por mim escritos só me responsabilizam a mim e não às entidades a que estou agregado

 

Sobre o autor

figurasnegocios

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