Vítor Norinha
vnorinha@gmail.com
Talvez o mais impressionante na reunião na Sala Oval, em Washington, realizada em agosto e no âmbito da discussão das condições de paz na Ucrânia – e onde estiveram presentes Donald Trump, o presidente norte-americano, com os líderes europeus e ainda com o presidente da Ucrânia – foi a noção de subserviência de europeus perante norte-americanos. As intervenções dos europeus foram pautadas por elogios diretos à atuação de Trump, faltando apenas revelar que apoiam o seu nome para o Prémio Nobel da Paz. Outro aspeto revelador das imposições de Trump foi a vestimenta com que Zelensky, o presidente ucraniano, se apresentou na Casa Branca: levou fato, embora sem gravata, o que contrastou com o tradicional caqui de militares.
Estes são aspetos que não são de menor importância, pois revelam a dependência da Europa que necessita do aliado americano. Aliás, parte além destes pormenores em que líderes europeus, como a França, Reino Unido ou a Alemanha ouviam atentamente Trump, nada mais ficou decidido ou acordado. Da reunião em Washington que decorreu três dias depois do encontro Trump-Putin em Anchorage, no Alasca, em solo americano, resultaram intenções de fazer, nomeadamente uma reunião Putin-Zelensky, possivelmente no final de agosto, e ainda promessas veladas de os EUA garantirem a segurança da Ucrânia, algo próximo daquilo que a NATO garante aos seus membros com o famoso artigo 5º mas, não foi uma garantia, mas uma intenção de negociar nesse sentido. Em contraste, a Europa e a Ucrânia, em particular, saem derrotados pois a Ucrânia terá de ceder território, caso da Crimeia e do Donbass, sendo que atualmente tem 20% da sua área, ocupada pelo invasor russo. Zelensky, o presidente ucraniano, também não pode prometer muito pois sabe que a Constituição da República ucraniana terá de ser revista pelo parlamento para se ceder território e o próprio parlamento está em funções porque o país está num estado de exceção, caso contrário já teriam ocorrido eleições.
Da simpatia na Sala Oval – com Zelensky de fato, mas sem gravata, e que Trump apreciou, tendo o assunto sido referido na conferência com jornalistas e onde o presidente ucraniano gracejou com o jornalista que o questionou sobre a vestimenta de protocolo que este não usou numa das anteriores presenças em Washington, ao afirmar que ele trazia fato mas o jornalista usava o mesmo de há uns meses – pouco sumo foi extraído.
Os factos conhecidos
Nos dias que sucederam à reunião de Washington foi-se percebendo o que as quatro partes pretendiam, a saber: a administração Trump quer um acordo de paz, mas aceita que esta seja negociada sem um cessar-fogo e, caso Putin e Zelensky não cheguem a um acordo de interesse de ambos, Trump quer descartar a sua participação na mediação do conflito e irá atribuir o envolvimento americano à administração anterior de Biden. Outra parte á Ucrânia que percebeu que precisa de uma paz duradoura e isso só poderia acontecer com a proteção de forças ocidentais ou americanas. Trump deixou entender que Putin estaria aberto a uma proteção americana, quase ao estilo do artigo 5º da NATO. A Ucrânia não quer perder território e quer ter condições para a reconstrução do país e a revitalização da economia. Outra parte é a Rússia que quer território cedido oficialmente pela Ucrânia, incluindo território no Donbass que ainda está em poder ucraniano. A agência Reuters escreveu que Vladimir Putin quer que a Ucrânia renuncie à região oriental do Donbass, renuncie às ambições de aderir à NATO e o país permaneça neutro (ao estilo finlandês) e sem tropas ocidentais. Estas informações já haviam sido avançadas por JD Vance, o vice-presidente americano, e levaram o Presidente Trump a afirmar que o Presidente Putin está num nível mais conciliador porque poderá ter deixado cair a exigência de junho de 2024 quando disse querer anexar as províncias de Kherson e Zaporizhzhia. Por último, temos os países europeus que tentam não sair de cena, ou seja, não serem excluídos das negociações como partes sem interesse, algo que Trump e Putin não se importam que aconteça. Apenas a Ucrânia quer continuar a contar com os países da União Europeia como aliados e financiadores incondicionais. Aliás, a Ucrânia e Zelensky continuam a querer entrar na União Europeia e informações saídas na comunicação social indicam que o presidente ucraniano terá feito um pedido específico a Trump no sentido deste convencer Viktor Orbán, o primeiro-ministro da Hungria, para que este não se oponha à adesão da Ucrânia à União Europeia, pois o tema terá de ter unanimidade nos “27”. Dentro da UE destaca-se a posição da Emmanuel Macron, Presidente de França, que depois da reunião na capital americana, onde aparentemente os líderes europeus pareceram estar num gesto de vassalagem, veio afirmar que os europeus “não podem ser ingénuos face à Rússia, que será duradouramente uma potência desestabilizadora”, frisou a agência France Press. Sublinhou que desde 2007-2008, data da intervenção russa na Geórgia, “o Presidente Putin raramente cumpriu os compromissos. Tem sido constantemente uma potência desestabilizadora. E tem procurado rever as fronteiras para expandir o poder”.
Entretanto, não existe uma perspetiva para um eventual encontro Vladimir Putin/Volodymyr Zelensky. A Rússia está focada em conseguir o máximo de território na Ucrânia, e Sergei Lavrov, o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, já só fala em concessões e trocas de território e ajustamentos territoriais. O encontro, a acontecer, terá, na ótica de Lavrov, de ser “preparado minuciosamente”, disse em entrevista ao canal Russia 24, citado por vários órgãos de comunicação social. O MNE russo tem insistido que é necessário “respeito pela Rússia”, ainda “pelos direitos dos russos e dos russófonos que vivem na Ucrânia”. Disse, em entrevista, que nem a Crimeia, nem o Donbass, nem a Novorossiya como territórios, “jamais foram o nosso objetivo. O nosso objetivo era proteger as pessoas, o povo russo, que viveu nestas terras durante séculos”. Recorde-se que as regiões ucranianas de Donetsk e Lugansk, conhecidas como Donbass, eram um centro industrial na era soviética, um local de minas de carvão e siderurgias, a par de ser uma região rica em produção agrícola e tem a costa no Mar de Azov, uma zona critica para os interesses militares russos e ucranianos. Atualmente os russos dominam toda a região de Lugansk e 70% do Donetsk.
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