Balaio dos Prazeres Cultural

Para assinalar meio século da Dipanda, Álvaro Macieira junta 50 autores

Escrito por figurasnegocios

O escritor e artista plástico angolano Álvaro Macieira está a assinalar, antecipadamente, as comemorações dos 50 anos da Independência, proclamada a 11 de Novembro de 1975 com a exposição “KinaMuta – MutaKina”, reunindo 75 obras de 50 autores, no Museu Nacional de História Natural.


As 75 pinturas, esculturas em madeira e em bronze, cerâmica e tapeçaria artística foram reunidas pelo também jornalista, durante cerca de três décadas, fazendo parte da sua colecção. As obras foram seleccionadas pelo curador e artista plástico Kabudi-Eli e celebra ainda um espaço de culto para muitos artistas, o atelier “Kina Muta – Muta Kina”.

Álvaro Macieira assegura que o grande objectivo da exposição é permitir que, sobretudo os estudantes das escolas de artes de todos os níveis, assim como professores e investigadores, tenham a possibilidade de conhecer e aprofundar conhecimentos sobre o percurso artístico, estético e criativo dos autores das obras, como referências no desenvolvimento das artes, em Angola.

Nascido no dia 13 de Maio de 1958, na vila de Sanza-Pombo, na província do Uíge, Álvaro Macieira é jornalista, escritor e consultor cultural. Mas, é como artista plástico que veio a ganhar fama nacional e internacional. Revelou a sua faceta nas artes plásticas em 1998.

Álvaro Macieira é actualmente um dos artistas plásticos mais acutilantes no paronama angolano. A sua frenética produção rompeu barreiras e preconceitos e hoje recebe o merecido reconhecimento da crítica, do grande público e essencialmente dos coleccionadores.

Volvidos pouco mais de 30 anos desde a decisão de abraçar as artes plásticas, Álvaro Macieira é peremptório ao enfatizar que “sempre gostou de arte”. A sua antiga galeria, baptizada por “Kinamuta/Mutakina” veio a ser um espaço físico significativamente importante na sua relação com os artistas e na sua disposição como produtor e, despretensiosamente, coleccionador, a faceta agora tornada pública.

“No final dos anos 1990 e princípios de 2000, eu vivia no Kinamuta, a galeria que ficava num dos prédios da Avenida de Portugal, sentido Kinaxixi-Mutamba, derivando dai o nome”, recorda. Curiosamente, a exposição celebra não apenas o seu “olho clínico” para as artes plásticas, como também toda a cumplicidade de sonhos partilhados e vividos a cada pincelada naquele espaço, palco de ensinamento e de início de carreira para muitos jovens artistas da cena cultural angolana.

“Por exemplo, a minha obra “Clamor pela Paz” foi pintada em 2001, no terraço do prédio. Enquanto eu pintava, recebo uma visita do crítico Adriano Mixinge, que manifestou a vontade de levar a peça a Paris. E assim fez. Em 2002 tivemos paz. Hoje a peça está no nosso aeroporto internacional 4 de Fevereiro”, explica.

Macieira recorda como o Kinamuta era um espaço frequentado por vários jovens artistas da cena cultural de Luanda. Por exemplo, a relação com o artista alemão Horst Pope começa no Kinamuta, garantindo-lhe muita projecção naquele país europeu. Por outro lado, frequentavam também os artistas, como Carlos Lamartine, Maranax, Mamborró e outros.

Para lá do erotismo, da invocação à fecundidade e pluralidade de estilos, aponta como grande objectivo mostrar a união entre os artistas. Porém, a exposição da colecção de Álvaro Macieira encerra um fim maior, respectivamente manifestar o contributo na consolidação dos 50 anos independência nacional, a ser assinalado no próximo ano.

Macieira também traz a público este quinhão da sua colecção particular para uma antecâmara para um futuro Museu de Arte Contemporânea, ainda em falta.

Com mais de 100 obras reunidas em 30 anos, Álvaro Macieira explica que a colecção foi acontecendo espontaneamente. Nunca teve um plano como tal. Foi a sua vontade e amor pelas artes.

Numa visão em relação ao estado actual das artes plásticas em Angola, o criador avança a necessidade de se encontrar soluções rápidas para a saída da crise. “Com o petróleo existia a bonança, que hoje quase nos tira a esperança. Vivemos uma incomensurável penúria financeira, que corroeu em poucos anos as nossas parcas poupanças. Essa é uma das consequências da nossa própria visão, ou da nossa capacidade de prover e prever o que seria o futuro. Ao longo dos anos vivemos alegremente embalados no baloiço confortável do petróleo, agora temos que aprender com os erros e encontrar novas formas de produzir alimentos e riqueza, para sobrevivermos”, reforça.

“As artes plásticas são para mim, ou melhor, a pintura é o oásis de todos os desertos, porque serve para divulgar o que de melhor existe em nós, a alma do artista. Gosto de pintar a esperança, a capacidade de sobrevivência, a natureza, os nossos mitos e as expressões únicas das tradições angolanas e africanas”, afirma.

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