Conjuntura

Angola 50 anos depois da independência: QUE PAPEL EFECTIVO DAS CENTRALIDADES, CENTROS LOGÍSTICOS E TERMINAIS NA SUSTENTAÇÃO DA ECONOMIA?

Escrito por figurasnegocios

“Os sistemas de transporte de mercadorias são essenciais para o crescimento económico, a competitividade comercial e o desenvolvimento sustentável” (Sirimanne, 2025);
“The higher the agency’s centrality, the more obvious its resource advantages and location advantages are” (Burt, 1992 , apud Jia Zhang et al., 2018: 201)


Por: Eugénio Costa Almeida*

RESUMO – Ao completar cinco décadas de independência, Angola enfrenta o desafio de transformar ambiciosos investimentos em centralidades urbanas, centros logísticos e terminais de transporte numa alavanca real para a diversificação económica, melhoria financeira do país e coesão social.

Este ensaio analisa o que se espera dessas infra-estruturas, tendo em conta o que já funciona, o que não está a dar os resultados esperados, e propõe um conjunto de medidas para que deixem de ser meramente símbolos de modernização e passem a suportes activos da economia, das finanças e do bem estar social.

Procura-se abordar o panorama infra-estrutural de Angola, a sua articulação com cadeias produtivas e de valor, os constrangimentos institucionais, financeiros e sociais, e as possíveis vias de correção para maximizar o impacto dessas infra-estruturas.

Contexto histórico e expectativas

Desde a independência em 1975, Angola vem enfrentando um ciclo de dependência das rendas petrolíferas e da guerra-civil, que atrasou a consolidação de uma economia diversificada.

Com o fim do conflito interno, em 4 de Abril de 2002, iniciou se um esforço de reconstrução. As centralidades urbanas (como por exemplo, Kilamba Kiaxi, ou Sequele (Cacuaco), na província de Luanda; de Quilemba, na província do Huíla; ou da “General Txizainga”, na província da Lunda Sul)  e os chamados centros logísticos e terminais transportes foram concebidos como vectores de desenvolvimento regional, integração e crescimento económico.

O governo angolano tinha anunciado planos para construir 21 centros logísticos até 2038, com investimento estimado em mais de US$ 445 milhões (Africanews, 2024). A expectativa é dupla: por um lado suportar o crescimento urbano, por outro potenciar-se como eixo de cadeias logísticas, redução de custos de transporte, e estímulo à economia de bens e serviços.

  O que se espera das infra estruturas: centralidades, centros logísticos, terminais

As expectativas relativamente a essas infra estruturas são múltiplas. Em termos económicos, espera-se que actuem como catalisadoras da diversificação da economia, suporte à agro-indústria, logística de exportação/importação, e facilitação de acesso a mercados domésticos e regionais.

Em termos financeiros, vislumbra se que contribuam para aumento de receitas (“tax base” ), redução de custos logísticos – e, logo, melhoria da competitividade – e atração de investimento privado. Em termos sociais, espera-se que impulsionem a descentralização do desenvolvimento, reduzam desigualdades regionais, gerem emprego e melhorem a qualidade de vida nas regiões alvo.

Realizações e lacunas actualmente

Há sinais positivos: Angola tem reforçado as suas infra estruturas de transporte, energia e telecomunicações, consolidando-se como eixo de tráfego regional (Cabari, 2025) . O sector logístico está a merecer atenção, com relatórios que apontam para a necessidade estratégica de cadeia de valor agro-industrial e de transporte de mercadorias (Sirimanne, 2025).

Contudo, persistem lacunas importantes, nomeadamente:

■ Em relação à conectividade, à predominância do transporte rodoviário com custos elevados e fiabilidade reduzida compromete o desempenho logístico (Sirimanne, 2025);

■ Os centros logísticos ainda não estão plenamente funcionais ou bem integrados nas cadeias produtivas e no mercado internacional. Por exemplo, o relatório “Estudo Logística – Angola” refere que Angola “construiu um sistema cuja motivação central é integrar programas e projectos numa carteira nacional virtualmente inexequível” (Santos & Sarmento, 2016) e que parece ainda não ter sido alterada (Sirimanne, 2025);

■ A governação, o quadro institucional e a regulação do sector são apontados como áreas de fragilidade, conforme alertavam Pushak & Foster (2011) e que ainda persistem;

■ Em termos sociais, o impacto na redução de desigualdades ainda é limitado; os empregos gerados muitas vezes são pouco qualificados ou transitórios, e as infra estruturas continuam concentradas nas zonas urbanas ou de riqueza petrolífera, com pouca articulação com a produção local ou agricultura familiar.

■ Finalmente, em termos financeiros, o risco de que estas grandes obras se convertam em activos com elevado custo de manutenção e baixo rendimento é real; sem diversificação económica, o país pode perpetuar a dependência das rendas de recursos naturais.

Servem ou não de sustentação à economia?

À luz dos dados e da análise, a resposta é: parcialmente. Sim, porque existem avanços e porque as infra-estruturas são absolutamente necessárias para que a economia funcione de forma mais eficiente, para que os custos logísticos baixem e para que as exportações e importações ganhem escala. Mas não plenamente, dado que muitos dos canais por onde estas infra-estruturas deveriam gerar valor agregado e efeito multiplicador, permanecem sub-aproveitados.

Por exemplo, o relatório da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (CNUCED) (Sirimanne, 2025) sobre ortografia do transporte de mercadorias (TSM) em Angola mostra que o desempenho nos três pilares – económico, social e ambiental – está abaixo da média africana, Além disso, o custo elevado e a baixa densidade da rede logística ainda comprometem o potencial destes investimentos como suporte eficiente à economia (Cagiza, 2025).

Em suma: as infra estruturas têm capacidade para servir de sustentação à economia, mas só o fazem de forma limitada e dependem de condições complementares para serem plenamente eficazes.

O que fazer para melhorar vertentes económica, financeira e social

Para que as centralidades, os centros logísticos e terminais deixem de ser “obra feita” e se transformem em motores de crescimento integrados, propõem se várias linhas de acção.

Económica

■ Integrar os centros logísticos nas cadeias de valor nacionais e regionais. Isto implica ligar as infra estruturas às actividades produtivas – agro indústria, mineração, manufactura ligeira – em vez de apenas construir “caixas de distribuição”;

■ Melhorar a conectividade multimodal (rodoviária, ferroviária, portuária) de modo a reduzir custos de transporte e aumentar a fiabilidade. Por exemplo, o projecto de ligarem principais infra estruturas via ferrovia em Angola (FZTO//VM, 2025);

■ Promover clusters logísticos com incentivo a empresas de apoio (armazenagem, embalagem, transformação) e não apenas terminais de trânsito.

Financeira

■ Estabelecer modelos de financiamento e exploração que assegurem sustentabilidade das infra-estruturas: por exemplo parcerias público privadas, concessões com cláusulas de rendimento, modelos de “usuário paga” e não apenas investimento público;

■ Melhorar a regulação e monitorização dos custos logísticos: os elevados custos e taxas portuárias inibem competitividade (Sirimanne, 2025);

■ Promover transparência e governança rigorosa para evitar que as infra estruturas se convertam em encargos elevados sem rendimento adequado. A investigação recente sobre investimentos em Angola destaca que “o efeito depende de reformas domésticas, governação e coordenação estratégica” (Cagiza, 2025);

■ Estimular a participação da banca local, do sector privado nacional e de investidores estrangeiros condicionados a indicadores de impacto local. Isso reduz o risco e aumenta o retorno social.

Social 

■ Garantir que a criação de empregos não se limite à construção, mas inclua formação técnica, manutenção, operação e logística de base. O relatório da CNUCED aponta a necessidade de formação e criação de consciência no sector (Sirimanne, 2025);

■ Desenvolver infra-estruturas logísticas descentralizadas para zonas rurais e províncias menos desenvolvidas, reduzindo as desigualdades regionais;

■ Incluir as comunidades locais nos processos e assegurar que as infra estruturas sirvam também o mercado doméstico, não apenas as exportações. Há um risco de que se concentrem em cadeias externas e deixem de fora produtores locais. Um artigo recente chama atenção para a “miragem” de integração logística que privilegia minerais ao invés de pequenas cargas ou agricultores (Bouissou, 2025);

■ Promover programas de logística reversa ou circular (por exemplo retorno de produtos, reciclagem, logística urbana) para que as infra estruturas sirvam para além da exportação.

Conclusão

Celebrar os 50 anos de independência de Angola é também reflectir sobre os desafios estruturais que ainda persistem. As centralidades, os centros logísticos e terminais inaugurados ou em projecto representam uma oportunidade real de transformação económica, financeira e social. Mas esta oportunidade só se concretizará se for acompanhada de políticas bem desenhadas, governação eficaz, participação do sector privado e integração real com cadeias produtivas e com as comunidades.

Caso contrário, corremos o risco de que continuem a ser “infra estruturas de fachada”, com pouco impacto no quotidiano das empresas, dos trabalhadores e dos cidadãos nas periferias. Como dizia o relatório da CNUCED: “Melhorar a sustentabilidade do transporte de mercadorias em Angola requer uma abordagem holística” (Sirimanne, 2025).

É, portanto, urgente que Angola utilize estes investimentos como alavanca para retomar a narrativa de crescimento inclusivo – em que cada terminal, cada centro logístico, cada centralidade urbana, se torne numa engrenagem de valor acrescentado, não apenas um símbolo de modernização.

BIBLIOGRAFIA

“Angola readies $445 million to build 21 logistics hubs”. Africanews, 13/08/2024. https://www.africanews.com/2021/11/18/angola-readies-445-million-to-build-21-logistics-hubs/

“Mais de 30 centralidades construídas no país”. Jornal de Angola online, 15 de Outubro de 2025. https://jornaldeangola.ao/noticias/1/pol%C3%ADtica/649562/mais-de-30-centralidades-constru%C3%ADdas-no-pa%C3%ADs

Barros, Adnardo. (2025). “Integração regional e infra estruturas no centro da estratégia económica de Angola”. Economia & Mercado. 17/10/2025. https://www.economiaemercado.com/artigo/integracao-regional-e-infra-estruturas-no-centro-da-estrategia-economica-de-angola

Bouissou, Julien. (2025). “De l’Angola à la République démocratique du Congo, le mirage du corridor ferroviaire de Lobito”. Le Monde, 08 février 2025. https://www.lemonde.fr/afrique/article/2025/02/07/en-angola-le-mirage-du-corridor-de-lobito_6535360_3212.html

Cabari, Teresa. (2025). “Angola precisa investir 2,5 % do PIB em infra-estruturas de transportes”. Jornal de Angola, de 30 de Outubro de 2025, pp: 3-5.

Cagiza, C. B. de Saiturna (2025). “De Risking Development in Sub Saharan Africa: A Qualitative Study of Investment Dynamics in Angola”. arXiv, s/d, Cornell University. https://doi.org/10.48550/arXiv.2510.18906

Diogo, Faustino. (2022). “Centralidades e Urbanizações já custaram 16,7 mil milhões USD”. Expansão, 6 de Março de 2022. https://www.expansao.co.ao/angola/detalhe/centralidades-e-urbanizacoes-ja-custaram-167-mil-milhoes-usd-58282.html

FZTO// M. (2025). “Angola quer ligar principais infraestruturas com ferrovias”. Impala News, 22 Out 2025. https://www.impala.pt/noticias/politica/angola-quer-ligar-principais-infraestruturas-com-ferrovias/

Grilo, Fernando. (2021). “Angola – Gestão privada em todos os terminais portuários”. Transportes e Negócios, 08/06/2021. https://www.transportesenegocios.pt/angola-gestao-privada-em-todos-os-terminais-portuarios/

Manzambi, Maria  Flora M. (2015). A Importância dos Centros de Logística e Distribuição em Angola. (Mestrado em Ciências Empresariais Ramo de Gestão Logística), Escola Superior de Ciências Empresariais, Instituto Politécnico de Setúbal. https://comum.rcaap.pt/bitstreams/9e43acde-b951-47d5-b6e4-c229b83cccdb/download

Pushak, Nataliya & Foster, Vivien. (2011). As Infra estruturas em Angola: Uma Perspectiva Continental – Relatório Nacional. AICD – Africa Infrastructure Country Diagnostic, Março de 2011. https://www.ppiaf.org/sites/default/files/translations/2011-01/AICD-Angola-Relatorio-Nacional.pdf

Santos, Rui M. & Sarmento, Susana. (2016). Estudo Logística Angola: “From Experience to Intelligence. CESO Development Consultants / Associação Industrial Portuguesa, Março de 2016. https://www.ceso.pt/pdfs/LogisticaAngola.pdf

Sirimanne, Shamika N. (dir.). (2025). Angola – Avaliação do Transporte Sustentável de Mercadorias. UNCTAD – Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. https://unctad.org/system/files/official-document/dtltlb2024d3_pt.pdf

Zhang, Jia et al. (2018). Network Centrality and Public Service Motivation: The Medium of Organizational Commitment. European Journal of Business and Management, Vol.10, No.9, 2018, pp: 200-207. https://iiste.org/Journals/index.php/EJBM/article/download/41584/42807


*Pós-Doutorado; Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL), Investigador-Sénior Associado do Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA/Angola Research Network) e Investigador-Associado do CINAMIL **
 ** Todos os textos por mim escritos só me responsabilizam a mim e não às entidades a que estou agregado 

Sobre o autor

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