Sociedade

QUAL O ESTADO DA NAÇÃO? (A propósito do discurso dos 50 anos de independência de Angola, João Lourenço)

Escrito por figurasnegocios

No cinquentenário da independência de Angola, proclamada a 11 de Novembro de 1975, para além da solenidade, dos desfiles, das exposições e de uma lista de condecorações… o que ficou mais visível foi “a luta pela memória”, com muita névoa e algumas inexatidões… Mas, o que teria sido mais interessante e significativo seria a elencagem de soluções para os problemas prementes dos angolanos, à cabeça dos quais destacamos a fome. Pouco ou nada se ouviu de verdadeiramente mobilizador e esperançoso e, sobretudo, a total incapacidade de autocritica. Foi fumaça e mais fumaça… que se percebe cada vez mais que já pouco ou nada esconde…

Para ajudar a desmontar os discursos que persistentemente o poder e classe dominante proferem, por vezes quase até à exaustão, vamos recorrer à metáfora de uma professora de filosofia. Ao mesmo tempo ajudar a perceber o papel dos jornalistas e de uma imprensa livre e responsável, e o trabalho que é necessário ser feito no “limiar” da verdade ou da inverdade… ou mentira.

O trabalho do jornalista é escrever que a capa de cartolina é verde. Não porque diz que é verde, mas porque o método jornalístico que segue permite concluir que é verde. Não sabemos quantas pessoas acreditam ainda na importância de ter um jornalista a escrever que a capa de cartolina é verde. Não sabemos quantas estarão disponíveis para aceitar que é verde depois de terem sido induzidas a acreditar que era vermelha. Mas é para isto que escolhem esta profissão.

Uma professora de Filosofia está em frente a um anfiteatro cheio de universitários. Quando lhes mostra uma capa de cartolina e lhes pergunta de que cor é, todos respondem que é verde. A professora pede, então, aos alunos que, caso alguém chegue atrasado àquela aula e ela volte a perguntar a cor da capa, respondam que é vermelha. Pouco depois, entra um retardatário. A professora pergunta a vários alunos, um por um, de que cor é a capa. “Vermelha”, repetem, um após outro, perante o olhar incrédulo do estudante que chegou atrasado e se vai virando para trás, confuso com as respostas. Porém, quando chega a sua vez de responder, nem hesita: “É vermelha”, diz.

A professora usa a resposta para demonstrar até que ponto somos suscetíveis à pressão que exercem sobre nós as opiniões dos outros, “mesmo no que se refere à perceção física”. E explica como Nietzsche divide o mundo entre os que seguem os seus próprios desejos, impossíveis de dominar, e os que seguem os outros, fracos e sujeitos às vontades dos que os rodeiam.

“Não se preocupe. Este é o pão nosso de cada dia”, diz a mulher com um ar condescendente ao estudante embaraçado. “Somos muito submissos e acabamos por aceitar as ideias da maioria. Até na Alemanha, as pessoas foram capazes de acreditar no que repetia a propaganda nazi. Já dizia Kant, com toda a sua amargura, que o ser o humano é o único animal que precisa de um amo para viver”.

O aluno justifica-se, dizendo que a pergunta lhe pareceu um jogo e que se limitou a replicar a resposta que lhe parecia certa, tendo em conta o que tinham dito os outros. Na verdade, o maior perigo não está em quem repete, sem convicção, o que diz a maioria, embora esse seja um problema cada vez maior. O risco que enfrentamos está na forma como há cada vez mais pessoas capazes de acreditar convictamente que a capa de cartolina verde é vermelha.

O viés cognitivo é descrito como um erro de pensamento. Uma falha que ocorre quando o nosso cérebro segue um atalho, respondendo a um padrão conhecido. Vemos não o que lá está, mas o que nos parece provável que esteja tendo em conta as nossas experiências passadas e crenças.

A forma como vemos o mundo é, em grande medida, construída a partir de vivências, mas também da valorização que fazemos dos relatos que ouvimos. Quem nos conta a história é uma parte importante de como a vamos ouvir. A autoridade que atribuímos às fontes tem também muito que ver com a forma como essas fontes validam ou não as nossas próprias conceções. E é aí que entra aquele que tem sido o maior catalisador da polarização das nossas sociedades: o insondável algoritmo.

O algoritmo traz até nós ideias com as quais “acredita” que vamos ter afinidade. Mas, como se move também pela capacidade de gerar reações, essas ideias são quase sempre envoltas num manto de emotividade capaz de acionar o grande motor de reação que é a indignação. E o problema é que a indignação é uma droga dura. Obriga a doses cada vez mais elevadas para gerar o mesmo efeito.

O resultado são grupos de pessoas unidas por emoções descontroladas, juntas em crenças que se vão reforçando mutuamente. Incapazes de pôr em causa a forma como pensam. Muitas vezes sem sequer ter acesso a ideias que ponham em causa a forma como pensam.

Os jornalistas lidam muitas vezes com isto. As pessoas assumem uma determinada versão. Os jornalistas insistem, uma e outra vez, acumulando dados, citando fontes, acrescentando descrições e imagens. É exasperantemente rara a vez em que alguém muda de opinião depois de confrontado com uma notícia escrita segundo as regras de contraditório e verificação, com fontes identificadas e elementos que a sustentam. No máximo, conseguem um sorriso com reticências, que deixa no ar a dúvida e não é um sinal de adesão. E isto, claro, quando se consegue convencer um leitor a ir para lá do título, que essa é já em si uma vitória para quem escreve.

O trabalho do jornalista é escrever que a capa de cartolina é verde. Não porque ele diz que é verde, mas porque o método jornalístico que segue permite concluir que é verde. Não sabemos quantas pessoas acreditam ainda na importância de ter um jornalista a escrever que a capa de cartolina é verde. Não sabemos quantas estarão disponíveis para aceitar que é verde depois de terem sido induzidas a acreditar que era vermelha. Mas foi para isto que alguns escolhem a profissão de jornalista.

Foram muitas as vezes em que escrevi que a capa de cartolina era verde e isso ajudou a aumentar o número de pessoas que a viam dessa cor. Noutras, falhei. Mas não vou desistir. A capa de cartolina é verde.

defini perfeitamente a sociedade, a classe dominante sabotando os despreparados, ingênuos. As pessoas que não entenderam é exatamente o que o governo quer!

A crónica usa a metáfora de uma professora que mostra uma capa verde a alunos, mas que depois, por insistência ou ordem, pede-lhes para que digam que é vermelha, sublinhando que é necessário continuar a dizer a verdade mesmo perante a pressão social.

Este pequeno trecho define perfeitamente a sociedade: a classe dominante sabotando os despreparados, ingénuos…

Estamos Juntos!

Édio Martins
(edio.martins@netcabo.pt)

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