Conjuntura

A “GERAÇÃO Z” E AS URNAS: ENTRE A INDIFERENÇA E O PODER TRANSFORMADOR

Em próximas eleições, sejam locais ou nacionais, um grupo demográfico poderá estar a ganhar forte potencial para redefinir resultados eleitorais e alterar a paisagem política: a “Geração Z”.


Por: Eugénio Costa Almeida*

Recentemente, a “Geração Z”, emergiu com algum impacto na Comunicação Social, por “derrubar” Governos, “estilhaçar” corrupção e colocar países alheados dos holofotes mediáticos das primeiras páginas, em países com a contingência de atingirem outros patamares políticos e sociais e verem as reivindicações da Geração Z se tornarem num maremoto político-social.

(nota: “maremoto”, é uma palavra do léxico português que no léxico do politicamente correcto – leia-se, como a língua inglesa não tinha alguma palavra para o mesmo sentido e o neocolonialismo linguístico leva que muitos adoptem e, nalguns casos, aportuguesam o inglês – foi substituída pela nipónica “tsunami”)

 Mas quem é a “Geração Z”?

Nascidos aproximadamente entre meados da década de 1990 e o início dos anos 2010, estes jovens adultos cresceram num mundo em permanente mutação tecnológica, económica e climática. Na sua maioria, têm entre 16 / 17 e 30 anos – uma faixa etária que inclui desde estudantes do ensino secundário a jovens profissionais – e enfrentam desafios inéditos, bem como oportunidades singulares de participação cívica. A sua relação com a política, no entanto, é complexa: ao mesmo tempo que expressam desconfiança e desinteresse pelos partidos tradicionais, são protagonistas de mobilizações digitais e causas sociais com impacto real.

 E quem são, afinal, os “Z”?

A “Geração Z” é a primeira verdadeiramente nativa do digital. Cresceu com a Internet, com redes sociais omnipresentes e com acesso constante à informação; ou, mais precisamente, a um caudal de dados, opiniões e, principalmente – porque a isso mostram parecer ser, estranhamente, atraídos – à desinformação (as tais “fake news”). As fronteiras entre o local e o global foram, para eles, sempre porosas. Um protesto em Hong Kong ou no Nepal ou no Sri Lanka, um discurso climático da activista e ambientalista sueca Greta Thunberg, ou um vídeo viral sobre injustiça racial têm, muitas vezes, mais impacto na sua formação política do que um debate parlamentar ou um comício de campanha.

Além disso, é uma geração marcada por crises: a crise financeira de 2008, causada pelo colapso do mercado imobiliário dos EUA (reconhecido como crise do subprime) atingiu as suas famílias; pela pandemia de COVID-19 que interrompeu percursos escolares e profissionais; ou a emergência climática que paira como horizonte existencial. Esta sucessão de acontecimentos moldou uma consciência aguda sobre desigualdades e sustentabilidade, ao mesmo tempo que vai alimentando um certo cepticismo em relação às instituições políticas tradicionais.

O que querem (ou… e o que não querem)?

A “Geração Z” manifesta preocupações claras e consistentes em sondagens e estudos de opinião. Entre os temas prioritários destacam-se:

  • a crise climática: mais do que qualquer outra geração – e houve gerações que alertaram para este problema que se avizinhava, como a minha –, os “Z” vêem as alterações climáticas como uma urgência política absoluta. Não se contentam com as metas vagas para 2050; exigem medidas concretas e imediatas, já no próximo COP30, em Novembro de 2025, em Belém, Brasil;
  • a igualdade e a diversidade, defendendo direitos das minorias, igualdade de género e inclusão social, e rejeitam discursos discriminatórios ou conservadorismos identitários;
  • a transparência e autenticidade, que os leva a desconfiarem de políticos que falam “como sempre se falou”; esperam discursos claros, coerentes e alinhados com as práticas reais.
  • flexibilidade económica e oportunidades, valorizando políticas que abordem o acesso à habitação, empregos dignos e oportunidades de futuro, questões particularmente sensíveis para uma geração que enfrenta precariedade laboral e rendas elevadas.

Em contrapartida, há sinais claros do que não querem, como campanhas vazias, promessas genéricas e, ou, estéreis – na sua percepção –, debates centrados em ocas rivalidades partidárias em vez de problemas concretos. Também mostram resistência à comunicação unidireccional, já que preferem diálogo, interacção e participação horizontal como actor estratégico.

“Geração Z” opta por abstenção ou transformação?

Apesar de todas estas posições claras, a “Geração Z” tende a participar menos nas eleições do que grupos mais velhos. Em muitos países europeus, os níveis de abstenção jovem ultrapassam os 50%. Em eleições locais, essa taxa é ainda maior. Mas isto, na sua opinião, não significa, necessariamente, apatia. O fenómeno é mais complexo: muitos jovens sentem que o seu voto “não muda nada”, que os partidos não os representam. Na sua perspectiva, consideram que as soluções políticas reais acontecem fora das instituições político, governativas e, ou, legislativas, mas em movimentos sociais, nas redes online ou em iniciativas de base.

Paradoxalmente, esta mesma geração foi central em grandes mobilizações políticas recentemente verificadas: desde as marchas pelo clima até campanhas digitais contra o racismo ou pela defesa de direitos civis, ou, mais proximamente, na queda do Governo Malgache. A sua acção tende a manifestar-se de forma não convencional, muitas vezes fora das estruturas tradicionais da democracia representativa.

E como a “Geração Z” vê as eleições locais?

Para os “Z” as eleições locais, por sua natureza, parecem afastadas do imaginário político jovem; não são mais que um palco subestimado, tornando-as, por sua natureza, parecerem afastadas do imaginário político jovem. Muitos jovens desconhecem competências municipais ou a importância dos órgãos locais na definição de políticas que lhes tocam directamente: transportes públicos, habitação, espaços verdes, cultura, educação, juventude. Paradoxalmente, esta seria, em concreto, a escala local que ofereceria maior potencial de transformação palpável.

Enquanto as grandes narrativas nacionais podem parecer – e não poucas vezes, são-no, – abstractas, as decisões locais afectam quotidianamente a vida dos jovens. A qualidade da escola ou da universidade, o custo do passe de transportes, a existência (ou não) de políticas culturais inclusivas, tudo isso depende, também – e, em muitas vezes, apenas, – das autarquias (municípios, comunas, juntas de freguesia e assembleias municipais). No entanto, estas instâncias político-administrativas são frequentemente vistas como distantes, tecnocráticas ou irrelevantes, quando poderiam ser o espaço ideal para envolver uma geração com vocação participativa.

E qual é a linguagem da política e o código da “Geração Z”

Parte do desfasamento entre jovens e instituições políticas reside na linguagem. Para os “Z” a política institucional continua a falar num código formal, distante e, na maioria das vezes, arcaico. Já eles comunicam em memes, vídeos curtos, ironia, autenticidade crua e inter-actividade constante. Não se trata de “infantilizar” a mensagem, mas de reconhecer que os formatos e os canais de comunicação contam. Uma assembleia municipal transmitida em “streaming” com participação aberta, via “chat”, ou redes sociais, pode ser mais eficaz do que um debate em sala fechada com poucos participantes – como muitas vezes acontece.

Mais importante ainda: os jovens não querem ser “meros alvos” de campanhas, mas parceiros activos. Querem poder co-criar soluções, participar em orçamentos participativos, propor ideias e ver e sentir resultados concretos.

Aqui chegados qual o desafio dos partidos e candidatos?

Para os partidos e candidatos, especialmente em eleições locais, o desafio não é apenas “chegar” à “Geração Z”, mas levá-la a sentir que vale a pena ficar. Isso implica:

  • programas específicos e claros, com políticas de habitação jovem, mobilidade sustentável, apoio a projectos culturais e tecnológicos locais, espaços públicos inclusivos;
  • participação real, de modo a integrar jovens em listas autárquicas, conselhos consultivos e processos de decisão;
  • comunicação bi-direccional, ou seja, tal como os “Z” usar redes sociais de forma autêntica, com linguagem próxima, evitando paternalismos;
  • acções visíveis e rápidas, para demonstrar que pequenas mudanças podem acontecer rapidamente no plano local, gerando confiança.

A “Geração Z” pode ser uma geração decisiva…

Com o envelhecimento demográfico, o peso eleitoral dos jovens pode parecer, à primeira vista, reduzido. Todavia, a Geração Z” representa o futuro do eleitorado; e já é, em muitos contextos, numericamente significativa. Se mobilizada, pode inverter resultados em disputas locais renhidas, influenciar agendas políticas e trazer novas práticas democráticas. Mais do que isso, pode renovar a cultura política, impondo transparência, sustentabilidade e inclusão como condições mínimas.

Ignorar esta geração é um erro estratégico e democrático. Escutá-la, envolvê-la e dar-lhe espaço de decisão pode significar revitalizar a política num momento em que a confiança nas instituições está em clara queda.

 Resumindo…

A “Geração Z” não é apática: é exigente. Não é indiferente: é selectiva. Não é alienada; está, muitas vezes, desencantada. Entre a abstenção e a transformação, o seu papel nas eleições, sobretudo locais, dependerá da capacidade dos actores políticos de compreender e respeitar grande parte do seu código, das suas prioridades e dos seus modos de acção. Se conseguirem fazê-lo, poderão encontrar não apenas novos eleitores, mas novos protagonistas da democracia.

*Pós-Doutorado; Investigador do Centro de Estudos Internacionais do ISCTE-IUL (CEI-IUL), Investigador-Sénior Associado do Centro de Estudos para o Desenvolvimento Económico e Social de África (CEDESA/Angola Research Network) e Investigador-Associado do CINAMIL **** Todos os textos por mim escritos só me responsabilizam a mim e não às entidades a que estou agregado.

 

Sobre o autor

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