Dizem que Novembro em Luanda não é um mês, é um estilo de vida. E têm razão. É aquele estilo de vida de quem vive numa espécie de reality show onde a regra é: “Se vem visita importante, esconde a porcaria e manda o povo para casa”.
Aconteceu com a visita de Biden, acontece nas Cimeiras, acontece sempre. A nossa “ciência política” descobriu uma fórmula mágica para resolver o trânsito caótico, a insatisfação social e a desorganização urbana de uma só vez: Decreto Presidencial de Tolerância de Ponto.
É genial, se pensarmos bem.
Temos medo de manifestações? Feriado.
A polícia não consegue gerir o trânsito da comitiva e dos azuis e brancos ao mesmo tempo? Feriado.
Queremos que a CNN mostre uma Luanda limpa, vasta e organizada? Tira-se o luandense da rua. Feriado.
O problema é que o “Luanda Lifestyle” sai caro. Enquanto a cidade oficial descansa e tira fotos bonitas, a cidade real — a da zunga, do táxi, das empresas que tentam sobreviver — leva mais uma abada.
O governo trata a economia como se fosse um interruptor que se pode desligar quando convém. Mas a fome não tira folga, e as contas não aceitam “tolerância de ponto” como pagamento.
No fundo, estes feriados não são para nós descansarmos. São para nós não estorvarmos.
Querem esconder-nos para a visita não ver que a cidade só funciona quando está vazia.
Então, aproveitem a praia (quem pode), riam com os memes, mas não se enganem: este silêncio na cidade não é paz. É anestesia.
Bem-vindos a Novembro, o mês em que somos todos convidados a fingir que não existimos.


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