Num clima de incerteza ao nível do comércio global e de aumento das disputas geopolíticas e económicas, o continente africano poderá alcançar um crescimento de 4,2% em 2025 e 4,3% em 2026, patenteando uma magra subida de 0,3% ponto percentual relativamente às projecções do relatório sobre as Perspectivas Económicas Africanas, de Maio último, segundo o mais recente Relatório de Actualização do Desempenho e Perspectivas Macroeconómicas Africanas, do Banco Africano de Desenvolvimento, divulgado em Novembro de 2025.
Por: Mário Paiva / Foto: Arquivo F&N
Este panorama de crescimento positivo tem sido alimentado por gastos elevados do consumo privado, uma política monetária mais flexível a par do enfraquecimento do dólar norte-americano, que serviram para aliviar o peso da inflação e fomentar maior crescimento entre os parceiros comerciais.
Segundo as Perspectivas do BAD, «a inflação devera atingir uma media de 13,7% em 2025 e 10.3% em 2026», sendo que «em 35 países, a inflação projectada está abaixo de 5% em 2025 e 2026, apoiada pelo fortalecimento das moedas nacionais, melhores condições climáticas e redução dos preços de alimentos e combustíveis».
Contudo, uma dúzia de países africanos poderão conhecer uma inflação de dois dígitos «impulsionada por desafios estruturais a macroeconómicos, incluindo desequilíbrios fiscais e externos, aumento da dívida pública, efeitos de conflitos, choques relacionados com o clima e desequilíbrios entre a oferta e a procura».
O défice orçamental medio deverá aumentar para 5.1% do PIB em 2025, acima dos 4,7% previstos no relatório de Maio de 2025, «reflectindo receitas governamentais moderadas devido aos baixos rendimentos das exportações, receitas do turismo e arrecadação de receitas internas».
As economias de muitos países africanos tem sido igualmente afectada negativamente pela queda dos preços de matérias-primas (sobretudo petróleo e matérias-primas) diminuindo as receitas, paralelamente ao enfraquecimento do dolar norte-americano com impacto nas receitas de turismo em moedas nacionais.
Segundo o BAD, «o défice da balança corrente deverá diminuir para 1,9% do PIB em 2025 e 2,0% em 2026, em comparação com 2,5% e 2,7% respectivamente na previsão de Maio de 2025». Um resultado atribuído a melhoria da balança comercial, devido a factura de importações favorável resultante do enfraquecimento do dólar.
Entretanto, a dívida pública continua afligir o continente, tendo conhecido um aumento de quase 170%, alcançando 1,8 biliões de dólares entre 2010 e 2024, pondo a nu as «grandes necessidades de financiamento de infraestruturas, as respostas a múltiplos choques e mudanças no financiamento global». O BAD explica ainda esses desenvolvimentos com a mudança da composição da dívida, «passando de empréstimos concessionais para fontes comerciais externas, credores não pertencentes ao Clube de Paris e empréstimos internos».
Não obstante isso, aquela instituição financeira pan-africana anota positivamente que «os rácios da dívida pública bruta em relação ao PIB estão a abrandar, de uma forma mediana de 66,3% em 2023 para 65,5% em 2024» devendo cair para menos de 65% em 2025 e 2026.
Mas o BAD faz um alerta: «a fragmentação geopolítica, as restrições à política comercial, os conflitos regionais e internos, os choques relacionados com o clima, podem comprometer o crescimento a medio prazo».
Esta conjuntura demanda o aprofundamento urgente do comércio intra-africano no âmbito da Zona de Comércio Livre Continental Africana (AfCFTA) «dando prioridade à adição de valor e à diversificação da base de produção e exportação», sendo «necessárias medidas políticas prospectivas para resolver os estrangulamentos macroeconómicos e estruturais, reforçar as cadeias de abastecimento, a fim de melhorar a criação de valor para um crescimento sustentado e inclusivo».
Exige-se ainda por parte dos bancos centrais «um julgamento prudente na gestão da política monetária para alcançar um equilíbrio entre a contenção da inflação e o apoio ao crescimento». Isto, sublinha igualmente o relatório do BAD, «requer a definição de metas monetárias e de taxas de juro adequadas e a coordenação de medidas políticas para enfrentar os desafios emergentes».
Os governos africanos são igualmente chamados no plano fiscal «a racionalizar as despesas e melhorar a sua eficiência, incluindo nas empresas estatais, direccionar, melhorar os subsídios para investimentos mais produtivos e intensivos em mão de obra, prestar apoio social às populações mais vulneráveis».
Nesse sentido, recomenda-se o reforço da mobilização de recursos internos através de sistemas fiscais digitais, a melhoria da administração fiscal para reduzir perdas, auxiliando desse modo maior cabimentação orçamental para despesas de capital e sociais, visando estimular o crescimento.
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*O primeiro lançamento do relatório Desempenho e Perspectivas Macroeconómicas Africanas (MEO, no acrónimo em língua inglesa) ocorreu em 2023 e complementa o Relatório Anual sobre as Perspectivas Económicas Africanas do BAD, que se concentra nas principais políticas emergentes relevantes para o desenvolvimento do continente. O MEO publica-se no primeiro e quarto trimestres de cada ano e a actualização antecede a edição de 2026, a ser publicada em Janeiro, que destaca as condições macroeconómicas face a múltiplos choques sem precedentes.



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