O fenómeno não é novo. É secular, próprio da raça humana, umas vezes compreendido, outras mais vezes detestado porque irracional, sobretudo nos tempos que correm, e mesmo nos chamados estados mais civilizados. Aqui bem perto, na África do Sul, a xenofobia ressurgiu numa forma mais condenável possível. Atingiu milhares de negros estrangeiros, com tanto ódio e violência, deixando assustado o continente. O terror imperou, o discurso raivoso contra os emigrantes acendeu a chama da história daquele país, que carrega ainda o pesado fardo do “apartheid”.
Infelizmente, o nosso mundo continua assaltado por este fenómeno e a xenofobia permanece encalcada em mentes humanas pouco preparadas para aceitar, receber e coabitar com os outros diferentes, por mais necessitados que sejam. A lista dos países mais xenófobos é longa e restam muito poucas dúvidas que esteja completa, porque este fenómeno é bastas vezes silenciado; age nas trevas do pensamento humano de supostas auto-defesas pessoais ou colectivas, das políticas estatais de defesa da “soberania”, “integridade territorial”, “tribal ou racial”, cultural, económica, etc., etc.
Uma pesquisa rápida com recurso à Inteligência Artificial alerta numa simples frase que os “países mais xenófobos”, que neste caso a África do Sul nem é citada, geralmente se refere a “nações com maior índice de rejeição a estrangeiros, imigrantes e culturas diferentes”.
Ora bem; lamentavelmente, com estes episódios ocorridos no país do lendário Nelson Mandela ( que deve estar a dar voltas na tumba, de tanta indigação), a África do Sul não só manchou a sua reputação como a de todo o continente africano. Note-se que já há algum tempo, a África do Sul tem registado episódios recorrentes de violência xenófoba, com destaque para os incidentes de 2019, que causaram a morte de pelo menos 18 estrangeiros, segundo a Human Rights Watch.
Vai engrossar o ranking dos países que aparecem com mais frequência nos estudos sobre xenofobia:
1.º – Coreia do Norte, que implementa “Políticas de isolamento extremo. É quase impossível para estrangeiros viver ou visitar sem controle estatal pesado”;
2.º – China – Aparece em 2.º lugar em listas de xenofobia. Impões “Barreiras culturais e legais para imigração e naturalização”;
3.º – Israel: Recusa a maioria dos pedidos de asilo e tem políticas restritivas de imigração;
4º – Japão e Coreia do Sul: São países com alta qualidade de vida e segurança, mas com baixa taxa de imigração e dificuldade para estrangeiros obterem nacionalidade ou residência de longo prazo.
5º- Hungria e Sérvia: Estudos europeus apontam alta visão negativa em relação a muçulmanos e imigrantes.
Ainda de acordo com a busca na I.A., outros que aparecem em listas de 50 países mais xenófobos, são citados a Rússia, Índia, Nigéria, Afeganistão, Cuba, Marrocos, França, Polônia e Chile.
Mas a fonte alerta: “ Importante entender: que a Xenofobia é o medo ou aversão ao que é percebido como estrangeiro. “Os índices variam conforme o grupo alvo, leis de imigração, contexto político e económico. Os países com menor índice de xenofobia costumam estar na Europa Setentrional, Península Ibérica, América do Norte e Oceania”, acrescenta.
Entretanto, a Deutche Welle relembra que os protestos e ataques xenófobos na África do Sul começaram logo após o fim do Apartheid em 1994, com episódios esporádicos, mas ganharam grande dimensão a partir de meados dos anos 2000. “O surto mais violento e notório iniciou-se em 11 de maio de 2008, em Joanesburgo, espalhando-se rapidamente pelo país”. Neste mês de maio, o país voltou a ser assombrado por velhos fantasmas do passado. Durante dias a fio foram quebradas todas as regras de convivência humana; incialmente reinou o silêncio das autoridades, vendo-se, inclusive, autoridades policiais a protegerem os “manifestantes” anti- emigrantes, sem escolha de raças ou credos religiosos, mas, sobretudo e estranhamente “negros” como tanzanianos, moçambicanos ou nigerianos”, que lhes estão a roubar todas as oportunidades de emprego, bem estar,e, “ as mulheres” (sic!).
Presidente Cyril Ramaphosa XENOFOBIA “NÃO TEM
LUGAR” NA ÁFRICA DO SUL

Tal como se esperava, o Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, reagiu finalmente no passado dia 10 de maio, dizendo que a xenofobia “não tem lugar” na África do Sul. Uma semana depois, surgiu e desculpou-se, mas algumas imagens pouco recomendáveis para a sua reputação política, surgiram nas redes sociais a conversar com um dos principais líderes das manifestações xenófobas.
Segundo a RFI, em carta aberta publicada, o Presidente disse que “os recentes protestos violentos e actos criminosos dirigidos contra estrangeiros em algumas partes do país não representam a opinião do povo sul-africano nem reflectem a política do governo”.
“Devemos deixar claro que na África do Sul não há lugar para a xenofobia, mobilização étnica, intolerância ou violência”, sublinhou o Presidente que também mencionou a necessidade de “enfrentar o desafio da imigração ilegal, que ameaça a nossa estabilidade social, governação e segurança nacional” e “pressiona os serviços de saúde, habitação e municipais, particularmente nas comunidades desfavorecidas”.
O que se passou mereceria, sim, uma “chamada básica” do chefe de estado sul-africano da União Africana ou da SADC para as devidas explicações, pois a onda de repulsa do continente foi enorme, tal foi a gravidade das consequências registadas pelas manifestações e tensões sociais visando migrantes, sendo que, no início do mês, uma marcha contra a imigração culminou em ataques a negócios de estrangeiros na província do Cabo Oriental, este do país.
Não sendo ainda clara a posição de outros chefes de estado, há que se salientar que, de imediato, diversos países africanos, nomeadamente Moçambique, a Nigéria e o Gana, manifestaram a sua preocupação com a segurança dos seus cidadãos residentes na África do Sul. “O Governo nigeriano criticou Pretória por não ter posto fim à perseguição de imigrantes e organizou voos de repatriamento de emergência para os seus cidadãos residentes na África do Sul. No final de Abril, o Gana também convocou o embaixador sul-africano devido a vários “incidentes xenófobos”.
Por seu lado, o porta-voz da presidência, Vincent Magwenya, garantiu também que “os sul-africanos não são xenófobos , ao reforçar que o poder sul-africano está “a lidar com focos de protesto, o que é permitido pela Constituição”. Citado pela Reuters, este responsável adiantou ainda que durante a reunião , o presidente sul-africano e o seu homólogo moçambicano chegaram a um consenso sobre a necessidade de “o continente trabalhar em conjunto para resolver os problemas que estão na origem destes níveis de migração”.
O porta-voz da presidência afirmou ainda que os dois dirigentes consideraram que “os conflitos, os problemas de instabilidade e, em algumas regiões (…) a má governação levam as populações a migrar em grande número e a buscar refúgio em diferentes partes do continente, incluindo na África do Sul.”
Ao sublinhar que a xenofobia não é um fenómeno que atinge todo o país, por seu turno, o economista guineense e professor na Universidade Nelson Mandela na Cidade do Cabo, Carlos Lopes, lamenta que o poder não informe melhor a sua população sobre o contributo dos estrangeiros para a África do Sul.
“Primeiro é preciso dizer que a amplitude que é dada a esse fenómeno nas redes sociais às vezes trai o facto de estarmos num país muito grande e de esses fenómenos estarem a acontecer em sítios geograficamente muito localizados da África do Sul, nomeadamente a província do Kwazulu Natal (no nordeste do país) e à volta de Joanesburgo (no norte), que é uma cidade que também tem uma demografia muito parecida com a do Kwazulu Natal. Eu vivo numa outra província, vivo na província do Cabo Ocidental (no sul) e aqui praticamente não temos nenhum fenómeno dessa natureza, porque a composição demográfica também é muito diferente. (…) É uma cidade capital que é muito cosmopolita, não necessariamente do segmento que está a provocar essas tensões, que é o segmento das pessoas mais vulneráveis, que estão nos Townships, nas zonas onde existe o comércio de varejo, muito próximo do informal .As pessoas estão desempregadas ou têm ocupações precárias, pensam que estão a ser exploradas por causa dos estrangeiros, quando na realidade não tem nada a ver”, analisa o académico.
“É uma pena que o governo não faça o necessário para esclarecer melhor a contribuição dos estrangeiros e tente um pouco utilizar de uma forma populista estes fenómenos para demonstrar, digamos, a sua atitude de simpatia com esses movimentos, porque estamos muito próximos das eleições locais que vão ter lugar no mês de Novembro”, apontou o economista, ainda citado pelo Reuters.
Moçambicanos preocupados – “O Presidente moçambicano esteve na África do Sul para abordar soluções para uma “convivência pacífica” após acções xenófobas no país vizinho. Na véspera da viagem, a secretária de Estado dos Negócios Estrangeiros e Comunidade Moçambicana no Exterior, Maria Manso, fez uma conferência de imprensa sobre a situação dos emigrantes moçambicanos residentes na África do Sul e garantiu que o Governo moçambicano está a criar condições junto à fronteira de Ressano Garcia, principal ligação entre os dois países através da província de Maputo, para “acolher os compatriotas que, por razões de segurança, decidam regressar ao país”, deu conta a RFI.
Note-se que Moçambique tem 30.000 cidadãos residentes na vizinha África do Sul, segundo a governante moçambicana, que reconheceu que, “neste momento delicado, enfrentam terror, medo e incerteza”.
Enquanto isso, na mesma semana, perante o parlamento moçambicano, a Primeira-ministra Benvinda Levi disse que “o Governo repudia e condena de forma veemente os ataques de xenofobia que estão a ocorrer no país vizinho, a África do Sul, contrariando os valores e espírito de tolerância e de convivência pacífica e harmoniosa entre irmãos do Continente Africano e da SADC”.
Maputo apelou à “união, solidariedade e respeito entre os povos africanos”. Em declarações à RFI, o Presidente da Associação dos Transportadores Internacionais da Baixa da cidade de Maputo, Martins Ambrósio, afirmou que o fenómeno de xenofobia na África do Sul “impactou” as passagens fronteiriças entre os dois países vizinhos, nomeadamente com uma redução de passageiros.
A Frelimo, no poder, defendeu este sábado a união, solidariedade e respeito entre os povos africanos face aos ataques a imigrantes na África do Sul, que agridem a dignidade humana e integração regional.
“A Frelimo reafirma que a unidade africana está acima de tudo. A perseguição a estrangeiros na África do Sul agride os valores da dignidade humana e da integração regional”, lê-se numa informação divulgada na conta oficial do partido, na rede social Facebook.
Nigerianos indignados – Entretanto, de acordo com a Lusa e a DW, pelo menos 130 nigerianos pediram repatriamento na África do Sul, devido aos crescentes actos xenófobos contra migrantes africanos, informou a ministra dos Negócios Estrangeiros da Nigéria, Bianca Odumegwu-Ojukwu.
“Foram feitas diligências para recolher os dados dos nigerianos na África do Sul para voos de repatriação voluntária para aqueles que solicitam ajuda para regressar a casa. Até ao momento, 130 requerentes registaram-se devidamente na nossa missão”, publicou Odumegwu-Ojukwu na rede social X, num momento de rejeição de grupos sul-africanos contra a migração irregular, sublinhando que dois nigerianos morreram em incidentes separados que envolveram agentes de segurança sul-africanos: Amamiro Chidiebere Emmanuel faleceu a 25 de abril, espancado por militares sul-africanos em Port Elizabeth e Nnaemeka Matthew Andrew também morreu após confronto com membros da Polícia Metropolitana de Tshwane.
Além disso, na publicação, Odumegwu-Ojukwu fez referência às imagens que circulam em meios de comunicação e redes sociais nas quais se mostram violência, massacres e assassínios “xenófobos selectivos de estrangeiros”, bem como manifestações caracterizadas por retórica xenófoba, discursos de ódio e declarações incendiárias contra os migrantes.
“A Nigéria é um país que participou activamente na luta pela libertação da África do Sul, um facto que deve ser transmitido às novas gerações sul-africanas. As vidas e os negócios dos nigerianos na África do Sul não devem continuar em risco”, recordou Odumegwu-Ojukwu.
OPINIÃO – A Terceira Força: QUEM REALMENTE QUER
QUE A ÁFRICA DO SUL FALHE?
A África do Sul está sob cerco. Não por um exército com tanques, mas por algo muito mais insidioso. Uma rede sombria de sindicatos criminosos, agentes de inteligência, potências estrangeiras e facções políticas domésticas têm desmantelado sistematicamente o estado desde dentro. Chame pelo que é: uma Terceira Força.
As evidências estão por toda parte. Só é preciso deixar de olhar para cada crise de forma isolada e começar a ligar os pontos.
O motor: Crime, drogas e tráfico de pessoas
Toda campanha de desestabilização precisa de dinheiro. Quem está a financiar os movimentos xenófobos? Os doadores anónimos do Partido MK? As guerras faccionais dentro da polícia? Siga o dinheiro e acaba no mesmo lugar: crime organizado.
A África do Sul tornou-se um centro global para o tráfico de drogas e a imigração ilegal. A rota do Cabo não é apenas estrategicamente importante para o transporte marítimo. É um corredor para a cocaína da América Latina, heroína do Afeganistão via África Oriental e seres humanos traficados através das fronteiras. Fontes de inteligência alertam há muito tempo que redes criminais transnacionais infiltraram-se nos serviços de segurança. Os mesmos sindicatos que transportam drogas também movimentam dinheiro. E esse dinheiro está a comprar influência, protecção e caos.
Quando o Comissário de Polícia de KZN, Nhlanhla Mkhwanazi, expôs a infiltração do cluster da justiça, ele estava a identificar o problema. O Vice-Comissário Nacional Shadrack Sibiya confirmou a guerra fraccionária dentro da polícia. Quem está a ganhar essa guerra? Não é o povo sul-africano.
Os pilares da desestabilização
Xenofobia como arma
Marcha a Marcha, Operação Dudula, os assassinatos de cidadãos estrangeiros, não são erupções espontâneas de raiva pública. Elas são planeadas. Servem a um objectivo claro: rasgar o tecido social, criar uma crise de governação e dar à comunidade internacional uma razão para rotular a África do Sul como um Estado falhado. Quem os financia? A pergunta nunca é respondida. Movimentos como estes não organizam marchas nacionais sem recursos e protecção contra prisão. O encerramento nacional de 4 de maio não é de base. É encenado.
A captura do Estado nunca terminou.
A Comissão Zondo expôs o saque do Estado sob Jacob Zuma. Mas as redes que lucraram com os operativos ligados aos Gupta, os funcionários da inteligência que fizeram vista grossa, a facção RET dentro do ANC, nunca desapareceram. Foram para a clandestinidade. Agora estão a ressurgir através do Partido MK, através de facções dentro da polícia, através da tentativa de impeachment de Cyril Ramaphosa.
Zuma não é o herói desta história. Ele presidiu o saque. O seu regresso através do Partido MK não é uma recuperação política. É uma contra-revolução destinada a terminar o que a captura do Estado começou: o esvaziamento completo do Estado.
Corrupção e faccionalismo policial
A Comissão Madlanga expôs um serviço policial em guerra consigo mesmo. Uma facção leal a Ramaphosa e à agenda de reformas. Outra facção alinhada com a velha guarda, com os sindicatos do crime, com as redes que querem a saída do presidente.
Isto não é intriga burocrática. Esta é uma luta pelo controlo do aparelho de segurança. Quem controla a polícia controla as alavancas do poder. E, neste momento, ninguém está no controlo total. É exactamente assim que a Terceira Força quer.
A direita, AfriForum, e a mentira do genocídio branco
Donald Trump afirmou repetidamente que a África do Sul está a cometer um “genocídio branco”. É uma mentira. Até mesmo o AfriForum ameaça recorrer à justiça quando os jornalistas lhes atribuem essa linguagem. Mas o Dano já foi feito. A mentira deslegitima o governo sul-africano internacionalmente, cria um pretexto para sanções e prepara o terreno para a intervenção.
A Aliança Democrática posicionou-se como o parceiro preferido de Washington. Uma delegação da DA viajou para Washington e reuniu-se com funcionários da Casa Branca. Ramaphosa acusou a DA de ser “parte de um núcleo de direita que procura usar um estado estrangeiro para efectuar alterações a políticas nacionais desenvolvidas democraticamente”. Isso não é paranoia. Isso é um presidente a nomear a ameaça.
O lobby israelita e o financiamento cristão sionista
Este é o ponto que a maioria das pessoas não percebe. A SAIPAC foi lançada na África do Sul, explicitamente modelada com base na AIPAC nos Estados Unidos. Foi fundada para permanecer “em sintonia e em estreita associação com a Embaixada de Israel”. Isso não é um grupo de pressão local. Isso é um projecto político estrangeiro.
Quem mais é financiado por interesses pró-Israel? Olhem para a Aliança Patriótica. Olhem para a ActionSA de Herman Mashaba. Olhem para os chamados partidos cristãos sionistas que surgiram subitamente como defensores vocais dos interesses de Israel na África do Sul. A sua oposição ao caso de genocídio do CIJ não é baseada em princípios. É paga.
O objectivo é claro: inverter a posição moral da África do Sul sobre a Palestina, isolar o governo internacionalmente e punir o país por ousar liderar o Sul Global.
O prémio estratégico: o Cabo da Boa Esperança.
Por que razão tudo isto importa às potências estrangeiras? Sigam as rotas marítimas.
A guerra no Irão, o encerramento do Estreito de Ormuz, a crise no Mar Vermelho, tudo isso redirecionou o transporte global de mercadorias pelo Cabo da Boa Esperança. Até dois terços da carga redirecionada passa actualmente pela costa sul-africana. Quem controla o Cabo controla o comércio global. E neste momento, a África do Sul nem consegue manter os seus portos a funcionar.
Uma África do Sul desestabilizada não pode defender os seus próprios activos estratégicos. Um governo consumido por lutas internas não pode negociar a partir de uma posição de força. Um país em caos é um país que pode ser dominado.
A política externa independente da África do Sul é o verdadeiro alvo.
A África do Sul cometeu o imperdoável: recusou-se a escolher o lado do Ocidente
O processo do ICJ contra Israel por genocídio enfureceu Washington e Tel Aviv. A recusa da África do Sul em condenar a Rússia na guerra da Ucrânia foi chamada de “alinhamento com adversários”. A receção pela África do Sul de exercícios navais dos BRICS com a China, Rússia e Irão junto ao Cabo foi condenada pelos Estados Unidos.
Estas não são escolhas de política externa aleatórias. São afirmações de soberania. E por isso, a África do Sul está a ser punida. A campanha de desestabilização é a punição.
A armadilha Phala Phala
Agora chegamos ao Tribunal Constitucional e ao impeachment do Presidente Ramaphosa.
O caso Phala Phala milhões em dólares americanos escondidos numa quinta de caça, um assalto, as alegações sempre mutáveis de Arthur Fraser foram sempre uma arma política. Fraser afirmou mais tarde que lhe foi oferecido um suborno de 50 milhões de rands para retirar o processo. Isto soa improvável? Foi concebido para isso. Simplesmente inacreditável o suficiente para criar controvérsia perpétua. Apenas credível o suficiente para ficar.
Se o Tribunal Constitucional obrigar o Parlamento a agir e Ramaphosa for destituído, o centro colapsa. O Partido MK, o DA, a EFF, as facções dentro do ANC destroem o país. Se sobreviver, a narrativa de um presidente corrupto continua a corroer a confiança pública.
De qualquer forma, o Estado está enfraquecido. De qualquer forma, a Terceira Força vence. O veredicto
Nada disto é aleatório. A xenofobia, o faccionalismo policial, a ascensão do Partido MK, as mentiras de Trump, o financiamento da SAIPAC, a armadilha da Phala Phala, tudo está ligado. Há estrutura. Há financiamento. Há comando e controlo. A Terceira Força é uma confluência de sindicatos do crime, redes mafiosas internacionais, traficantes de droga e de pessoas, agentes de inteligência desonestos, potências estrangeiras e facções políticas domésticas. Não precisam de estar juntos na mesma sala. Os interesses deles alinham-se. Os seus playbooks alinham-se. E o alvo deles é a soberania sul-africana. Venezuela foi o ensaio. A África do Sul é o evento principal. A única questão é se acordamos antes de ser tarde demais.
Por Imraahn Mukaddam
Opinião
O QUE PROCURAMOS NA ÁFRICA DO SUL

Ouvem-se, com uma regularidade quase litúrgica, vozes que intimam os estrangeiros africanos a regressar aos seus países e a resolver, lá, os males que os trouxeram à África do Sul. Diz-se isto com o ar solene de quem acaba de restituir ao universo a sua ordem perdida.
Agora, a essa severidade juntaram-se os apelos ao boicote. Boicote cultural, como no tempo do apartheid; boicote desportivo; boicote comercial; isolamento diplomático; recusa de produtos sul-africanos. Tudo pronunciado com a gravidade de quem convoca a História para tocar batuque numa procissão de ressentimentos. A História, coitada, presta-se a muita coisa quando lhe põem uma bandeira por cima.
É verdade que muitos países africanos ajudaram a libertar a África do Sul. Abriram fronteiras, acolheram exilados, suportaram pressões, sofreram ataques. Mas convém não transformar essa solidariedade numa factura vencida. Se a ajuda foi dada por princípio, não deve agora aparecer como recibo. A gratidão histórica não substitui uma política migratória; e a memória, quando é séria, não serve para cobrar renda moral. Nada disto, note-se, desculpa a violência: explica apenas por que ela encontra terreno tão fértil.
Lembro-me, a propósito, de Michael Sata, o falecido Presidente da Zâmbia, homem de língua tão directa que a diplomacia, ao aproximar-se dele, devia certamente tirar os sapatos. Chamavam-lhe King Cobra, e não por excesso de doçura. Sata irritava-se ao ver dirigentes zambianos instalados, tratados, educados e confortados na África do Sul: ministros com casas em Joanesburgo, filhos em escolas de Joanesburgo, consultas médicas em Joanesburgo, hábitos de Joanesburgo e, por fim, uma espécie de patriotismo portátil, praticado entre Lusaca e Sandton.
A pergunta dele era simples: que procuramos nós na África do Sul que não possamos construir na Zâmbia?
Era pequena apenas na aparência. Dentro dela cabiam hospitais, escolas, estradas, clínicas, serviços públicos, centros comerciais, segurança, competência administrativa e confiança. Cabia, sobretudo, a acusação mais incómoda: muitos governantes africanos preferem consumir a modernidade dos outros a construí-la em casa.
A pergunta de Sata era retórica; a resposta, surpreendentemente, começou a aparecer. No Copperbelt, onde viajei recentemente com um amigo sul-africano, vi o seu espanto diante de centros comerciais, clínicas privadas, consultórios equipados, lojas conhecidas e até médicos sul-africanos a instalar-se na Zâmbia. Aquilo que antes exigia peregrinação a Joanesburgo começa, devagar, a existir ali.
Em Luanda, vi fenómeno semelhante. Um amigo mostrou-me uma casa magnífica, inspirada numa residência que vira em Sandton. Gostou, contactou os construtores, mandou-os vir, e a casa nasceu em Angola. Há hoje sul-africanos na construção civil angolana, a reproduzir condomínios, fachadas, acabamentos e esse conforto vigiado que durante anos exerceu sobre a nossa classe média alta uma atracção quase religiosa.
Talvez, portanto, a resposta à xenofobia sul-africana não esteja apenas nos comunicados indignados, nem nos boicotes declamados com o peito cheio. Talvez esteja na pergunta que muitos líderes africanos evitam como quem evita uma febre contagiosa: por que razão partem os nossos cidadãos?
O Gana pode repatriar um cidadão maltratado, e esse gesto é legítimo. Mas por que não transformá-lo numa política séria de regresso? Por que não criar condições para que voltar seja mais do que uma palavra bonita em discursos ministeriais?
E o Congo Democrático? País de riquezas quase indecentes: cobre, cobalto, coltan, diamantes, rios, florestas. Como explicar que tantos dos seus filhos acabem a vender kebabs, roupas e pequenos serviços em Joanesburgo? Que estranho romance africano é este, em que a pátria possui minerais para alimentar os computadores do mundo inteiro, mas não consegue oferecer futuro ao jovem que vende carne grelhada em Hillbrow?
A verdade é menos elegante do que os comunicados. Liderar não é atravessar Luanda ou Kinshasa em cortejo de sirenes enquanto as ambulâncias ficam paradas por falta de combustível; não é inaugurar aeroportos que os cidadãos não podem pagar para usar; não é discursar sobre soberania em conferências cinco estrelas para depois mandar os filhos estudar em Lisboa ou em Joanesburgo. Liderar é fazer com que o cidadão não queira fugir. É tornar o regresso possível. É transformar a pátria numa casa habitável, e não numa recordação amarga.
Alguns líderes deveriam admitir, com uma humildade que talvez lhes assentasse bem, que falharam. Falharam em governar. Falharam em proteger. Falharam em criar futuro. E, quando isso acontece, a democracia oferece uma solução simples: sai quem falhou; entra quem ainda possa tentar.
O resto é barulho. E o barulho, mesmo quando se cobre com bandeiras, raramente constrói uma escola, equipa uma clínica ou convence um jovem a ficar. (In Facebook)
Crónica
AFRO-FOBIA NA TERRA DE MANDELA
O que hoje se vive na África do Sul traz-me memórias agridoces, ecos de esperança misturados com desilusão. Questionamentos. Cheguei àquele país irmão em junho de 1995, quando Nelson Mandela assumia a presidência da República há poucos anos e um novo capítulo se abria para a nação. Lembro-me bem do voo DT 575 da TAAG, do momento em que o Boeing tocou o solo do aeroporto Jan Smuts, ao cair da noite.
Lá de cima, Joanesburgo brilhava como um mar de luzes, um convite silencioso a recomeçar. Um país de forte cultura enraizada na ancestralidade.
Fui recebido por um compatriota, cartador (termo usado para quem acolhia viajantes idos de Angola), e levado até Hillbrow, na Lily Avenue, ao imponente Ponte City, aquele edifício redondo, 55 andares, quase infinito, guardião de histórias de quem ali chegava com sonhos na bagagem.
Nem todos regressaram vivos; uns mortos à facada, outros envenenados, alguns atropelados e muitos feridos. Lembro-me do nosso compatriota, Júlio, baleado na coxa ; só resistiu, devido a uma boa assistência médica. Para vos situar, foi um tiro, como foi o caso do malogrado professor, Laurindo, no bairro Patriota. Mas, o Júlio continua à viver por lá, em outra zona, claro.
A vida não foi fácil no início. Trabalhei em tectos falsos, pintei a pista de atletismo no estádio Ellis Park… mas nunca deixei de acreditar que algo maior me esperava. Foi então que surgiu a oportunidade da JVC(Japanese Volunteer Center), uma bolsa escolar. Mais de 500 candidatos para apenas 50 vagas. Prova numa sexta-feira. Esperei até segunda. O telefone tocou. Uma voz distante, com sotaque japonês, falou-me em português, o Senhor Yoch Min, e mudou o rumo da minha história.
Não consegui entrar no curso de jornalismo como queria; ser estrangeiro foi motivo suficiente para me barrarem. Mas o destino ajustou o caminho, conheci um angolano que me abriu as portas da televisão e do cinema. E foi ali que me encontrei. 1996 a 2000- Newtown Film and Television School, anexa à Universidade de Joanesburgo. Concluindo mais um ano de estágio, isso em 2001.
Entre câmaras, som, luz, guiões e sonhos, construí o meu percurso. Estagiei na SABC1, participei em programas como técnico, escrevi histórias que faziam rir. Por momentos, senti que fazia parte de algo maior. Não falava fluentemente o zulu, mas falava a linguagem do trabalho. Passei pela AMP, Africa Motion Picture, Love life, Kagiso TV project e outros.
Mas havia sempre uma barreira invisível. Não era de lá. Não tinha os documentos certos. O bilhete de identidade sul -africano. E, no fim, isso pesou mais do que o talento ou o esforço. Quando surgia trabalho, era bem remunerado, uma semana podia sustentar dois ou três meses. Mas não era isso que eu queria. Queria estabilidade e dignidade. Queria pertença e respeito.
Em 2003, parti. Deixei para trás não só um país, mas uma fase intensa de aprendizagens, desafios e memórias. E incertezas. Voltei com a consciência de que dei o meu melhor e com a certeza de que algumas portas não se fecham por falta de capacidade, mas por falta de pertença. Integrei os quadros da TPA, em 2005. Passando antes pelo Cefojor, em 2004.
Chamavam-me nomes, na escola e na rua, quando falasse inglês, makwerekwere. Sempre. Para todos os estrangeiros. Por conta do nosso cabelo, éramos facilmente identificados. Tinha que, às vezes, vestir capuchos para disfarçar. Ainda assim, pelo tom de pele, éramos pegos. Nbumbu genuíno e calú puro, menu sem folhas. Muitas vezes, passei por mudo. Gesticulando. E ia em paz!
Hoje, quando vejo as marchas nas ruas da África do Sul, reconheço sinais antigos. Mudam como o tempo, de repente e sem aviso. Como a chuva de Abril. Matam sem remorso! Quando pergutavam se querias morrer, havia um sinal, inusitado, passavam à mão ao pescoço com o dedo indicador e erguiam para o céu… sinal de morte!
E é aí que a esperança se confronta com a realidade, a liberdade conquistada por um povo ainda não é, plenamente, liberdade para todos. É apenas liberdade política e não económica. 7% de uma minoria que domina o mercado comercial, industrial e financeiro. O povo passa vicissitudes e paga o estrangeiro por tabela.



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