A Kizomba, criada em Angola e hoje disseminada pelos quatro cantos do mundo, tornou-se um dos maiores cartões de visita culturais do país, mesmo quando internamente ainda luta pelo reconhecimento que lhe é devido.
É impossível ignorar a expansão global deste ritmo. Nas escolas de dança europeias, nos estúdios americanos, nas comunidades lusófonas e em festivais internacionais, a Kizomba tornou-se sinónimo de elegância, cumplicidade e identidade africana.
No entanto, essa expansão, que deveria orgulhar Angola, também revelou uma fragilidade: o mundo apropriou-se da Kizomba antes que Angola a protegesse oficialmente.
Por isso, a insistência dos agentes culturais na catalogação e identificação patrimonial é mais do que justa, é urgente.
Se a Kizomba hoje é global, é porque nasceu de uma fusão criativa profundamente angolana. A música, estruturada a partir do semba, do zouk e da rumba, e a dança, com raízes no kaduque e na rebita, carregam consigo a alma das ruas de Luanda, dos bairros populares e do quotidiano urbano do final do século XX. A sua autenticidade não é acidental: é resultado de um ecossistema cultural que existe apenas em Angola.
Contudo, o país tem falhado ao criar condições sólidas para o crescimento do sector cultural. Os agentes culturais apontam problemas que têm travado o desenvolvimento da Kizomba enquanto produto cultural e turístico: elevados custos hoteleiros, dificuldades na obtenção de vistos e a ausência de políticas públicas eficazes que facilitem a circulação de bailarinos e artistas.
Como esperar que a Kizomba seja reconhecida lá fora se internamente ainda encontra barreiras para florescer?
A elevação da Kizomba a património imaterial não será apenas uma vitória cultural. Será uma vitória moral. Será a prova de que Angola valoriza aquilo que cria, protege aquilo que lhe pertence e se impõe, com legitimidade, no cenário cultural internacional.
A hora é agora. A Kizomba já conquistou o mundo. Falta Angola conquistá-la de volta.
Por: Venceslau Mateus



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