Por: Graça Campos
Através de uma consulta básica ao “Tio Google”, fiquei a saber que a Polícia Nacional angolana recolheu, de forma coersiva na maior parte dos casos, desde 2008, mais de 200 mil armas de fogo em posse ilegal dos cidadãos. Infelizmente, faltam-me dados sobre a apreensão do número de munições e explosivos, bem como com maior assertividade, às respostas dadas pelas empresas de segurança privada, no quadro do programa de desarmamento de armas de guerra perigosamente em sua posse.
Já lá vai o tempo em que as autoridades faziam questão de, regularmente, comunicarem à sociedade sobre o quadro evolutivo das operações encetadas pela Polícia e seus órgãos afins, com vista a desarmar quem se sinta no direito de impor um clima de medo e insegurança, enfim uma desestabilização crescente no seio das comunidades absolutamente indefesas dos “ghetos”. A gatunagem vinga, a população clama pela regularidade e eficácia das campanhas de desarmamento e se for à “galhetas”, melhor será, tal é a gravidade das subidas das escalas da criminalidade vigentes em determinadas localidades.Aqui não é o Rio de Janeiro, mas, atenção, também não é Estocolmo…
… “O país não está bom…”; “Ontem no bairro não conseguimos dormir…”; “ Depois das 21 horas, aqui já não se pode andar à vontade”; “ Olha, ontem mataram aquele senhor ali…”; “ Agora os bandidos estão a responder feio…”; “ Já perdi conta das vezes em que fui assaltado com uma arma apontada…”- É o que se ouve das populações; é o que se sente, porque, sim, há zonas onde as pessoas andam assustadas, apreensivas, desprotegidas e dispostas a encontrar um outro lugar onde possa viver com alguma tranquilidade e segurança. Imaginemos que, fora do controlo, em posse ilegal dos civis, continue a existir mais umas tantas quantas milhares de armas de guerra em toda a extensão do território nacional, especialmente em Luanda, uma cidade com mais de cinco milhões de habitantes, com bairros, becos e favelas sem nome, número e um centro urbano, onde o nível de criminalidade pela máfia organizada escape às autoridades da administração do Estado? Aquando daquele clima de terror registado recentemente na capital do país e em algumas províncias, trememos todos, provavalmente com uma excepção: as autoridades que diziam ter a situação “completamente controlada”. As aspas são propositadas, pois nessa ocasião recordámos os momentos recentes mais dramáticos por que passaram os nossos irmãos do Índico.
Retenho na memória que o programa de recolha de armas de fogo e de pequeno porte em posse da população começou a ser mais abertamente ventilada seis anos depois de se ter dado como terminada a violenta guerra civil, em 2002. Foram descobertos inúmeros paióis “deixados” para trás ou propositadamente escondidos nas matas; não eram fisgas ou cassetes. O país estava, de facto, sentado num enorme barril de pólvora, prestes a explodir.
Hoje, o que temos? Há localidades onde a polícia “não pia”, onde os grupos de delinquentes mandam e desmandam, onde o narcotráfico e a prostituição em rede andam de mãos dadas, sob protecção óbvia de “seguranças” armados para o que der vier.
Entretanto, nas últimas semanas, vários oficiais foram apanhados, julgados e condenados com penas pesadas.
Motivo: roubaram armas nos locais de “trabalho” e venderam-nas nos mais escuros e silenciosos mercados de fusis. É um sinal de alerta sério sobre a necessidade de se colocar ordem no circuito das armas, suas origens, com que escalas de mando com responsabilização ético-moral se pode contar para que elas não caiam nas mãos da bandidagem organizada.
A população está cada vez mais sedenta em saber como vai o processo de desarmamento das empresas de segurança privada ou colectiva. Elas estavam em posse de armas de guerra pesadas, capazes de serem desviadas para fins inconfessos, para não dizer outra coisa muito mais grave, que meta em perigo permanente a própria segurança do Estado!
A população quer ver e sentir que a autoridade do Estado está em todos os sítios onde a vida seja mais valorizada e os seus bens protegidos, sobretudo que muitos bandidos tenham como guarda-chuvas os tectos das prisões que, aliás, são muito poucas para tanto criminoso armado de elite…


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