ÁFRICA

 
3 de abril 2018 - às 07:43

SERÁ POSSÍVEL AO ZIMBABWE RECUPERÁ-LA? ONDE ESTÁ A RIQUEZA DESVIADA POR MUGABE?

Os tablóides sul-africanos publicam inúmeros artigos sobre as "riquezas incalculáveis" que Robert Mugabe e sua família deverão ter acumulado ao longo de 37 anos de poder. No entanto, não é possível ainda avaliar com precisão quanto o ex-Presidente do Zimbabwe e família terão gasto de fundos públicos.

 

Sabe-se que as festas de aniversário de Mugabe devem ter custado mais de dois milhões de dólares, com cerca de 500 mil dólares só para champanhe e caviar. Além de uma mansão em Harare com 25 quartos, avaliada em 8,5 milhões de euros, o ex-chefe de Estado do Zimbabwe detém, pelo menos, quatro moradias de luxo em Hong Kong e o Palácio de Hamilton, em Sussex, na Inglaterra, avaliado em mais de 400 milhões de euros.

Além disso, há que contabilizar ainda mais de 15 mil hectares de terras, que incluem áreas expropriadas a proprietários brancos. Algumas dessas propriedades foram convertidas em retiros privados e resorts. Robert Mugabe detém também veículos blindados, alguns deles Mercedes, no valor de um milhão de euros, um Rolls-Royce, diversas joias, relógios, diamantes e aplicações financeiras.

A sua esposa Grace Mugabe foi até apelidada de Gucci-Grace devido ao seu estilo de roupa. Em 2014, chegou a defender o marido, dizendo que ele era o "Presidente mais pobre do mundo".

Os dois filhos do casal também apreciam uma vida de luxo. Chatunga Mugabe, por exemplo, viveu numa moradia no Dubai com uma mensalidade de 30 mil euros, antes de se mudar para uma residência em Joanesburgo, na África do Sul, com renda de quatro mil dólares.

Recuperar o dinheiro - O ministro das Finanças do Zimbabwe entre 2009 e 2013, Tendai Biti, foi confrontado com a corrupção no Governo de Mugabe. "O meu maior desafio não foram os milhares que Mugabe roubou, mas os milhões que tinham desaparecido. Hoje, sabemos que foram cerca de 15 milhões de dólares, uma elevada quantia", lembra Tendai Biti. Para o ex-ministro das Finanças, "uma das principais tarefas do novo Governo é recuperar o dinheiro".

"Esse dinheiro pertence ao Zimbabwe e deve regressar ao país. São cerca de mil milhões de dólares, que pertencem aos zimbabweanos. Será um teste para o novo Governo localizar esse dinheiro. Hoje em dia é fácil. Com todas as regras financeiras internacionais contra a lavagem de dinheiro e de promoção da transparência, deverá ser uma tarefa fácil", estima Tendai Biti.

Paraísos fiscais - No entanto, Paul Holden, director da organização sem fins lucrativos Corruption Watch, acredita que será difícil rastrear o dinheiro de Mugabe. Trazer o dinheiro de volta ao Zimbabwe "depende de vários factores: em primeiro lugar, é preciso descobrir a quantidade de activos de Mugabe e onde eles estão exactamente. Caso contrário, poder ser muito difícil conhecer o rasto do dinheiro. A maioria do dinheiro está provavelmente localizado no exterior, em paraísos fiscais. Pode levar muito tempo e também ser bastante difícil", alerta Paul Holden.

Mesmo que se venha a saber onde estão os activos, será muito difícil provar que o dinheiro foi roubado do Zimbabwe, acrescenta o director da organização Corruption Watch.

Outros casos mostram o quão difícil pode ser o processo. O ex-Presidente da Nigéria Sani Abacha terá conseguido gastar cinco mil milhões em receitas de petróleo fora do país durante seu mandato entre 1993 e 1998. Mas apenas depois de 16 anos uma pequena parte do dinheiro roubado foi trazida de volta à Nigéria. 

 

MNANGAGWA É SEGURO?

A questão que fica é se o sucessor  de Robert Mugabe, o antigo vice-Presidente Emmerson Mnangagwana, é o homem certo para promover esse desenvolvimento."Mnangagwa foi um aliado próximo de Mugabe por mais de 30 anos e, como tal, foi parte do sistema corrupto. Então, a maior parte dos observadores é céptica sobre se ele realmente será diferente do seu antecessor", observa Paul Holden, director da organização Corruption Watch.

"A nossa esperança é que a destituição de Mugabe seja o ponto de partida para a transformação do Zimbabwe num estado democrático", acrescenta Holden. Emmerson Mnangagwana regressou ao Zimbabué, dois dias  depois da resignação de Mugabe. (D.W.) 

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