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31 de maio 2016 - às 06:50

VICTOR ALEIXO: "VIVEMOS NUMA SOCIEDADE DO MEDO E DA BAJULAÇÃO"

Victor Aleixo, director da revista Figuras & Negócios foi entrevistado pela Rádio Mais e Jornal O País sobre o momento político que o País atravessa e colocou o dedo na ferida ao afirmar que a sociedade angolana vive hoje dividida entre o medo e a bajulação, mas falou mais de outros problemas candentes da vida política do País, ele que como analista político acompanha o processo com muita atenção. Apresentamos parte substancial da entrevista

 

Rádio Mais/O País (RM/P) - Depois das eleições de 2012, vencidas pelo MPLA, considerava que havia um certo “descontentamento empacotado” no seio dos angolanos. O que se passa hoje? 

Victor Aleixo (VA) - Continuo a dizer que, infelizmente temos uma sociedade metida entre o medo e a bajulação. Algumas pessoas têm medo de dizer exactamente o que sentem e as outras, se calhar mais espertas, procuram encontrar uma certa bajulação de forma que consigam "nadar" entre os sectores do poder. Isso tem sido drástico para o país, porque hoje verificamos que faz falta uma sociedade civil actuante para que a classe política comece a ter um maior sentido de responsabilidade para com a própria sociedade. Se deixássemos de ser cobardes e pressionassemos mais, se calhar muitos dos problemas que hoje vivemos poderiam ser ultrapassados.

RM/P - Como podemos encarar a pressão que vem sendo feita por determinados grupos da sociedade, entre os quais o autoproclamado Movimento dos Jovens Revolucionários, o Observatório Político e Social de Angola e outras organizações não governamentais como a OPEN Society?

VA - Eu acho que tem de haver uma maior sincronia e não se deixar influenciar por algumas forças do exterior. É verdade que o próprio país criou alguns apetites de forças exteriores que, em algumas circunstâncias, pressionam mesmo grupos descontentes para, de forma atabalhoada, tentarem fazer uma certa "revolução". O que estou a dizer  é que os angolanos devem debater muito mais os seus próprios problemas. E debater os seus próprios problemas não significa apenas ir ao largo 1º de Maio para dizer que estamos descontentes. Temos de ter mais regras, existir espaços de debate e a própria sociedade política compreender a existência deles. Isto não acontece e aí está aquilo que disse há bocado: vamos tendo uma sociedade do medo e da bajulação. As pessoas ficam com medo porque senão vão sendo conotadas, ter problemas na própria vida pessoal e profissional. A bajulação vai ganhando espaço. Não acredito que isto seja algo institucionalizado porque vivemos, também, um período de muito excesso de zelo, as pessoas acomodam-se entre não dizer e ver até onde isso vai. 

RM/P - A não permissão das manifestações não faz com que a imagem do Executivo de Luanda e de outras províncias fique ainda mais chamuscada?

VA - Vai continuar a ser porque o trabalho de casa, infelizmente, continua a ser mal feito por quem é poder. As pessoas que estão no poder parece que ainda não cultivaram o princípio da gestão participativa. O grande problema é que, investidas de poder, as pessoas que estão lá em cima envaidecem-se e pensam que já não podem receber ou ouvir conselhos de ninguém. Ninguém tem ideias preconcebidas, acabadas, e os primeiros que devem cultivar a política de gestão participativa são os que estão no poder. 

RM/P - É errado pensarmos que só quando haver autarquias é que se vai melhorar, também, alguns princípios de gestão?

VA - As pessoas reclamam por autarquias porque acreditam que pode ser um caminho, depois de se experimentar todos os outros. Porque nas autarquias os órgãos serão eleitos. Quando és eleito assumes responsabilidades porque tens de cumprir essa vontade das pessoas que depositaram o seu voto. Repare que, até porque já não é pecado dizer isso, durante muito tempo verificamos que ao nível das estruturas municipais e comunais, a maioria das pessoas que foram escolhidas e desempenharam estes cargos nem vinham sequer com um background de administração e os seus conceitos. Vinham das estruturas da Segurança. Já não se pode esconder que a maior parte dos administradores e comissários eram indivíduos ligados às estruturas da Segurança. Portanto, sabiam fazer tudo menos dirigir e aperceberem-se da dinâmica do funcionamento administrativo no sítio onde estavam colocados.

Daí que muita gente pensa que as autarquias podem ser um caminho para se mudar o percurso que até agora tem sido feito.

RM/P - Qual a opinião sobre a discussão em torno das comissões de moradores?

VA- Porquê que vamos criar mais estruturas?

RM/P - Faz ou não sentido criar-se as comissões de moradores?

VA - Não faz sentido nenhum.

RM/P- Porquê?

VA- Não ficou muito bem claro como é que estas comissões de moradores seriam constituídas. Se seriam as pessoas nomeadas ou eleitas pelo conjunto dos sítios onde iriam exercer as suas funções. De toda a forma, como vivemos nesta sociedade de muito medo e bajulação, o mais prático é fazer as coisas transparentes, que seria podermos avançar para as autarquias desde que os processos sejam rectilíneos e limpos. Vai-se eleger quem a comunidade entende que deve fazer um melhor serviço. Não vamos estar aqui a criar mais pesos e estruturas, mais títulos para depois não funcionarem.

RM/P - O ministro do Território, Bornito de Sousa disse, num encontro realizado recentemente com jornalistas e fazedores de opinião, que os moradores entre si vão definir quem dirige a comissão de moradores e que os custos viriam das quotas dos próprios moradores.

VA - Mas é o trabalho que está previsto que seja feito pelas próprias autarquias. Porquê que a gente vai complicar? 

Se não temos espaço para fazer neste momento, as autarquias, temos condições para criar as comissões de moradores. Porquê?

RM/P - O país está preparado para ir às autarquias, tendo em conta que seriam sustentadas pelos próprios habitantes?

VA - Se as comissões de moradores vão fazer no fundo o que as autarquias hão-de fazer, acho que é uma questão de se arriscar. Isso de dizer que não temos a cultura do imposto é muito relativo. Não temos a cultura porque o próprio sistema que tínhamos criado é que queria ser pai, filho e espírito santo de tudo! Mas hoje vemos que o cidadão consciente já paga o imposto, desde a luz, o carro... Portanto, não vamos muito por aí, até porque esta sociedade, no fundo, precisará permanentemente de um grande trabalho de educação cívica. As pessoas têm de estar preparadas para aceitar que têm direitos e deveres. E isso é uma responsabilidade que cabe aos poderes instituídos, aos órgãos de comunicação social, permanentemente. E tem que ser feito. Não vamos dizer que antes de chegar às autarquias temos de quebrar mais uma etapa e esta etapa é a comissão de moradores. Num passado recente, nos bairros existiram as comissões de moradores e sabemos como elas se diluíram, vamos trabalhar para uma organização mais eficiente e mais pura.

RM/P - Fazem sentido as desconfianças que alguns círculos da sociedade têm de que o surgimento das comissões de moradores é uma fuga às autarquias?

VA - As pessoas são livres de pensar assim até porque nunca houve um pronunciamento claro a explicar com cabeça, tronco e membros o porquê que não avançamos pelas autarquias.

RM/P - Pensa da mesma maneira?

VA - Acho que se está a cometer um grande erro em não se avançar com as autarquias. Deve haver a coragem de se delinear tempos, prazos, e podermos avançar em termos de soluções eficazes que possam contribuir para o melhoramento da vida deste país.

RM/P- Continua com o mesmo raciocínio de que os governadores em Angola não têm poder nenhum e que o poder está demasiado centralizado? 

VA- Continuo e subscrevo tudo o que for neste sentido. O país continua excessivamente centralizado. O governador provincial é nomeado pelo Presidente da República, o que é preciso fazer é dar-se responsabilidades aos governadores. Eles têm que definir os seus planos de trabalho, os seus orçamentos e a inspecção tem de ser activa e punir-se quem não cumpre. Agora o governador está a governar uma província, é o representante do Chefe de Estado, e não tem dinheiro nem para reparar uma casa de banho, passe o exagero, evidentemente que não está lá a fazer nada. Verificamos que a excessiva centralização que existe permite que Luanda, hoje, esteja abarrotada de pessoas.

Se nós conseguirmos libertar, dar essa liberdade de acção aos governadores, se calhar eles se sentirão muito à vontade para recrutarem quadros. Por exemplo, estamos a construir tantas centralidades: quem são as pessoas que vão viver na centralidade da Lunda-Norte, por exemplo, um empreendimento de custo médio-alto? Os governadores têm que ter essa liberdade para conseguirem levar jovens quadros formados para as suas províncias.

RM/P - Já teve contacto com a carta escrita há dias pelo governador de Benguela, Isaac dos Anjos?

VA - Já li.

RM/P- O que achou do conteúdo da mesma?

VA - Isaac dos Anjos é um dirigente corajoso, jovem, que tem um espírito aguerrido e é combativo. Recordo-me que quando ele foi nomeado para Benguela disse-lhe que era uma província muito complicada. Há muitos interesses que ali se confluem. Ontem li um texto do José Kaliengue que dizia praticamente isso e em poucas palavras o que é Benguela. É uma província muito complicada e o Isaac não teve a ginástica para entender e poder jogar com aquilo. Apesar de ter um espírito muito combativo, pensou que facilmente poderia debelar aquele ímpeto agressivo de alguns grupos que entendem que são os melhores e eles é que devem dirigir Benguela. 

RM/P - Estamos a poucos dias do início das conferências provinciais do MPLA, onde Benguela parece ser o caso mais flagrante, o governador terá sido coagido a não avançar com uma candidatura. Como é que está a acompanhar este processo?

VA - Não é só Benguela! Eu acho que aí seria um primeiro passo para o MPLA se libertar, se democratizar mais. Essa era a altura de se poder medir o nível de aceitação dos quadros que até hoje dirigiram a província. Benguela deu nas vistas por causa disso. Repare que Isaac está no Governo de Benguela há dois ou três anos. Em três anos, veja quantas pessoas já se apontou em termos de mujimbos para Benguela, desde o próprio "Jú" Martins, que é o acompanhante do Bureau Político para a província. Falou-se do Ângelo (Tavares), que é o Ministro do Interior, há dias ouvi falar do Borges e, até, do Leonel. Agora fala-se da Ângela Bragança e já se falou que o (Adérito) Areias poderia ser uma solução. O que se está a pedir agora em Benguela é algo que já aconteceu antes. Sabe que houve aquela problemática entre o Dumilde Rangel e o Zeca Moreno. Em última instância teve-se de arranjar uma solução: o Rangel ficou e o Moreno foi para Viana. Infelizmente, o MPLA gosta de gerir as coisas assim, levar até ao fim e na última semana arranja uma solução. Não se sabe se o Isaac vai continuar ou não, ou se vai continuar governador mas vigiado por um 1º Secretário. Não há coragem! Se há partido que devia ser mais ousado do ponto de vista da democracia interna é o MPLA. Se calhar até por estar há muito tempo no poder, acomoda-se muito nisso.

RM/P - Acredita que o Congresso do MPLA, no próximo mês de Agosto, venha a ser pacífico?

VA - Não há nada que justifique que não possa ser pacífico. Isto reforça aquilo que disse há bocado que o MPLA continua a não ser muito ousado em termos de mudança. Repare que na altura em que o Presidente Eduardo dos Santos anunciou que em 2018 sairia, neste mesmo dia o comunicado do Comité Central do MPLA dizia que o presidente será o candidato único deles. Dois ou três meses depois, vieram dizer que estavam abertas as candidaturas para a presidência! Não é muito coerente com a linha da democracia que se pretende.

RM/P - O comunicado terá limitado alguns militantes a concorrerem?

VA - O primeiro comunicado, sim. A partir do momento em que a direcção central do partido diz que o actual presidente continua a ser o escolhido, é o candidato deles, vais dizer aos outros que vocês têm dois meses para apresentarem uma candidatura que tem de ter tantos membros e representações em cada província? Fica de facto complicado! Eu acho que há um excesso de zelo ou uma preocupação exagerada de se agradar o líder. Pelo pouco que conhecemos, o líder é uma pessoa de diálogo, tudo prova que não impõe decisões. Agora as pessoas é que ficam com receio de tentarem soluções. E com esse receio de se apresentarem soluções, nós ficamos numa espécie de banho-maria.

RM/P - O anúncio do Presidente José Eduardo dos Santos de que se vai retirar da vida política em 2018 remete-nos apenas para o campo das intenções ou acredita que vá mesmo para a reforma política, se assim podemos considerar?

VA - Eu acredito que o Presidente esteja com esta intenção de tão rapidamente largar o poder. Agora o cenário que criou é que fica um bocado complicado.

RM/P - Teremos uma solução sul-africana em que a meio do mandato o vice-presidente assume os destinos do país?

VA - Vamos por partes: o nosso processo eleitoral diz que as eleições vão ser em 2017. Se quiséssemos evitar especulações, o Presidente diria que em 2017 já não seria o candidato do MPLA. Também é preciso pensar– e escrevi há tempos isso- que há preocupações que se justificam. O tempo longo que o Presidente Eduardo dos Santos está no poder obriga a que ele tenha de saber fazer a sua retirada. O que constatamos agora, se quisermos dizer que as eleições vão ser em 2017, é que o Presidente ainda não fez este trabalho de casa. Daí que muita gente pense que o Presidente possa vir a ser levado pela "vontade dos militantes a fazer mais um mandato." Não duvido que se possa caminhar para isso.

RM/P - Acredita seriamente neste cenário?

VA - É possível! Não será bom para a imagem dele, mas é possível.

RM/P - A CASA-CE pode mergulhar numa crise pelo facto de Alexandre Sebastião André, líder do PADDA, não concordar com a passagem desta coligação a partido político. É o prenúncio de mais desentendimentos que possam surgir na formação liderada por Abel Chivukuvuku?

VA - Primeiro, as coligações podem manter-se, não têm que, necessariamente, transformar-se em partidos políticos. Nas outras democracias criam-se coligações para processos eleitorais e depois desfazem-se. Aqui estamos a forçar muito a barra da criação de um partido político onde pegamos no exemplo da CASA. Mas a CASA-CE é um conjunto de cacos que se reuniu para ser transformado num partido. Cada um veio com mentalidade diferente. Repare que o grosso maior que compõe a CASA-CE até veio de um partido maior e já estruturado que é a UNITA, como o Chivukuvuku e outros que ele levou. Os outros partidos que o Abel buscou foi mais para se encontrar o quórum para se poder legalizar, porque no fundo o PAJOCA praticamente não existia. O outro do PRS tinha sido expulso e não tinha partido nenhum, o Manuel Fernandes, praticamente que já não se conhecia. A CASA-CE veio dar um sopro a estes partidos para poderem se reerguer. É verdade que depois de reerguidos, ganham forças e querem exigir um bocadinho mais.

RM/P - Então, qual é o problema que se vive neste momento?

VA- O grande problema que se coloca no seio da CASA-CE é como, transformado em partido político, se fazer a lista daqueles que comporão a estrutura dirigente do partido, os que poderão estar em cima ou em baixo na lista dos candidatos a deputados. Este é o grande dilema!

RM/P - É apenas uma questão de cargos?

VA- É uma questão de cargos. Portanto, a questão da CASA-CE é mais um problema de cargos. Quem vai ficar no primeiro, segundo, terceiro e no quarto.

RM/P - Quer fazer uma eventual composição caso a CASA-CE passe a partido político?

VA - Transformando-se em partido político, só muito dificilmente Abel Chivukuvuku não será o presidente da CASA-CE. Se se avança com um vice-Presidente, o "Miau" é de certeza absoluta o candidato.

RM/P- Candidato natural?

VA - ...Sim. 

O ‘Miau’ conhece os cantos do MPLA, trabalhou nas estruturas do Governo e sabe como é que se cosem as regras do jogo, ele consegue criar um élan que pode ser determinante para agrupar muita gente em torno da CASA-CE. 

Agora isto pode ser grave para não se encontrar uma coesão no seio da coligação e reflectir-se nos resultados. Outras forças políticas quererão aproveitar estes resultados e eles têm de ter em mente esta questão. Para que o desempenho que se acredita que a CASA-CE venha a ter melhor do que na vez passada não passe de uma intenção.

RM/P - Isaías Samakuva esteve na Europa e nos últimos dias desdobrou-se em várias entrevistas, em Portugal, tendo até avançado que se vai retirar depois de 2017. A UNITA já encontrou a estabilidade depois do último congresso?

VA - A UNITA, comparada com o seu inimigo de estimação– o MPLA-, deu alguns passos mais corajosos na sua própria democratização. Isso deu-lhe uma certa "endurance" para poder ultrapassar alguns momentos difíceis que viveu. É uma força sólida e não podemos ignorar que é mesmo das maiores forças políticas angolanas.

RM/P - “O partido no poder aparece sempre como o mais privilegiado por falta de alternativas na Oposição’. É uma frase sua feita há algum tempo. Até 2017 ainda poderemos pensar desta forma?

VA- O MPLA vai continuar a ser o partido privilegiado para poder ganhar as eleições. Isso é natural! Aliás, sobretudo em África, mais se cultiva este princípio. Quem está no poder procura o cenário para ganhar. Agora o que tem havido é uma falta de estratégia da oposição. Se querem impedir que o MPLA ganhe por maioria absoluta folgada seria bom fazerem alianças. Mas é neste cenário onde encontramos praticamente uma Oposição sem grandes alternativas no tocante a alianças e o MPLA continua a ser o partido com mais possibilidades de vir a ganhar as eleições. Mas, deixe-me dizer com toda a honestidade, porque já o fiz uma vez e fui mal interpretado – e acredito que agora também possa vir a ser- se nós quisermos uma maior democracia para este país seria importante que se o MPLA ganhar as próximas eleições não seja por maioria absoluta. Isso coarcta o poder de discussão que as sociedades pretendem. Vimos isso em Cabo Verde. Os cabo-verdianos do PAICV aprenderam muito depois de terem perdido as primeiras eleições. Ganharam uma maior auto-estima, um maior sentido de alianças entre eles, que hoje aqui os angolanos do MPLA não têm. Vamos dizê-lo com toda a honestidade, o MPLA é um partido que tem muitos problemas internamente, desde a inveja às perseguições. Não é preciso ir muito longe, basta olharmos para o caso do Isaac dos Anjos que se está a confrontar com colegas do próprio partido. Isso é consequência daquilo que dizemos: ou ficamos do lado do medo ou do lado da bajulação.

RM/P - No caso de o MPLA vencer sem uma maioria absoluta, seria por mérito da Oposição ou por causa da degradação das condições sócio-económicas?

 VA- Mais pela última. Já nas últimas eleições verificamos que o grande vencedor foi a abstenção. Nada diz que nas eleições de 2017 a abstenção não venha a ser novamente o grande vencedor. São cartões vermelhos que se dão, fundamentalmente aos partidos que são líderes, neste caso o MPLA e a UNITA, os maiores partidos com implantação estrutural no panorama político nacional.

RM/P - A diversificação da economia foi o tema de um dos textos que assinou em Maio na revista Figuras & Negócios, em que garantia que se está a falar muito do assunto mas na prática pouca coisa estará a acontecer. Quais são as linhas mestras que defende para existência de uma diversificação económica real?

VA - Temos que saber pensar o país. O que acontece é que qualquer um dos ministros puxa a brasa para a sua sardinha e ninguém puxa para o país. Não vamos ter uma diversificação da economia se não tivermos o problema da água e da energia resolvidos. Os prazos começam a ser encurtados. Temos de definir o que queremos fazer, agricultura ou indústria em todo o país ou se haverá zonas que teremos que privilegiar? Temos de saber privilegiar onde deve ser a nossa maior aposta. Nesta mesma edição falo da questão do investimento. O Governo acabou com a ANIP e criou várias outras estruturas. Todos os ministérios, hoje, têm uma estrutura para o investimento privado. 

RM/P - É bom isso?

VA - Não! Isso veio complicar porque não há um comando único. Não há uma sincronia entre a APIEX e as diferentes estruturas ministeriais. Isso, pelo menos, existia no tempo da ANIP. Se o objectivo era aligeirar a estrutura, aligeirava-se mas não a destruir. Acho que, se queremos ter portas para os investidores, sejam nacionais ou estrangeiros, o campo está cada vez mais apertado. 

RM/P - É oportuna a vinda do Fundo Monetário Internacional para ajudar na diversificação da Economia?

VA - Olha, se tens os cofres vazios fica complicado virar costas à "ajuda" mas tenho muitas dúvidas que esta ajuda se concretize tão rapidamente como se propala.

RM/P - O ex-Primeiro Ministro Marcolino Moco diz que... 

VA - Vamos por partes, Nos outros casos onde o FMI aparece dificilmente as conversações demoram menos de quatro meses. E aqui sabemos exactamente como é que a nossa máquina funciona. Se o processo demorar oito meses, cai para o final do ano; o próximo será um ano eleitoral. Aí o Fundo Monetário pode também condicionar para esperar pelos resultados das eleições ou pelo menos a tendência dos seus resultados. Apesar dos compromissos que se assume obrigarem os estados, porque quem não está hoje terá que cumprir, de certeza absoluta que o Fundo Monetário Internacional quererá condicionar esta ajuda aos resultados das eleições.

RM/P - Dizia que Marcolino Moco acredita que a vinda do Fundo Monetário Internacional poderá agravar ainda mais a crise económica e social no País. Qual é a sua opinião em relação a isso?

VA - Não sei em que contexto ele afirmou isso. Não li as declarações de Marcolino Moco, mas se calhar deve ser dentro daquele contexto em que a malta acomoda-se muito quando há um local para ir buscar. Esta crise veio despertar algumas consciências que estavam adormecidas, daí que por estarmos a sofrer na carne, acredito que o País precisa de ganhar uma consciência patriótica e acreditar mais em nós mesmos. Temos de deixar de pensar que as ideias acontecem geralmente vindas de Lisboa. Portugal tem sido o "sítio das ideias mirabolantes e os resultados nada positivos". Acredito, pois,  que a própria oportunidade com que nos deparamos para sair desta crise com a ajuda do FMI ou outras ajudas bilaterais, serão muito melhor impactadas do que até agora têm sido feitas.

RM/P - O Core Business continua a ser a carta principal para atrair investimentos estrangeiros para a diversificação da economia. Uma das grandes inquietações dos investidores continua a ser a justiça e a garantia do repatriamento do capital. Qual é a sua percepção em termos de atracção de investimento estrangeiro, sobretudo nesta fase?

VA - Temos de arrumar a casa que está desarrumada. Se continuar assim, sem se  melhorar a questão da justiça, da transparência, não vamos ter investidor algum que virá para aqui. Estamos a brincar com coisas sérias! Fazemos muita propaganda porque foi inaugurada a fábrica e agora vamos diversificar a economia. Isto é sério? Para as potencialidades deste país, não é. Aliás, hoje de manhã ouvi uma entrevista de um americano, onde ele dizia que "vocês têm de criar um ambiente para grandes empresas como a Google e outras virem para o vosso país". Angola é produtor de petróleo, mas não é produtor de dados. E dados hoje é petróleo. Nenhuma empesa ou economia funciona sem dados. Nós somos um país em que tudo se esconde em termos de dados ou informação. Trouxe-vos aqui umas curiosidades: na classificação das 100 maiores e melhores empresas de África, de Angola só aparece a Sonangol! Dos maiores bancos, Angola aparece entre a 50ª ou a 60ª posição. Na agropecuária, não aparece nenhuma angolana. Aí há duas coisas: podemos dizer que os números que aparecem dos outros países são de menor dimensão comparada com Angola! Mas eles apresentam os dados. Se nós não apresentamos os dados eles não são conhecidos. E a classificação é com base em estudos internacionais e é com base nesses estudos que os investidores lêem, ficam a saber como as regras do jogo são cultivadas na nossa casa e depois puderem vir. Hoje ninguém pega dois bilhões de dólares para "enterrar" aqui e depois não sabe como vai sair o dinheiro. Portanto, temos de fazer o trabalho de casa, porque está mal feito. 

RM/P - O impacto da crise no país consiste fundamentalmente no facto de dependermos muito da importação. O Governo traçou recentemente seis pilares para atenuar o seu impacto, com a produção local como o principal cavalo de batalha. Qual será o melhor caminho?

VA - A produção local é muito importante e para tal é preciso apostar muito na agricultura. Aliás, se conseguirmos apostar na agricultura, produzindo em pleno, deixamos de ser um País a olhar para o mar. Repare que desde o alho ao tomate, tudo vem do mar. Até o próprio ovo e a galinha, que são produções fáceis, nós dependemos do mar. Não há produção suficiente. Mas isso foi propositado. Repare que há 20 anos quando se deu cabo do sector agroindustrial, já existia esta intenção de se apostar na agricultura, na produção da nossa alimentação. Foi precisamente nesta altura que o País começou a descambar. O "Roque Santeiro" surge nessa altura. Quem eram as pessoas que depois foram trabalhar para o Roque Santeiro?

Eram, na sua maioria, os quadros da indústria que ainda existia, muitos deles o país gastou dinheiro formando-os, em Portugal e noutros Países. E deu-se cabo da indústria!

Quando se queria apostar no sector das moageiras, também deu-se cabo de tudo. Então começamos a receber os africanos do oeste e os libaneses que vieram tomar conta da grande importação. Portanto, isso foi propositado e os culpados estão aqui dentro. Os culpados, amigos das comissões, porque era mais fácil facilitar a importação dos produtos do que apostar na produção nacional. Agora, temos que apostar na produção nacional, nos angolanos e nas nossas potencialidades.

RM/P - Acredita que a revisão da Lei dos Contratos Públicos vai potenciar os produtores locais, tendo em conta a perspectiva  dos 25 por cento?

VA - Não podemos ser pessimistas, mas se calhar é melhor esperar para crer. Acho que há vontade mas falta encontrar o caminho certo. Os caminhos estão aí, é preciso saber enfrentá-los. Acima de tudo, para se melhorar, temos de sentir um pouco de amor pelo nosso próprio país. Se a classe dirigente der amor, isso vai se repercutir em todos nós. Estamos dispostos a consentir sacrifícios para que o país melhore. Agora, quando se incentiva a importação, se privilegia o estrangeiro - não estamos aqui com xenofobia- e não se acredita nas nossas potencialidades, isso começa a ser mau.

RM/P - Como está a imagem de Angola no exterior?

VA - Devia estar melhor. Este sempre foi um défice muito grande de Angola. Pensei que com o GRECIMA se pudesse pelo menos cozinhar as linhas mestras para uma melhor venda de imagem de Angola. Se calhar isso está apenas desenhado porque o que vejo o GRECIMA a fazer, pelo menos na minha concepção, não é o que deveria ser feito. Acho que o GRECIMA hoje – e espero que seja bem entendido-está a fazer um trabalho que deve ser do Ministério da Comunicação Social. Concentra-se excessivamente aqui dentro e esquece-se de fazer o trabalho de casa lá fora. Quero acreditar que no próximo ano o GRECIMA terá mais tempo para se preocupar com a imagem de Angola no exterior. Também é preciso que os responsáveis e os quadros do GRECIMA saibam aplicar o princípio de gestão e de colaboração participativa. Há muitas ideias que existem, todos nós somos angolanos e sentimo-nos ofendidos quando vemos que a imagem do país não é muito bem passada lá fora.

RM/P -  Disse algumas vezes que a comunicação social angolano parecia que andava meio perdida, porque deambulava por aí. Já encontrou o seu rumo?

VA - Olha, houve uma altura em que via a comunicação a palmilhar caminhos muito positivos. Hoje, com muita dor, verifico que o cenário está mau. Muitas das penas jornalísticas que ainda poderiam dar um pouco para o país entraram forçosamente no defeso. Agora, vamos dizer que existe neste cenário alguns órgãos de imprensa e quadros que têm procurado jogar contra este cenário negativo e têm trabalhado para a afirmação da comunicação social. 

RM/P - A homenagem que recebeu em 2011 no Prémio Maboque, foi o ponto mais alto que esperava na sua carreira?

VA - Eu não trabalho para homenagens. Acho que o meu percurso ainda não acabou. Enquanto tiver forças para trabalhar, vou trabalhando. Digo às pessoas que nós somos da comunicação e não estamos. Às vezes, o problema maior é as pessoas que estão e querem complicar aqueles que são.

RM/P - Administrador não -executivo da TPA em 2010, há informações de que chegou a ser sondado em 2012 para dirigir o Jornal de Angola. É verdade? 

VA - Eu tenho um apreço muito grande pelo Jornal de Angola. Foi o órgão onde tive mais tempo e palmilhei todos os campos. Entrei num período muito complicado, na altura da independência do país em que todos os portugueses estavam a ir embora e fomos chamado para este desafio. Na altura, vi toda a gente a partir e a entrar. Quando fui sondado para a TPA, algumas pessoas tinham-me apontado primeiro para o Jornal de Angola. Não me mostrei disposto.  

RM/P - Diz-se que terá imposto algumas condições?

VA - Não me mostrei disposto. Além do mais, também só aceitei fazer parte de um conselho de administração na condição de ser não-executivo, precisamente porque não queria cortar o meu trabalho privado no domínio da comunicação social. Os nossos pais dizem que o cavalo só engorda com o olho do dono. Estando um bocadinho fora, nós iríamos sofrer. Por outra, vocês sabem muito bem como é que o conselho de administração da TPA saiu, por quezílias políticas, numa altura em que se fervilhava  o ambiente político em torno das eleições e todos acabaram por ser sacrificados. 

RM/P - Como é que avalia o desempenho da nova geração de jornalistas?

VA - Há valores referenciais. Há mais de positivo do que negativo. Os negativos, os exemplos são muito poucos e não nos podemos perder aí. Pessoalmente, tenho tido a experiência de trabalhar na formação de jovens, alguns dos quais hoje já são referências. 

RM/P - Por ocasião do dia da liberdade de imprensa, concluiu-se numa declaração que a agenda jornalística está muito atrelada a agenda oficial. Tem a mesma percepção. 

VA - Falta um bocadinho de criatividade, ousadia, espírito de iniciativa em alguns casos.

RM/P - O pacote legislativo da comunicação social continua na mesa. Há quem defenda que o dia em que for aprovada, haverá dois cenários: ou as redacções esvaziam-se ou então os gabinetes de comunicação institucional. Qual é o teu ponto de vista?

VA - Nem uma coisa nem outra. Acho que isso já vai sendo disciplinado. Penso que a nível da comunicação social, pelo menos é o que se consta, já se começa a pagar melhor e já há uma maior separação das águas. Agora, não sei porque razão até agora não se aprova o pacote. Acho que há um excesso de zelo dos chamados seres pensantes em acreditarem precisamente nesta teoria: se aprovarmos isso, ou a informação descamba ou então não sabemos como é que as coisas vão ficar. Fica-se sem eira nem beira. 

 

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