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3 de maio 2013 - às 09:19

VENTOS DA MUDANÇA

Sempre ouvi que o Quénia era um dos territórios onde Jonas Savimbi e concomitantemente a UNITA dominavam e faziam passar com certa facilidade a sua mensagem de movimento defensor das liberdades e tradições dos povos africanos.

 

Sempre ouvi que o Quénia era um dos territórios onde Jonas Savimbi e concomitantemente a UNITA dominavam e faziam passar com certa facilidade a sua mensagem de movimento defensor das liberdades e tradições dos povos africanos.
Também se dizia que tal simpatia nesta região africana era fruto da agressiva política diplomática, onde a base era o africanismo, vivamente apoiada por Félix Houphouët-Boigny, da Cote D´Ivoire.
Contada a história, apenas para enquadrar o meu raciocínio, devo dizer que pela primeira vez estive no país que há cinquenta anos tornava-se independente e hoje é liderado por Uhuro Kenyatta, filho do primeiro presidente do Quénia independente, Jomo Kenyatta.
Tive a oportunidade de participar na 24ª Sessão do Conselho de Administração  da Nações Unidas para os Assentamentos Humanos, UN-HABITAT, que decorreu na cidade de Nairobi, de 15 a 19 de Abril do corrente ano. Tive como missão auxiliar no stand de Angola, que mostrou o programa nacional de habitação, que está a ser implementado em todo o país.
Esta qualidade permitiu-me ter contactos directos com cidadãos de todo o mundo, em especial com os quenianos, que eram a maioria.
Além do espanto de verem os painéis sobre o que se faz em Angola, em  termos de assentamentos e mudança do panorama habitacional, a curiosidade também descaiu para política.
Primeiramente foi um queniano, que depois de ver a exposição, falou comigo e perguntou-me "como está  Mister Dos Santos?", o que prontamente o respondi que estava bem. Logo a seguir disparou um outro membro do seu grupo "como foi possível vocês aturarem a guerra conduzida por Mister Savimbi?".
Respondi-lhe que a questão dele espantava-me, uma vez que é sobejamente conhecido que o Quénia apoiava Jonas Savimbi e revia-se nas muitas doutrinas e convicções do malogrado líder do galo negro.
Assim acendeu-se o debate com outra contra-argumentação do queniano, "olha realmente tens razão, Mister Savimbi sempre teve muito apoio aqui no nosso país, mas devo te adiantar que assim como ele já partiu, a geração que o apoiava também já se foi. Tal como vocês, nós estamos atrás de desenvolvimento e queremos nos juntar com aqueles que mostram este desenvolvimento aqui exposto no vosso stand"
A conversa com o queniano caiu na envolvente harmoniosa, o que suscitava outras questões da minha parte, afinal surpreendia-me com cada uma das suas teses que aludiam que hoje a dinâmica do mundo não se compadece com ideias retrogradas e descontextualizadas.
"Mister Savimbi não soube fazer a leitura de um tempo que já não era o seu, sabemos muito da vossa história e francamente a teoria dele desvirtuava aquilo que a história pedia para o mundo hoje. Tal como ele morreu no vosso país aqui também está morto. Aliás, até para muitos dos nossos heróis são questionáveis determinados feitos, afinal com a globalização do mundo já conseguimos saltar de uma cultura tipicamente do ouvir, para aquela cultura do ver e assim conseguimos formar o nosso próprio juízo ".
Depois desta frase só tive tempo de suspirar e não mais arriscar uma pergunta no meu inglês tímido, mas perceptível.
Continuei cá a pensar com os meus botões, que África já vê o nosso país com uma perspectiva totalmente diferente das décadas passadas. Adquirimos respeitabilidade e assumimos uma liderança, agora até estamos a servir de modelo para muitos que contestavam as nossas lideranças. Esse sim são os ventos da mudança a se espalharem pelo continente negro.

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