MUNDO REAL

 
22 de junho 2018 - às 06:27

VALORES INEGOCIÁVEIS

Depois de muito reflectir, decidi lembrar o caso "Frescura", em que 9 jovens que conversavam na citada zona, no Sambizanga, foram assassinados a queima roupa por agentes da polícia porque se acreditava que naquele meio estavam bandidos. Jovens inocentes com família tombaram na "Frescura". Nos bairros pobres há muito que os populares denunciam casos de execucões sumárias.

 

Tenho lido muito sobre a questão do assassinato do jovem presumível bandido, um caso que verdadeiramente divide o país. Após perseguição policial, depois de ferido e já no chão, ensanguentado e gemendo o mesmo foi abtido a tiros diante de populares, uma operação que foi filmada e amplamamente condenada. A Polícia Nacional já se pronunciou e disse que o agente que assim procedeu será responsabilizado.

Depois de muito reflectir, decidi lembrar o caso "Frescura", em que 9 jovens que conversavam na citada zona, no Sambizanga, foram assassinados a queima roupa por agentes da polícia porque se acreditava que naquele meio estavam bandidos. Jovens inocentes com família tombaram na "Frescura". Nos bairros pobres há muito que os populares denunciam casos de execucões sumárias.

Em bairros como o Kikolo, a maior parte dos jovens já não aceita conversar em grupo porque sabem que podem ser abatidos. Apesar de muitos populares terem levantado a voz, mostrando-se favoráveis a este tipo de solução radical, estou do lado daqueles que defendem que a vida  tem de ser respeitada, que não podemos pisotear as leis e nem mesmo fazer justiça por mãos próprias.

Os comentários nas redes sociais mostram o desespero das pessoas em relação ao elevado índice de criminalidade, a brutalidade dos bandidos. O sentimento de insegurança é geral, ao ponto de várias vozes se levantarem para exigirem a aplicação da “lei de talião”. É preciso que se tomem medidas para combater os malfeitores, mas tal tem que ser feito através dos mecanismos legais existentes.

Depois de termos assistido o assassinato de um jovem presumível bandido, assistimos ao vivo ao linchamento de jovens acusados de roubo, por populares, com pormenores de crueldade total, apredrejados, agredidos, atropelados até a morte e com direito a filmagem. Que sociedade é esta? A vida perdeu  valor? Não podemos institucionalizar essa selvajaria que nos remete a Era mediaval! Que nenhum de nós seja apanhado ou confundido com meliante para não passar por tamanha barbárie.

Ao invés destes actos condenáveis, é necessário analisar as causas do problema: o que é que empurra os  jovens para o mundo do crime? A resposta está diante dos nossos olhos: o elevado índice de desemprego; exclusão do sistema de ensino; desigualdades sociais gritantes, pobreza extrema, a agressivade com que são tratados em muitos casos, enfim, uma lista enorme de problemas.

Nesta análise quero dedicar especial atenção a questão dos espaços de lazer, de eventos culturais e desportivos para as pessoas que residem nos bairros mais pobres do país. A realidade é triste e complexa nessas zonas em que as pessoas aglomeram-se nos bares ou na rua, sendo que os divertimentos possíveis são o consumo de bebidas alccoólicas ou simplesmente ficar na rua a conversar para não falar de outros vícios. É preciso investir seriamente em espaços de lazer, a cultura seria um meio muito eficaz de combater a criminalidade e de envolver cada vez mais os habitantes de cada um dos municípios na busca de soluções para os problemas que enfrentam.

Precisamos inverter a nossa forma de analisar os problemas que se baseia no ataque às consequências, enquanto as causas estão diante dos nossos olhos. O olhar tem que ser mais profundo e com uma perspectiva de verdadeiramente resolver os problemas. Persistir no erro faz com que os problemas se perpetuem.

É cruel o que os bandidos fazem nos bairros pobres, mas o que temos que fazer é eliminar e combater as causas da criminalidade. Matam-se 100 bandidos e nascem mil.

Definitivamente, temos que encarar os problemas de frente, evitar o que chamo de “soluções frágeis” e buscar caminhos que nos possam conduzir para a verdadeira mudança. É preciso devolver a paz às ruas das nossas cidades,pois o nível de violência que enfrentamos atingiu níveis exasperadores.

Os efectivos da Polícia Nacional devem cumpir o seu papel e tudo fazer para evitar os crimes que são cometidos, mas, como frisei, tal combate deve ser feito com base na lei e dentro do razoável.

A vida de todos os angolanos tem valor! 

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