RECADO SOCIAL

 
26 de novembro 2015 - às 19:56

VALEU A PENA, MAS AS GALHETAS CONTINUAM…

Nesses quarenta anos de celebração, fiquei bem fixe: só a ouvir, ver e me calar. Porque nem vale a pena comemorar o que for, quando os outros cambas ficaram para trás: quando muitos amigos de verdade querem trabalhar e não conseguem; quando há paz, mas olha-se para o lado e nota-se que existe ainda o ódio, a desconfiança e uma certa incerteza no futuro dos jovens; esses sim, têm tudo para colaborar,se manifestar nas calmas, sem balázios e o chicote colonial desgraçado; sem gás lacrimogénio e muitas galhetas. Haja paz! 

 

As comemorações do 40º aniversário da independência trouxeram-me à memória, ainda fresquíssima,uma série de acontecimentos que hoje rebobinados dava mesmo para chegar a uma única e simples conclusão: valeu a pena, sim, que depois de tanta galheta dos tugas, merecíamos conquistá-la custe o que que custasse. Sou daqueles que viu com os seus próprios olhos o que é ver uns “pretos” a fazer pela vida da forma mais humilhante possível; como também vi, outros “brancos” a torcerem o nariz quando um “monangamba” ou um daqueles “indígenas” sem passaporte para viver uma vida decente, a mais humana possível, se  encontrasse numa condição de escravo em pleno século XX. Era uma chatice, na minha idade, ver gente a ser agarrada pelos calções sem cinto e levada sempre com umas valentes porretadas e com os pés fora do chão e ser empurrada para as carrinhas da PIDE/DGS.

Também foi triste, demasiado traumatizante, estar a aguentar com a fumaça dos candeeiros a petróleo ou o célebre “petromax” (aquilo para mim continua  ser a invenção do século) para ter de estudar a “cabunga”nas Cáritas, onde havia uma professora que só resolvia a maka da minha desabrida burrice à palmatória.

Sim, valeu a pena porque em 1974, vi também que alguns militares portugueses,entretanto insatisfeitos, fatigados e solidários com os “nossos”, fariam uma aliança: nada de tiros, pa! Outros, para darem uma de “cowboys” insolentes, “Django” ou “Billy The Kid” fariam das suas noutras bandas. Mas eram “trocos” de uma convivência entre “pretos, mestiços e brancos”  feitos com os tais “costumes brandos” da Pátria imperial.

Pois é. No passado dia 11 de Novembro vi-me a desfilar com uns calções da Organização dos Pioneiros Angolanos (O.P.A), e outras fartas vezes (mal) fardado com uma arma de pau que matava mesmo.E revi-me na base militar erguida a três pauladas por trás dos “Carneiros Irmãos”, com toda aquela rotina à militar armado que já era dono do país, a “bater o pé esquerdo… atenção comando; apresentar …armas!!!”. E o hino do “M”? Todos os dias bem cedinho;os putos nunca dormiam, eram obrigados a fazê-lo sob os efeitos miraculosos dos contos da “Carochinha”, do “Ali Babá e os Sete Ladrões” ou do tal de “Lobo Mau” que, comparado com os lobos de hoje, são uns docinhos. Naquele tempo, há quarenta anos, acordar era mesmo a balázios.  Aquilo de país que sempre foi país, mas que de repente virou uma ilha onde cada um e cada qual podia virar-se como pudesse, era já uma coisa muito séria.  

Quando a coisa aquecesse, com uns mortos ali, feridos a agonizarem acolá, bom… o clima era já outro. Toca a derrapar porque “aquilo” não era filme nenhum e nem se comparava com um daqueles “movies” que mais tarde viríamos a deliciar no Cine S.Paulo ou no “Atlântico”, já numa perspectiva mais comunistazinha, que, por desconhecimento total do que se passava no outro lado, fomos obrigados a engolir. Então, sai-te uns filmes bem porreiros: “Lena Procura o Pai”; “O Dia Mais Longo”; “As Partizans”; “ O Tambor”, e, para ficar mais doce, sai-te filmes indianos românticos como o “Em Busca da Felicidade” (já nem sei se era mesmo esse o tal título) para fazer chorar os milhares de “boelos” nas salas de cinema a rebentar pelos écrans. Uma coisa era certa: estava tudo controlado, talvez porque naquele tempo não havia telemóveis; nem parabólicas, faxes e redes sociais. Mas… não é que havia sempre luz e água? E aquele espírito de camaradagem, porque quem tinha um pão, dava no outro; quem tinha carne… dividia. Só que, como no outro tempo, nada de lagostas e vinhos, champanhe e ovos que fizeram milionários.

Pois é; nesses quarenta anos de celebração, fiquei bem fixe: só a ouvir, ver e me calar. Porque nem vale a pena comemorar o que for, quando os outros cambas ficaram para trás: quando muitos amigos de verdade querem trabalhar e não conseguem; quando há paz, mas olha-se para o lado e nota-se que existe ainda o ódio, a desconfiança e uma certa incerteza no futuro dos jovens; esses sim, têm tudo para colaborar,se manifestar nas calmas, sem balázios e o chicote colonial desgraçado; sem gás lacrimogénio e muitas galhetas. Haja paz! 

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