REPORTAGEM

 
2 de outubro 2016 - às 05:33

VALE DO CAVACO NA CORRIDA AO INVESTIMENTO

Inúmeras vezes engavetada por falta de recursos financeiros, a electrificação do vale que um dia forneceu banana à Europa seria como que o complemento da estratégia que permitiu solucionar parcialmente  o problema de água. 

Após a reabilitação dos acessos, naquela que foi a cruzada contra a poeira que invadia campos de cultivo, fazendeiros olham para a energia como um incentivo à produção, ainda que menos visível ao lado do crédito. 

O Cavaco, com cerca de seis mil hectares nos seus momentos mais altos, foi dilacerado em consequência do avanço do betão, à semelhança do perímetro da Catumbela 

 

Quando tratávamos do fecho desta edição, a meio do mês de Setembro, o Governo de Benguela estava prestes a reabrir as comportas da barragem do Dungo, no município do Cubal, em resposta a um grito de socorro lançado por produtores do Cavaco, ainda a braços com problemas de água para os seus 3.761 hectares agricultáveis. 

O encerramento das comportas, associado aos estragos causados pelas enxurradas de Março de 2015, trouxe de volta fantasmas dos longos anos de secura vividos ainda antes da reabilitação do complexo hídrico que alimenta o vale agrícola. 

É certo que a barragem beneficiou de obras de engenharia hidráulica, para satisfação de fazendeiros que se viam forçados a escavar até 40 metros de profundidade, mas é errado pensar que a escassez de água está totalmente solucionada. 

Unânimes, especialistas consultados por Figuras e Negócios, alguns afectos ao sector da Agricultura e Desenvolvimento Rural, esclarecem que os vários anos de ‘’seca’’ não podem encontrar antídoto em tão pouco tempo. 

Olhando para o lençol freático, sustentam que a grande vantagem é que algumas fazendas já só precisam de escavar entre dez a vinte metros para que a água chegue aos campos. Anteriormente, conforme referem as fontes, muitos produtores não tinham capacidade para furos quatro vezes superiores aos actuais, mais ajustados aos bolsos da maioria. 

Afinal, nem todos conseguem adquirir sistemas de rega automática, como faz o empresário Manuel Monteiro, presidente da Federação das Cooperativas Agro-pecuárias de Benguela, que tem destacado a disponibilidade de água como um factor a compensar a queda na produção da banana, sua cultura de eleição.  

Os números do primeiro semestre deste ano, para os casos da banana e das hortícolas, apontam para colheitas de 553 e 5.513 toneladas, representando estas cifras ‘’aumentos significativos’’ em relação a igual período de 2015.  

As hortícolas, bens que o governador provincial, Isaac dos Anjos, tenciona exportar por via do Aeroporto da Catumbela, são a cebola, o tomate, repolho, beringelas, couves e alface. 

Quanto à banana, a cifra pode pecar por defeito, uma vez que, segundo foi possível apurar, os homens do Cavaco estarão a ocultar a produção real para fugir dos impostos, à semelhança, aliás, do que se verificava com fazendeiros portugueses nos melhores momentos do vale, entre os anos 70 e 80.  

 

À espera de 150 fazendeiros- Dados disponíveis indicam que o vale agrícola do Cavaco, agora só com três mil e setecentos hectares agricultáveis, muito acima da área em exploração neste momento, foi devastado em quase 50% ao longo dos últimos anos. 

A triste realidade reflecte a colocação do betão, para construção de casas e armazéns, em áreas onde deviam ter avançado as sementes e os fertilizantes. 

Mais do que um retrato fiel do quadro actual, esta apreciação denota que o vale, um dos mais férteis do Centro Sul, precisa de investimentos adicionais aos efectuados pelos 140 fazendeiros ali instalados. Basta dizer que a estratégia do Executivo passa pela criação de condições para que o Cavaco tenha trezentos agricultores, com dez funcionários para cada um. 

Quem já lá se encontra, como é o caso de António Lopes Figueiredo, tem noção de que o problema de água não está completamente solucionado, mas nada o impede de olhar para o dia seguinte. 

Detentor de uma fazenda com 53 hectares, onde se encontram culturas como tomate, cebola e melão, o agricultor afirma que, havendo ‘’um pouco mais de água’’, as autoridades devem apostar na electrificação do Cavaco. 

Lopes Figueiredo argumenta que gasta ‘’uma fortuna’’ em combustíveis para colocar em funcionamento o gerador e a electrobomba, acrescentando que a energia da rede pública seria uma grande mais-valia, até porque já não se pode falar em subvenção dos derivados do petróleo. 

A mesma opinião tem o jovem Cotrim, outro produtor, que se prepara para aumentar a sua área de dez para vinte hectares, visando alargar a produção de tomate, cebola, milho e pimento. ‘’Já que temos água, uma vez que os furos já não são tão profundos como no passado, precisamos de electricidade no vale’’, sugere. 

Por ora, o ambientalista Silvano Levi, conhecedor da empreitada levada a cabo no Dungo, a 140 quilómetros da cidade de Benguela, refere que a iniciativa do Governo Provincial garante a humidade dos solos do Cavaco. 

Há, segundo o especialista, um fluxo de água no rio Halo (Caimbambo), entre a sede do município e o Cubal, capaz de assegurar um ciclo hidrológico no lençol freático do vale.  

 

CUSTOS DE PRODUÇÃO, 

TECNOLOGIA E ASSOCIATIVISMO

António Almeida, conhecedor de histórias que marcaram os momentos áureos, não fosse ele filho de um antigo fazendeiro do Cavaco, sente-se aliviado e animado, tendo em conta a sobrevivência à ‘’seca prolongada’’, mas nem por isso alheio a indicadores de aumento dos custos de produção. E aqui surge, para não variar, a apreensão de um de vários agentes a acenar para o projecto de electrificação, capaz, como se sabe, de garantir custos de energia mais baixos do que os actuais (diesel). ‘’Poderemos apostar na transformação e industrialização da produção. Assistiremos, ainda, a uma melhoria significativa no capítulo da segurança, tanto de pessoas como de equipamentos’’, argumenta. 

António Almeida, funcionário do Consulado de Portugal em Benguela, lembra que o seu pai chegou a abrir valas de irrigação a partir do rio, dando lugar a uma rápida recuperação do lençol freático, e fala, portanto, de um potencial a exigir medidas que contraponham dificuldades no acesso a sementes, adubos e equipamentos. 

Almeida acredita, apesar da inexistência, a título de exemplo, de uma empresa que alugue tractor para lavrar a terra, num crescimento do investimento no vale do Cavaco, ultrapassado o bloqueio no sistema hídrico do Dungo. ‘’Durante décadas, as pequenas e médias empresas foram esquecidas e alienadas por responsáveis a nível governativo, daí que, hoje, não exista diálogo, já que os produtores desconfiam de tudo quanto possa vir do Governo’’, alerta, sustentando que o momento é de redescoberta do potencial das empresas agrícolas. 

Imbuído nesse espírito, defende uma associação de produtores, gerida e controlada pelos sócios, com o Executivo a funcionar apenas como orientador geral e facilitador da actividade, ao invés de controlador absoluto do poder de decisão. ‘’O controlo e as decisões devem pertencer aos dirigentes eleitos pelos associados, de forma livre e apartidária’’, vinca António Almeida, que olha para necessidade de uma luta tendente e baixar custos de produção, permitindo que fazendeiros, unidos, concorram em mercados por explorar e ensaiem soluções técnicas actuais. 

Na ponta final, uma palavra de agradecimento ao governador provincial, pela ‘’garra e determinação’’ na regularização do caudal do rio e asfaltagem de 25 quilómetros, relançando a corrida a um vale com boas condições, sem ventos dominantes e com margens defendidas por muros bastante sólidos. 

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