SOCIEDADE

 
29 de julho 2017 - às 07:22

TURISMO EM ANGOLA A IMPORTÂNCIA DA IMAGEM AFECTIVA

A viagem de lazer resulta de uma combinação ao nível de associações emocionais, da percepção do ambiente quotidiano com a percepção de um ou vários destinos turísticos. Essas percepções são designadas por imagem afectiva, sendo composta por reacções emocionais ao ambiente de lugar, as quais podem ou não ser influenciadas sobre crenças cognitivas acerca do mesmo

 

Estas reflexões surgem em resultado de uma conversa de amigos na esplanada do Hotel Términus, no Lobito, quando um dos convivas, ligado à promoção turística, me perguntou sobre o que eu pensava de viagens “turísticas” de comboio entre o Lobito e o Luau (na fronteira com a RDC), explorando as potencialidades do Caminho de Ferro de Benguela, agora em vias de recuperação.

Este possível “cenário” transportou-me até aos meus tenros anos, trazendo à tona recordações “afectivas” que fazem parte do meu “ser” africano… e como é bom recordar! Melhor ainda seria poder saborear, novamente, este mar de sensações!

Tratando-se de uma actividade de lazer que implica a saída do ambiente habitual e a escolha de um destino, a motivação para o destino depende das reacções emocionais do turista, quer no ambiente habitual, quer no ambiente de destino. Consequentemente, a análise dessas reacções, que podem ser conceptualizadas como imagem afectiva, por oposição a uma imagem cognitiva fundada nas crenças sobre os atributos do destino, é fundamental para o marketing dos destinos turísticos. Consideramos, portanto, imagem afectiva como a verbalização de atribuições emocionais a um lugar, a qual pode ser medida questionando os turistas sobre indicadores dessas atribuições.

De acordo com o modelo definido por Russell e Prat, para medir as qualidades do local que são indutoras de emoções, estas podem ser representadas num espaço bidimensional:

• a primeira dimensão, que se pode chamar agradabilidade, representa uma valência afectiva relacionada com o prazer que o espaço suscita;

• a segunda, estimulação, representa o nível de excitação proporcionado pelos estímulos ambientais.

Esta teoria pode ser operacionalizada através da análise factorial de classes latentes, considerando que as referidas dimensões da imagem afectiva são bipolares: agradabilidade positiva ou negativa; estimulação alta ou baixa. Da combinação destes níveis bipolares resultam quatro classes latentes de imagem afectiva:

• alta estimulação agradável, designada entusiasmante;

• baixa estimulação agradável, designada relaxante;

• baixa estimulação desagradável, designada melancólica;

• alta estimulação desagradável, designada stressante.

Só os níveis altos de estimulação têm potencial motivacional, como seja a activação do comportamento de viagem. Alta estimulação desagradável motiva os indivíduos para fugir ao ambiente em causa, ao passo que alta estimulação agradável os motiva para procurarem esse ambiente.

No campo do turismo, esta relação entre imagem afectiva e motivação para viajar pode ser entendida da seguinte forma: a reacção emocional ao ambiente habitual tende a ser stressante, o que motiva os turistas a quererem sair desse ambiente; a reacção emocional aos ambientes dos destinos, que começa por ser uma antecipação das emoções que serão vividas durante a estadia, tende a ser entusiasmante e motiva os turistas a procurá-los.

O papel do marketing de um destino é contribuir para que a imagem afectiva dos mesmos leve os potenciais turistas a antecipar, ou melhor, a “viver”, pela imaginação e pela fantasia, as emoções que esperam sentir no destino. Como é norma nas experiências de consumo hedónicas (a palavra hedónica vem do grego hedon, significa prazer),sobretudo nos casos em que a escolha da marca tem uma importante componente afectiva, a gratificação que o consumidor obtém tem um significado psicológico, cultural e social que é sugerido, se não mesmo criado, pela comunicação publicitária.

Para compreender este papel do marketing de destinos, é fundamental compreender a diferença entre a motivação negativa ou aversiva e a motivação positiva ou apetitiva. A motivação negativa funciona quando o consumidor percebe uma situação problemática e atribui ao consumo de um produto ou serviço a potencialidade de evitar ou resolver o problema.

No caso do turismo, este tipo de motivação está principalmente ligado à necessidade de viajar – as reacções ao ambiente habitual são negativas e a mudança proporcionada pela viagem elimina esse sentimento negativo. Por outro lado, a motivação positiva ocorre quando o consumidor percebe ou imagina uma situação de consumo como gratificante porque lhe vai proporcionar sentimentos positivos, independentemente de estar ou não a sentir algum problema.

No caso do turismo, este tipo de motivação está sobretudo ligado à escolha do destino – a antecipação dos sentimentos positivos cria o desejo de o visitar. Na maior parte dos casos, estas duas “forças” motivacionais actuam em conjunto e potenciam-se uma à outra. No entanto, para efeitos das estratégias de marketing, não devem ser confundidas. Uma comunicação baseada na motivação negativa poderá incentivar a necessidade de viagem, mas terá um pequeno impacto na escola do destino. Só uma comunicação baseada em motivação positiva aumenta as possibilidades de diferenciação do destino e o reforço da percepção de que ele poderá proporcionar determinadas emoções de uma forma superior aos concorrentes.

Tem sido notório e crescente a organização de “encontros” de angolanos (naturais; amigos; ex-residentes; ex-alunos; ex-professores; ex-militares; ex-variadíssimas coisas…) que, um pouco pelos países da diáspora, nomeadamente em Portugal, se mobilizam às centenas e até aos milhares para conviverem “sentados” nos “álbuns” de recordações das suas infâncias, juventude, enfim, das suas vivências, neste “chão” tropical que a todos enfeitiça. Basta percorrer as redes sociais e sucedem-se os convites para estas autênticas romarias da saudade e, em muitas delas, percebe-se a existência de um traço comum: voltar um dia a pisar a “terra” dos seus sentidos mais precoces e, por isso mesmo, mais duradoiros.

Para muitos a possibilidade de voltar e poder “cheirar” pedaços do seu próprio ser e do seu sentir formula-se como o epíteto de felicidade máxima ao mesmo tempo que parece poder constituir-se como a reconciliação do estar a que a história trocou as voltas.

Aqui a felicidade e o prazer de voltar, mesmo que por efémeros momentos (compagináveis com umas férias), adquirem dimensões que, muito possivelmente, ultrapassam as meras agradabilidades que o turismo e o lazer proporcionam, pois serão um misto de entusiasmo, relax, melancolia e stress… diria mesmo que assumiriam, facilmente, dimensões terapêuticas… e isto constitui um importante e significativo “nicho” a que o Turismo Angolano (quando muito se fala da necessidade de divisas e da sustentabilidade da diversificação da economia) ainda não soube (ou não quer?) aproveitar!

Também eu me faço transportar no tempo e, numa espécie de regresso ao passado, já me imagino a tomar o meu lugar numa carruagem do “comboio mala” e este, lentamente, inicia a marcha, respondendo ao arfar da locomotiva “Garratt”… deixando para trás a bela cidade do Lobito.

Copyright © Figuras & Negócios - Todos os direitos reservados strong>

Contato
Home
Acervo Digital