MUNDO

 
8 de junho 2017 - às 06:11

THERESA MAY SOB TENSÃO EM TODAS AS FRENTES

A vida não está fácil para Theresa May. A primeira-Ministra britânica enfrenta forte oposição de Liberais e Trabalhistas, dos ainda parceiros na União Europeia e depois do ressurgir da vontade independentista da Escócia, pressões em Gibraltar e dos sinais de tensão na Irlanda do Norte. Os 27 estão a explorar as vulnerabilidades

 

A questão da circulação de pessoas e do emprego no país foram determinantes para a escolha do Brexit. Porém, os outros 27 Estados do bloco não estão dispostos a ceder nesse ponto. Se o Reino Unido quiser beneficiar da livre circulação de bens, serviços e capitais tem de aceitar a de pessoas.

Na lista das prioridades estão ainda questões financeiras e a fronteira entre a República da Irlanda e a Irlanda do Norte. Tanto a questão dos cidadãos quanto estas tem de merecer o consentimento dos 27 Estados que permanecem no bloco.

Diversos responsáveis políticos, das instituições comunitárias e de vários países, têm manifestado como prioridade a protecção dos direitos dos cidadãos. Do lado britânico continua a falar-se do pagamento duma verba, à União Europeia, para poder aceder ao Mercado Único sem incluir a vertente das pessoas.

Theresa May admite que a negociação sobre os direitos dos cidadãos, de países da União Europeia, a residir no Reino Unido pode ser resolvida em poucas semanas. A primeira-ministra britânica adianta que terão os mesmos direitos que qualquer outro cidadão estrangeiro. Actualmente, há cerca de 3.000.000 pessoas de países da UE a residir no país.

Responsáveis britânicos recusam-se a pagar uma factura elevada pelo Brexit. David Davis, responsável pelas negociações da saída, garante que o seu país não pagará 100 mil milhões de Euros. O valor foi calculado pelo The Financial Times, com base nas reivindicações de Alemanha e de França.

Numa entrevista à BBC, o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Junker, calculou a indemnização, a pagar pelo Reino Unido, em 58 mil milhões de Euros. O Produto Interno Bruto do Reino Unido foi, em 2015, superior a 2,57 biliões de Euros.

Antes de assinar qualquer montante, David Davis quer saber quais os direitos e obrigações vão sair de um acordo. Theresa May confirma a posição. A governante afirma que o seu país não está obrigado a pagar nem um cêntimo para sair.

«Juncker quer dinheiro, mas também nos quer punir e impedir que outros Estados-membros saiam» – afirmou ao The Financial Times um membro do Governo britânico, que não foi revelada a identidade.

Na reunião do Conselho Europeu, de 29 de Abril, os responsáveis europeus concordaram no princípio de que o Reino Unido, ou qualquer outro país que queira abandonar a União Europeia, não pode ficar numa situação mais favorável fora do bloco – posição assumida abertamente por François Hollande, à data ainda presidente de França.

Por seu lado, Donald Tusk, presidente do Conselho Europeu, avisa que o futuro das relações só depois de haver um tratado de divórcio. A chanceler alemã afirma exactamente o mesmo e coloca como prioridade a defesa dos interesses dos Estados da União Europeia.

Citado pela imprensa de vários países, o negociador-chefe da União Europeia não se mostra optimista. Michel Barnier afirma que cada vez que sai de Downing Street está «dez vezes mais céptico do que antes». Contudo, oficialmente essa afirmação não aconteceu e o ambiente é de optimismo.

O Reino Unido deseja manter, em seu território, as sedes da Agência Europeia de Medicamentos e da Autoridade Bancária Europeia. Porém, os 27 responderam que não a Londres.

 

Batalha interna até 8 de Junho - Embora tenha accionado o Artigo 50 do Tratado de Lisboa, que marca o começo do Brexit, Theresa May não quis começar verdadeiramente a discutir com os ainda parceiros. Buscando um reforço negocial, a primeira-ministra forçou eleições legislativas, que foram marcadas para 8 de Junho.

Contudo, a jogada é arriscada. Nada lhe garante uma vitória e, ainda menos, uma maioria que lhe permita ter maior liberdade e peso político, tanto nas negociações com os 27 países da União Europeia quanto internamente.

Aliás, para muitos políticos estas acções representaram tiros pela culatra. Foi o caso de David Cameron, anterior primeiro-ministro britânico, que apostou alto ao marcar o referendo do Brexit. Pretendia pressionar os parceiros europeus para obter mais excepcionalidades para o Reino Unido e pensou que o país iria alinhar consigo, defendendo a manutenção na UE e reforçando-lhe o peso negocial. Igualmente, Theresa May, que se manteve, de alguma, forma distante na campanha do Brexit, era afinal uma apoiante convicta da manutenção. Está assim a saborear o resultado da sua actuação.

No entanto, para já as sondagens são amplamente favoráveis ao Partido Conservador de Theresa May. A governante tem usado argumentos nacionalistas, acusando responsáveis políticos dos países da UE de tentarem influenciar as eleições de 8 de Junho.

O trabalhista Tony Blair, antigo primeiro-ministro britânico, diz-se convicto de que os britânicos irão, no tempo de uma geração, querer voltar à União Europeia. A futurologia não é complicada, basta olhar para os resultados do referendo do Brexit. Foram os mais velhos que ditaram a saída do país. O tempo irá forçosamente acertar essas contas.

 

Perder os anéis e os dedos - Está a confirmar-se a previsão de que o Brexit vai ter consequências na City. A agência Reuters fez as contas aos dados revelados por várias instituições financeiras e prevê a perda de 9.000 postos de trabalho na praça londrina.

Barclays Bank, Citigroup, Deutsche Bank, Goldman Sachs, HSBC, JP Morgan, Standard Chartered e UBS são algumas das instituições que anunciaram os seus planos para o pós-Brexit. Frankfurt mantém-se como a praça que deverá beneficiar mais com as perdas de Londres. Paris, Madrid, Milão e Dublin são vistas igualmente como ganhadoras com o declínio do mercado londrino.

A Oliver Wyman e a Ernst & Young fizeram também cálculos que apontam para resultados desastrosos para Londres. A perda de postos de trabalho pode ir dos 4.000 até aos expressivos 200.000. Tudo depende do que for acordado nas negociações. Note-se que só o Deutsche Bank emprega 4.000 pessoas na ilha e que está de partida.

Mais revelações irão acontecer proximamente, visto o Banco de Inglaterra exigir que as instituições financeiras apresentem, até 14 de Julho, os seus planos de contingência.

Países britânicos - Os representantes políticos dos 27 Estados da UE aprovaram por unanimidade, numa reunião a 15 de Maio, uma declaração de que todo o território duma Irlanda Unida faria parte do bloco, caso um futuro referendo sobre o tema assim o determinasse, de acordo com a legislação internacional.

Esta declaração caiu pessimamente em Londres. O Governo e partidários do Brexit consideram-na como uma inaceitável intervenção na esfera interna do país.

Os nacionalistas escoceses querem referendar a reunificação. Alegam que a votação no referendo do Brexit foi, no Ulster, favorável à manutenção e que a linha que separa a República da Irlanda e a Irlanda do Norte seria a única fronteira terrestre do Reino Unido, e que hoje as pessoas podem atravessar livremente.

Por seu turno, Theresa May garante que o Brexit não irá representar a criação duma fronteira rígida entre o Ulster e a República da Irlanda.

Os 27 países do bloco têm dito que a Irlanda do Norte será muito bem-vinda à organização. Contudo, a questão é melindrosa. Note-se que foi apenas em 1998 que se obteve um acordo de paz para o Ulster, dividido por décadas de violência, entre partidários da unificação e da manutenção do território no Reino Unido – a que se juntavam aspectos religiosos, entre católicos e anglicanos.

Nicola Sturgeon continua a complicar a situação de Theresa May. A primeira-ministra da Escócia quer sentar-se nas negociações do Brexit. Todavia, as legislativas apresentam também um teste ao Partido Nacionalista Escocês, que tem actualmente 156 deputados em Westminster.

O território setentrional da Grã-Bretanha votou claramente a favor da manutenção na UE. Contudo, o Governo central pretende negociar como um todo, visto o referendo ter sido nacional.

A governante escocesa está, com o Parlamento de Edimburgo, empenhada num novo referendo acerca da independência da Escócia, havendo a decorrer trabalhos preliminares para essa votação.

O Partido Liberal Democrata defende que se vencer as eleições irá decretar um novo referendo sobre o Brexit. Porém, esta força política tem um peso significativamente inferior ao Partido Conservador.

Jeremy Corbin tem sido o principal opositor de Theresa May. O líder do Partido Trabalhista apresenta uma promessa tentadora: irá conseguir defender os empregos dos britânicos e garantir o acesso do país ao Mercado Único. Não se sabe é como o alcançará. 

Copyright © Figuras & Negócios - Todos os direitos reservados strong>

Contato
Home
Acervo Digital