ÁFRICA

 
2 de setembro 2016 - às 07:13

SUDÃO DO SUL: NOVO CONFLITO COM MOTIVAÇÃO ECONÓMICA

Em declarações públicas na altura, o presidente do Sudão do Sul, Salva Kiir, tinha recebido com muitas reservas os acordos de paz de 26 de Agosto 2015. 

Depois dos recentes confrontos armados havidos em Julho, em Juba (Sudão do Sul), os actos assumidos pelo regime e pela rebelião lançam suspeitas, criando a impressão de que os acordos estavam predestinados a gerar novos conflitos

Interesses económicos fundamentam o divórcio entre a ex-rebelião e o presidente do governo de unidade nacional. Salva Kiir reformulou a divisão administrativa do território. Ex-rebeldes, que controlam zonas ricas em hidrocarbonetos, não afastam a opção militar para derrubar o actual regime.  

Ao nomear o influente ex-rebelde Taban Deng Gai para o cargo de vice-presidente e demitir alguns ministros do governo de unidade nacional, o chefe de Estado, Salva Kiir, aprofundou as divisões no seio da rebelião e atiçou o interesse desta pela ressurreição armada.  

 

As hostilidades opondo o exército governamental aos ex-rebeldes nos campos de acantonamento e o abandono da capital pelo ex-chefe rebelde Riek Machar instalaram um clima que põe em causa a validade dos acordos de paz de Agosto 2015. 

Riek Machar alegou falta de segurança para justificar a retirada da capital. Lam Akol, influente ex-chefe rebelde e ministro no governo de unidade nacional, aventou a possibilidade de um regresso à guerra para derrubar o regime do actual presidente Salva Kiir.

Akol exprimiu-se para anunciar a sua demissão do cargo de ministro da Agricultura e Segurança Alimentar, invocando falta de condições para continuar a aplicar os acordos de paz de Agosto de 2015. 

Mostrou-se realista ao reconhecer as divergências no seio da oposição: uns perspectivam a via armada, outros preferem a luta política para destronar Salva Kiir.

 

Fissuras na ex-rebelião - Atento, o chefe de Estado, Salva Kiir, procura explorar as fissuras dos seus adversários.

Kiir escolheu Taban Deng Gai para o cargo de vice-presidente, em substituição de Riek Machar. Este último abandonou Juba na sequência dos confrontos. A insegurança que mata os acordos de paz de 2015 foi também a justificação para a fuga. 

O facto de Taban Gai constituir uma referência da liderança, a sua ascensão corrói as fileiras da ex-rebelião.  

Uma parte dos dirigentes da ex-rebelião deu formalmente aval à nomeação de Taban Gai. Trata-se de um gesto que denuncia as rixas internas às quais o presidente Salva Kiir recorre para organizar o jogo político. 

A título de exemplo, o aproveitamento por Salva Kiir das guerras intestinas da ex-rebelião levou-o a manter Alfred Lado Gore, um próximo do ex-vice-presidente Riek Machar, no executivo (ocupando o Ministério da Administração do Território). Ficou também no governo Mabior Garang (para Ministério das Águas), filho do ex-presidente John Garang e influente na ex-rebelião.

As hostilidades havidas em Julho último em Juba parece terem sido planeadas para coincidirem com a semana simbólica das comemorações do quinto aniversário da independência do Sudão do Sul. E o presidente Salva Kiir aproveitou a ocasião para apelar ao seu rival Riek Machar (até então vice-presidente) a regressar à sede do governo. 

O apelo de Salva Kiir a Riek Machar pode ser entendido como mero exercício político que visou culpabilizar Machar pelos acontecimentos que irão conduzir à nulidade dos acordos de paz.  

Apesar de todas as manobras de ambas as partes, instâncias internacionais representadas no Sudão do Sul e que acompanham o evoluir da situação política no país responsabilizam o exército nacional pela errupção dos confrontos de Julho. 

Num comunicado oficial, o alto-comissário da ONU para os direitos humanos, Zeid Ra’ad Al Hussein, aludiu a violações, homicídios e saques atribuídos às tropas governamentais em Juba.  Al Hussein pediu intervenção do Conselho de Segurança devido à gravidade dos actos de violência no período de 8 a 11 de Julho, momento em que se deram as hostilidades na capital do Sudão do Sul. 

Por sua vez, a presidente da comissão da União Africana, Nkosazana Dlamini-Zuma, lembrou ao presidente Salva Kiir e rivais que os estados têm por missão a protecção dos governados e nunca o contrário.

 

26 de Agosto 2015: acordos ou nado morto?  - Antes de assinar os acordos de 26 de Agosto de 2015, o presidente Salva Kiir havia expresso publicamente reservas quanto à materialização do espírito e da letra do texto. 

Para ele, os acordos continham disposições nefastas, manifestando a intenção de os corrigir ou rejeitar. Kiir chegou, inclusive, a remeter um volumoso documento à mediação (Kenya, Uganda, Sudão, Etiópia) apontando cláusulas prejudiciais segundo a sua perspectiva. 

No fundo, Salva Kiir estava insatisfeito com a amplitude da representação da ex-rebelião no governo de reconciliação nacional e com as riquezas naturais existentes na região de Alto Nilo cujo poder local está nas mãos dos ex-rebeldes no âmbito dos acordos. A ex-rebelião governa igualmente em Jonglei, rico em minerais.

Pouco depois da assinatura dos acordos, Salva Kiir reformulou a divisão territorial do país, passando de 10 a 28 estados.

A nova divisão territorial lançou as bases para fricções entre Salva Kiir e o ex-chef da rebelião Riek Machar. Este último insistia em vão sobre o respeito dos acordos que instituíam 10 estados no Sudão do Sul. A partilha de cargos executivos obedecia a referida divisão plasmada nos acordos de 2015. O desenho do percurso do conflito político actual deixa entender tratar-se de motivação económica. 

 

UNIÃO AFRICANA

INTERESSES REGIONAIS E CANDIDATOS

SEM PERFIL ADIAM ELEIÇÃO

Candidatos sem perfil adequado ao cargo de presidente da comissão da União Africana e interesses regionais terão sido principais motivos para adiamento da eleição de um substituto de Nkosazana Dlamini-Zuma quando da 27ª cimeira em Kigali (Rwanda). 

Para o presidente do Senegal, Macky Sall, citado por Jeune Afrique, as condições políticas não estavam reunidas para o processo eleitoral: “Tínhamos alertado previamente neste sentido e solicitado adiamento da eleição”. 

O jornal sul-africano The Citizen faz alusão ao perfil inadequado dos candidatos submetidos à cimeira dos chefes de estado para justificar o adiamento da eleição para Janeiro do ano que vem. 

Segundo o The Citizen, a maioria dos estadistas africanos mostrou insatisfação pela estatura dos candidatos propostos, não tendo nenhum deles, por isso, possibilidade de arrancar dois terços de votos requeridos. 

Os três candidatos eram, respectivamente, Agapito Mba Mokuy (Guiné-Equatorial), Pelonomi Venson-Moitoi (Botswana) e Speciosa Wandira-Kazibwe (Uganda).

Sem surpresa, o adiamento resulta de uma jogada diplomática orquestrada por interesses ligados às estratégias regionais. O presidente Macky Sall mobilizou os seus pares da África ocidental para obter apoio à candidatura de Abdoulaye Bathily, seu antigo ministro de estado junto da presidência e actual enviado especial da ONU para a África Central.

Ao lado do ex-presidente da Tanzânia, Jakaya Kikwete, o senegalês Bathily beneficia do favoritismo pela visibilidade da função que ocupa e pela agressividade da diplomacia senegalesa encabeçada por Macky Sall.

Os nomes dos dois homens figuravam já nas preferências de alguns chefes de estados no início do ano. Foi então que a diplomacia jogou a favor de ambos. A cimeira sobre o combate ao Boko-Haram, em Abuja, em Maio, consolidou a ideia do adiamento da eleição. A cimeira da CEDEAO (Comunidade Económica da África Ocidental), em Junho último, reavivou a ideia do adiamento e permitiu ao Senegal cimentar o apoio à candidatura de Bathily. Tudo fica por decidir na cimeira de Janeiro de 2017.

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