EDITORIAL

 
24 de janeiro 2015 - às 22:50

SOMOS AFRICANOS

 

A onda de protestos que em meados de Janeiro invadiu o mundo em sinal de condenação ao massacre bárbaro perpretado em Paris (França) por elementos fanáticos e radicais islamitas contra doze jornalistas franceses veio  destapar o falso argumento da igualdade do ser humano no mundo, propalado com muita insistência nas capitais europeias que se acham paladinas da verdadeira democracia.

Na verdade, desde há muito que a África, particularmente a Nigéria tem sido assolada por crimes dos mais horrendos praticados por membros do Boko Haram, que ceifam a vida de milhares de pessoas, e da comunidade internacional nada mais se ouve do que notícias soltas a condenar envergonhadamente esses actos.

Sangue derramado por crime horrendo deve ser condenado em qualquer parte do mundo e não vale dividir os crimes por categorias. Antes do crime de Paris, na Nigéria 300 crianças foram raptadas pelo Boko Haram e até hoje não se sabe ao certo o seu paradeiro nem das suas condições de saúde, na mesma semana do massacre bárbaro do Charlie Hebdo, na Nigéria igualmente mais de oitenta pessoas eram assassinadas, na mesma senda, também naquele País, foram utilizadas crianças fardadas com bombas explosivas para destruir objectivos económicos e consequentemente, fazê-las perder a vida e informações recentes, quando nos encontravamos a fechar diziam-nos de um ataque, para não variar do Boko Haram, na fronteira entre a Nigéria e os Camarões onde teriam perdido a vida cerca de oitenta pessoas.

É verdade que em função de uma melhor organização das suas estruturas, as autoridades francesas imediatamente após o massacre do Charlie Hebdo, mobilizaram-se com meios mais sofisticados para apanhar os assassinos que, dois dias depois seriam neutralizados e mortos. Na Nigéria e noutros pontos de África, com menos organização e meios, a polícia e segurança dificilmente conseguem conter a sanha agressiva dos islamitas radicais que elegem a decapitação, assassinato bárbaro, produção de sangue inocente como as suas principais armas para combater quem não está na linha dos seus ideais. Mas o curioso, e é aí que o Ocidente tem culpas grandes no cartório, é que esses grupos armados, quer sejam eles islamitas radicais ou bandidos que fazem do terrorismo a sua profissão aparecem sempre bem equipados do ponto de vista militar, com armas que não são produzidas em África, na sua maioria provenientes da Europa e da América. Dir-me-ão que o negócio do armamento tornou-se livre e incontornável mas não é menos verdade que o Ocidente tem os meios quando quer parar a "farra armamentista", pelo que não se justifica esse arrastar de crimes horrendos na África que passa praticamente impune na imprensa ocidental e se faça estardalhaços, apenas quando eles, os criminosos, batem à porta dos países europeus.

Na França e principais capitais europeias houve manifestações de condenação do massacre bárbaro de Charlie Hebdo, nós solidarizamo-nos ante a dor de todos aqueles que perderam os seus ente-queridos mas não ficou bem na fotografia alguns líderes africanos irem a correr à França para serem vistos na manifestação quando, aquí mesmo no seu continente, pouco ou nada se faz para condenar esses actos. Em Angola alguns grupos que se reclamavam da sociedade civil também ensaiaram uma vigília junto da embaixada da França em Luanda, ignorando também que aqui mesmo ao lado, dentro da nossa casa, o Continente africano,os crimes somam-se de dia para dia. 

Os africanos há muito se emanciparam, a maior parte dos países tornaram-se independentes das suas antigas colónias, formaram-se estados que se afirmam na comunidade das nações e os seus dirigentes escolheram livremente as opções de governação hoje, regra geral, muito levadas para a construção de democracias que respeitam as realidades e especificidades de cada um a liberdade de expressão e os direitos humanos. Afinal, não existindo modelos acabados de democracia, é justo que se respeitem as opções dos países como é curial que a condenação aos crimes que acontecem em Paris, em Londres, Lisboa ou Nairobi, Lagos, Abidjan ou Yaounde seja feita com a mesma virulência, sem divisões de mortes de primeira ou de segunda. E aos africanos cabe essa responsabilidade de fazer respeitar a  sua dignidade e afirmação, não permitindo que diante de crimes horrendos de que é vítima o continente sejamos ignorados, mas uma pequena notícia sobre falcatrua ou acto de corrupção, quantas vezes ainda no estágio de apuramento de provas, sejam motivos para grandes manchetes na imprensa internacional.

Afinal, somos africanos, como tal cidadãos do mundo e merecemos ser tratados como cidadãos dignos desse nome e não como animais selvagens que podem ser abatidos indiscriminadamente.

Sim somos Africanos.  

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