PAÍS

 
28 de fevereiro 2015 - às 20:15

SOCIEDADE CIVIL DESCRENTE… UM MILHÃO DE CASAS NÃO SERÃO PARA JÁ

 

Neste momento reina um cepticismo controlado quanto ao cumprimento da meta de se construir por todo o país cerca de um milhão de casas sociais, por parte do partido governante que fez de porta-bandeira tal desiderato há pouco mais de sete anos.Demolições não será uma estratégia que apanhe as “massas” com especial grau de aceitação em que lugar e momento for, na medida em que, não raras vezes, originam choques sociais muito fortes em razão de não se saber ao certo o seu futuro.A se juntar a essa ementa indigesta, surge um factor de risco: os investimentos públicos estão de tal forma apertados que só mesmo um “milagre petrolífero” poderá fazer com que a situação da construção renove o seu ímpeto e, finalmente, se veja o mercado imobiliário angolano nos carris.

Emílio Nunes, Coordenador de Contas, não tem dúvidas: “não acredito que o partido no poder cumpra minimamente o programa da construção de 1 milhão de casas.  É impossível!” Para si, havia necessidade,sim, de construção de centralidades mas, antes, que ela fosse de acordo com o “modus vivendi” das populações e se fizessem mais estudos sociais para melhor entendimento da distribuição populacional,  “senão tudo vira anárquico”, sublinha. 

 

EMÍLIO NUNES - Acha que a construção de habitações devia ser priorizada na escala horizontal, uma vez que Angola não tem falta de terra,  e podia se criar uma periferia em Luanda com um bom sistema de transportes para o centro da cidade. 

“Existe muita corrupção,  corrupção coordenada”, afirma, considerando que as casas sociais deviam ser para pessoas em estado crítico de habitação, e para a população mais necessitada. “Casas sociais não são fontes de lucro,  são uma " protecção social ", afirma.

Para si, as demolições anárquicas podem originar convulsões sociais, mas considera que “as autoridades vão impedir que elas sejam ultrapassadas ,  de uma forma ou outra”, revelando que em todo este processo “não houve nenhum empenho na educação cívica”. 

“A partir do momento que se colocam à venda casas sociais. ....deixam de ser casas sociais”, salientando que há muito se tinha visto que as promessas eleitorais na saúde e educação não seriam cumpridas.”Agora  e devido aos preços do petróleo, essas promessas ficarão muito longe das metas propostas”, disse.

 

ARTUR GRAÇA CUSSENDALA - Especialista em electrónica e telecomunicações, garante que  a promessa , feita em 2008, foi envolta num número irrealista e eleitoralista e serviu os seus propósitos, pois, afinal o partido maioritário havia vencido por maioria esmagadora. 

Quanto à estratégia do governo em relação à construção de centralidades,Artur Cussendala considera que pode ser bem vinda por um lado e não por outro, uma vez que trata-se de  um fenômeno novo e com a gritante falta de moradias em especial no interior, a ideia é bem vinda. “Porém, a construção de arranha- céus não se adapta ao modus vivendi dos africanos e dos angolanos em particular. Em Luanda é possível que se justifique, mas no interior do país, com excepção das grandes cidades, não se adapta à nossa maneira de ser e estar”,assevera. 

É de opinião que o mais  viável seria construir na horizontal, porque o angolano têm hábitos culturais que requerem espaço reservado para inúmeros rituais peculiares de família africana.Todavia, acredita que em alguns lugares talvez se justificasse a construção na vertical por economia de espaço e recursos. 

Instado a pronunciar-se sobre a existência ou não de corrupção em todo este processo de ocupação das novas centralidades, o nosso interlocutor garante que não é um caso exclusivo de Angola e argumenta: onde há um canteiro de obras há sempre um lobby das construtoras que pede a empreitada quem paga mais; o fenómeno também ocorre no acto de consignação das moradias… há sempre a excepção à regra.

“Este tipo de moradias (casas sociais) deveriam ser dadas exclusivamente às pessoas  cadenciadas, de preferência às que vivem em condições de risco permanente”, sugere, acrescentando que “quanto às demolições ( já planificadas) pelo Estado em zonas tradicionais como as do Bairro Operário e Sambizanga, se não seguirem o "cunhómetro" e as conveniências, acredito não descambarem em conflitos, caso contrário, são inevitáveis”.

Quanto aos preços praticados nas rendas resolúveis ou as vendas, Artur Graça Cussendala defende que  até estão muito baratos. “Eu construí a minha própria moradia e os custos foram bem maiores”, afirma, acrescentando, por outro lado,que nas eleições passadas o partido vencedor foi mais comedido; “prometeu menos do que em 2008. Mas,para si,  o slogan "produzir mais o para distribuir melhor" não está a ser cumprido. “Os cidadãos devem estar conscientes que promessa eleitoral é mesmo promessa e nada mais do que isto!”, acentua. 

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