DESPORTO

 
6 de abril 2017 - às 16:11

RICARDO TEIXEIRA, PILOTO DE FÓRMULAS: SONANGOL CORTOU-LHE O PATROCÍNIO!

Ricardo Teixeira é o piloto angolano que, durante um bom pedaço de tempo, circulou nas provas de competição com o seu carro estampando a logomarca da Sonangol, a petrolifera nacional. Ricardo é um jovem angolano há muito residente em Portugal e que desde muito cedo teve paixão pelo automobilismo, pela velocidade nas pistas de corrida. O "casamento" com a Sonangol começou em 2005, quando ele integrou a Formula 3 Internacional Britanica, uma ligação que se prolongou até 2012 e que terminou por razoes que, estranhamente,Ricardo diz desconhecer Ricardo Teixeira continua no Mundo do automobilismo, vive em Lisboa, viaja constantemente pela Europa em competição ou serviços promocionais mas arranjou tempo para responder a perguntas colocadas pela revista Figuras&Negócios sobre a sua carreira e projectos para o futuro

 

Figuras&Negócios (F&N) - Ricardo, exactamente o que se passou com patrocinio da  Sonangol? Este facto comprometeu de certa maneira, a sua carreira no mundo automobilístico?

Ricardo Teixeira (RT) - Comecei a correr de Karts com 8 anos de idade participado em diversas corridas internacionais com bastante sucesso e inúmeras vitórias. Aos 17 anos, fui viver sozinho para Inglaterra, quando dei o salto para os Fórmulas. Comecei a ser apoiado pela Sonangol em 2005, quando passei para a Fórmula 3 Internacional Británica depois de ter quase ganho o Campeonato Nacional (ARP) Británico de F3, 2 Vitórias, 5 podiuns e 2 poles, perdi a liderança do campeonato quando me vi forçado a não participar na última corrida por falta de patrocinadores.

 De 2005 até 2008, participei no Campeonato International de F3. Em 2009 dou finalmente o salto para a Fórmula 1. Assino com a prestigiada Williams F1 Team como piloto de desenvolvimento, tornando-me no primeiro e único piloto angolano na história a chegar a Fórmula 1 e o único africano nesse ano na Fórmula 1.  Durante 2009, participo em simultâneo no Campeonato Mundial de GP2 e em 2010 no Campeonato Mundial de Fórmula 2.

 Em 2011 troco pelo Team Lotus F1 (mais tarde muda de nome para Caterham F1), para que seja o terceiro piloto oficial de Fórmula 1, em que passo a ser o piloto oficial de testes e de reserva dos dois pilotos oficiais de Fórmula 1 (em que fiz testes oficiais, os treinos livres de sexta feira nos fins de semana de Grande Prémio e acompanhei a equipa para todo lado como piloto oficial, tendo um papel muito importante no desenvolvimento do carro).

Em 2012, ao mesmo tempo que sou piloto de testes da Caterham F1, sou posto a correr em simultâneo no campeonato do Mundo de GP2 na equipa Italiana Rapax Team.

Por motivos que me são totalmente alheios, a Sonangol não cumpriu o contrato na epoca de 2012, que levou a equipe Rapax a pôr um processo em Itália contra a Sonangol pôr incumprimento contratual que ainda está a decorrer os termos no tribunal italiano. Mesmo estando fora do meu controle foi uma situação que me prejudicou directamente.

Apesar disto tudo, sinto que cumpri todos os meus objectivos, e tenho bastante orgulho, pois fui o primeiro angolano e único a levar o meu País ao patamar mais alto do automobilismo mundial, passando por duas equipas com uma história muito prestigiante no mundo da Fórmula 1.

Para além destes factos, sinto que cumpri e honrei os meus objectivos, os do meu País e os do meu patrocinador, pois atingi a Fórmula 1 em um tempo record.

F&N - Exactamente,como está de momento a sua carreira?Metas e ambições para o futuro?

RT - Neste momento e graças a ter sido piloto de Fórmula 1 e ser um piloto internacionalmente conhecido, tenho sido chamado para ajudar equipas no desenvolvimento e a fazer corridas esporádicas, em 2013 fiz duas corridas oferta de GP2  a pedido da Trident para os ajudar a desenvolver o carro. Em 2014 fiz muitos testes de desenvolvimento para a Mercedes AMG GT Team num carro de GT e desde 2015 estou a trabalhar com algumas marcas de nome, tal como a Bentley Motors e a Jaguar\Land Rover Automotive a desenvolver tanto os carros de corrida como carros protótipos de estrada que serão lançados para o mercado. Em 2016 fui pago para fazer as 2h de Spa-Francorchamps com a BMW no campeonato belga onde terminei em 4º lugar. Desde 2016 que sou instructor no programa de GT da Mclaren Official Automotive Factory.

Este ano, além de continuar bastante ocupado a trabalhar com as marcas que referi anteriormente também fui escolhido e convidado directamente pela Tesla Automotive para participar no primeiro Campeonato Mundial de GT Elétricos com um Tesla GT.

As metas para o futuro é continuar a ser reconhecido como um piloto extremamente rápido e conseguir voltar onde eu pertenco que é as corridas a tempo inteiro e ser tambem reconhecido como Engenheiro Mecânico do qual sou formado.

F&N - Durante estes anos não se abriram portas de empresas angolanas que possam patrocinar a sua actividade?Nao existem benefícios mútuos nesse tipo de patrocínios?

RT - Enquanto estava a ser patrocinado pela Sonangol tal como referi antes, era um patrocinio exclusivo, que não é nada de anormal nesta área, acontece o mesmo com, por exemplo um Alonso que é patrocinado exclusivamente pelo Santander ou o Sergio Perez, que é patrocinado pela Telmex, e etc, por isso nunca houve uma procura de outras empresas nacionais.

Logicamente que existe inúmeros benefícios para as empresas estarem envolvidas neste meio, por isso é que as maiores empresas do Mundo estão envolvidas no desporto motorizado. Não acredito que estejam só porque gostam de gastar dinheiro, mas sim porque apesar de patrocinarem, têm um retorno bastante mais elevado do que o valor que patrocinam.

Dito isto, claro que para mim seria uma honra defender as cores de alguma empresa nacional que queira estar envolvida comigo no campeonato que estiver a participar continuando a promover o nome do nosso País, conquistando vitorias pelo Mundo todo.

F&N - Estar na alta roda do mundo automobilístico implica, creio eu, custos elevados.Como é que o Ricardo gere?

RT - Infelizmente, mesmo quando estava na Fórmula 1, nunca tive uma estrutura que me ajudasse, então estive constantemente em sufoco e a ser ajudado com grandes dificuldades pela minha família e, também, por pessoas no meio da própria Fórmula 1 que apostaram em mim e que mantenho uma amizade grande, para que continuasse focado no meu objectivo.

F&N - Sendo um atleta de certo modo profissional-e desculpe se o de certo modo está a mais, como é o seu dia a dia?

RT - Este desporto para mim é uma profissão e é muito exigente, sendo necessário uma dedicação muito grande. Quando não estou para fora em corridas, eventos ou trabalhos de desenvolvimento, tenho uma vida de atleta de competição, treino muitas horas, tenho uma alimentação muito cuidada e tento preparar me totalmente para o que vem a seguir em termos de trabalho. Faço tudo que me mantenha focado e preparado. 

F&N - Nessa sua vida automobilística quais as melhores recordações que guarda e as piores.Justifique-nos porque?

RT - As melhores recordações são os tempos que estive na Formula 1, tanto na Williams F1 Team como no Team Lotus F1, porque foi chegar a um patamar em que só menos de 40 pilotos (se incluirmos os pilotos oficiais e os pilotos de testes)  em milhares de pilotos federados e que milhões de pessoas sonham chegar, e ter sido o primeiro e único  angolano e somente o segundo piloto em todo o continente africano na história a conseguir chegar à Formula 1 torna esse sentimento ainda mais especial. Fui muito abençoado.

Apesar de ter tido varias situações negativas durante a minha carreira, não consigo dizer uma ma recordação, pois todas as situações que aconteceram, boas e menos boas ajudaram me a evoluir tanto como piloto e como homem. 

F&N - No mundo automobilístico tem ídolos. Quais são?

RT - O único ídolo que tive foi o Ayrton Senna,  piloto fenomenal, foi unico. Neste momento tenho pilotos que admiro pela dedicação, tais como o Fernando Alonso e o Lewis Hamilton.

F&N - À distancia, como tem acompanhado o desenvolvimento de Angola, seu País? Sabe que se organizam algumas provas amadoras de automobilismo. Alguma vez já o convidaram para ir mostrar diante do seu publico as suas habilidades?

RT -Sinto muito orgulho no crescimento do meu País, sim quando estou fora acompanho tudo, tanto pela minha família, amigos e pelos média. Acho que estamos no bom caminho e temos que mostrar ao mundo que somos grandes.

Sim sei, que sao provas muito engraçadas de ser ver e a quem deixo, desde já, a minha admiração a todos os pilotos que nelas participam e aos seus organizadores que tanta dedicação e amor por este desporto demonstram, mas infelizmente eu não posso participar, Nós não temos ainda uma federação de automóvel reconhecida pela FIA, e como eu sou piloto internacional com super licença e com ranking de piloto Gold na FIA, não estou autorizado a participar em qualquer corrida amadora, por muita pena minha.

F&N - Fora das pistas de corrida, é um homem que gosta de velocidade?

RT - Eu adoro velocidade, é a minha vida, mas o engraçado é que fora das pistas não tenho a necessidade de andar depressa, até sou um condutor bastante tranquilo e,  além disso, também sou embaixador da Road Safety e tento controlar-me para dar o exemplo.

F&N - Porque enveredou para esse desporto?É o único que pratica.?

RT - Quebrei uma geração de judocas. O meu Avo dava aulas no Judo Clube de Luanda e o meu Pai foi atleta de Judo, varias vezes campeão nacional e ganhou diversos títulos internacionais.

Eu tive um tio e uma tia que faziam o campeonato nacional de velocidade. Uma curiosidade, sabiam que o grande Emerson Fittipaldi chegou a guiar no Autódromo de Luanda?

Desde pequenino que era fanático por carros e depois quando, por sorte, tive contacto com o meu primeiro kart nunca mais quis largar. Desde que me lembre, ser piloto foi a única coisa que quis ser é a minha vida.

F&N - Fora das pistas como é o Ricardo,a sua família acompanha-o em corridas e incentiva-o?Onde quer chegar? Um regresso à Formula Um está no horizonte? 

RT - Em pista sou um piloto que arrisca muito e agressivo. Fora das pistas, sou totalmente o contrario: Muito tranquilo, quando tenho aqueles momentos livres, gosto muito de ler, estar tranquilo, passear as minhas cadelas, estar com a minha família e amigos, relaxar.

A minha família é o meu maior suporte, sem o apoio deles nunca teria conseguido alcançar nada. Sim, eles tentam acompanhar-me para todo o lado, somos uma família muito unida, que me torna graças a esse apoio uma pessoa muito forte psicologicamente.

Fórmula 1 é uma categoria que já alcancei e me mantive durante 5 anos, por isso um regresso com os apoios certos seria mais fácil e especialmente porque mantenho um bom relacionamento com a maior parte dos donos das equipas. Mas também há um mundo fora da Formula 1. Estou a ser bastante reconhecido pelas marcas oficiais onde tenho feito muitos trabalhos na área de Superprototipos e GT´s (Gran Turismo). 

F&N - Quando abandonar a competição, um dia que gostaria de fazer?

RT - Quero continuar sempre ligado à competição. No futuro, quando encostar o capacete quero continuar ligado à competição e às marcas oficiais como engenheiro mecânico (curso tirado na Universidade de Birmingham) e como agente de pilotos novos. 

 

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