ÁFRICA

 
17 de March 2021 - às 17:11

República Democrática do Congo PARA ONDE VAI O PRESIDENTE TSHISEKEDI?

Confortado pela maioria obtida no parlamento, Félix Tshisekedi espera realizar reformas à sua medida, livre da tutela do então aliado Joseph Kabila. Para começar, desenha um governo com o limite máximo de quarenta membros. A intenção é a de poupar recursos públicos. A sociedade civil já o pressiona, exigindo dele uma gestão “mais justa e equilibrada”. 

 

Um responsável do comando militar norte-americano para a África (AFRICOM) vê oportunidade para ajudar a RDC a preparar uma “nova geração” de oficiais capazes de restabelecer a paz e a segurança ameaçada por rebeliões e proliferação de milícias étnicas no leste do país.
A queda do governo de coligação dirigido por Sylvestre Ilunga Ilunkamba, acção apoiada por uma maioria parlamentar de 367 pro-Tshisekedi de um total de 382 deputados, põe fim à tutela de Joseph Kabila que se impunha como travão às reformas políticas e económicas.
Como se sabe, Ilunkamba caiu por força da moção de censura na Assembleia Nacional a 27 de Janeiro.
Durante quinze meses à frente de um governo de coabitação, Ilunkamba (peça-chave da então maioria) viveu, desde a sua nomeação em Maio de 2019, bloqueios forjados por Joseph Kabila com a finalidade de inviabilizar acções de Tshisekedi.
André Alain Atunda, porta-voz da FCC (pro-Kabila), qualificou a queda do governo como consequência de uma “política egoísta” praticada pelos seus adversários, crítica directa aos apoiantes de Tshisekedi e um sinal de dificuldades de aceitar a derrota.
Apelando para o “diálogo”, segundo Radio Okapi, Atunda criticou “interesses pessoais” e “represálias”, os quais atribuiu ao vencedor da nova maioria parlamentar, numa alusão a uma série de abandonos dos membros da FCC que passaram para o campo pro-Tshisekedi.
O ganho imediato consiste em Tshisekedi formar um gabinete não condicionado à caução da maioria até então detida por Joseph Kabila no seio da extinta coligação eleitoral (Tendência para a Mudança - CACH e Frente Comum para o Congo –FCC).
Para já, Tshisekedi pretende ter um país governado por um gabinete de até quarenta membros, segundo declarações de Bahati Lukwebo, porta-voz, à estação de rádio Top Congo.
Num artigo intitulado “Para racionalizar as despesas públicas”, o jornal Le Potentiel indica que a poupança dos recursos com a redução do tamanho do governo responde aos “desafios” nos domínios “sociais, económicos, de segurança e, sobretudo, da saúde pública”.
“Chegou a hora do redimensionamento”, um momento em que “Félix Tshisekedi deve imprimir medidas segundo a sua própria vontade”, escreve o articulista.
O jornal faz alusão ao desejo de ver Tshisekedi tomar “medidas políticas corajosas”, entre as quais privilegiar a nomeação de governantes tecnocratas “em detrimento de políticos menos empenhados”.
Noutro texto de opinião, um correspondente do Le Potentiel em Paris, Robert Kongo, apela para uma “uma sociedade mais justa e equilibrada” ao contrário de uma “falta visível de ética” por parte dos “delapidadores” que crescem no seio da classe política” como cogumelos” na RDCongo.
A luta contra a corrupção, proclamada como cavalo de tróia de Tshisekedi, deverá, segundo Robert Kongo, apoiar-se na erradicação do tribalismo, regionalismo e nepotismo. “O trabalho e o suor cederam lugar ao dinheiro fácil. Os cidadãos perderam a batalha pelo mérito a favor do tribalismo e da mediocridade”.
Robert Kongo adverte para a não repetição de episódios similares em que se viu protagonizado por Vital Kamerhe, ex-director do gabinete de Tshisekedi e promotor da sua campanha eleitoral. Kamerhe prometia “mudanças e ruptura” com más práticas. Já na governação, Kamerhe acabou por ser condenado a 25 anos de trabalho forçado por desvio de fundos públicos e encarcerado na cadeia central de Makala, em Kinshasa.

 

VITÓRIA DO P.R. TEM DE SER
DIVIDIDA PELAS “ALDEIAS”

Nova aliança deixou cair Kabila

Tshisekedi terá de repartir os frutos da vitória com aqueles de quem recebeu apoio para alcançar a maioria no parlamento e pôr fim à omnipresença do ex-chefe de Estado, Joseph Kabila.
Na prática, Joseph Kabila ditava as regras de jogo, sem estar na presidência, travando as acções de governação de Tshisekedi, ao ponto de as potências ocidentais o terem aberta e publicamente alertado para se libertar da “tutela” de Kabila.
Convém lembrar o empenho e protagonismo dos integrantes da nova aliança gizada à favor de Tshisekedi no âmbito da chamada “União Sagrada”, movimento destinado a mobilizar as forças políticas para formar uma maioria contra Joseph Kabila.
Chérubin Okende, deputado ligado à plataforma “Juntos para a Mudança” (pro-Moise Katumbi) foi quem remeteu à Assembleia Nacional a moção de censura assinada por 301 deputados, arma que accionou a queda da maioria pro-Kabila.
O ovo da vitória Tshisekedi deverá reparti-lo pela aldeia onde se destacam os novos aliados, nomeadamente Moise Katumbi (Congregação para a República) e Jean-Pierre Bemba (Movimento de Libertação do Congo).
Além de gerir a coabitação no seio da nova aliança, Tshisekedi deverá cuidar de restabelecer a paz e a segurança na região oriental do país, onde evoluem rebeliões, incluindo guerrilhas opostas aos regimes dos países vizinhos, e milícias étnicas.
AFRICOM, comando norte-americano em África, vê o novo quadro político na RDCongo como oportunidade para implementar apoio militar destinado a potenciar as forças armadas congolesas.
Andrew Young, comandante-adjunto da AFRICOM, disse haver já um trabalho “conjunto” com vista a definir “medidas a tomar para favorecer a estabilidade na RDC”.
Young, citado pela Radio Okapi, defendeu a “profissionalização” do exército congolês para um incremento das operações de manutenção da paz.
Para o responsável militar norte-americano, a intenção será o de formar “uma nova geração de chefes militares na RD Congo”.
Young espera que AFRICOM realize exercícios militares dirigidos pelos Estados Unidos da América centrados na profissionalização, nas melhores práticas em matéria de justiça militar e direitos humanos.
O embaixador norte-americano em Kinshasa, Mike Hammer, admitiu que “o engajamento do presidente Tshisekedi trouxe progressos concretos na luta contra a corrupção e para a protecção dos direitos humanos”. “Isto facilitou um alto nível de engajamento da cooperação no domínio militar”, indicou Hammer.
Depois da tomada de posse de Tshisekedi, os EUA e a RDCongo assinaram, em Outubro de 2020, um acordo no domínio da segurança. O facto simboliza o apoio norte-americano a Tshisekedi.

Copyright © Figuras & Negócios - Todos os direitos reservados strong>

Contato
Home
Acervo Digital