ÁFRICA

 
8 de maio 2018 - às 11:31

REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DO CONGO GOVERNO FORJA FRICÇÕES ENTRE IGREJA E OPOSIÇÃO

Confrontado com manifestações a exigir “eleições jᔠe a renúncia do chefe de Estado, Joseph Kabila, o governo do Congo-Kinshasa acusa a oposição de manipular fiéis católicos. O regime lançou o lema “mortes zero” para simbolizar o cunho pacifista e humano de actuação das forças de ordem e segurança face aos manifestantes. Debalde: acabou por não se livrar das responsabilidades pela morte dos participantes nas marchas por balas reais. A Conferência Episcopal Congolesa (Cenco) reitera engajamento na luta por um estado de direito. No entender da oposição, Kinshasa pretende distrair os cidadãos e desviar a atenção do problema central da crise

 

Estratégia frustrada - “Mortes zero” foram palavras utilizadas pelo regime do Congo Democrático para demonstrar a sua intenção de garantir a liberdade de manifestação e expressão dos participantes nas marchas de protesto anti-Kabila. 

Ao soldar-se em morte de civis, vítimas de balas reais, a presença da polícia nas ruas intensificou, no plano interno e internacional, o isolamento do poder preocupado em limpar a sua imagem. A condenação à prisão perpétua de um agente da polícia nacional congolesa, em Mbandaka, pode ser enquadrada na campanha de recomposição da imagem do regime. 

Segundo a rádio comunitária Okapi, o agente Obed Agbe Kingbelea matou o jovem Eric Boloko após ferimento por balas reais à queima-roupa durante uma marcha. “Muitos activistas dos direitos humanos em Mbandaka deploraram o carácter expedito do processo contra o agente, dizendo que isto visava simplesmente proteger os verdadeiros responsáveis dos massacres” contra activistas cívicos, comenta Okapi. 

Fazendo alusão aos responsáveis pelas mortes de manifestantes, Okapi cita um relatório de uma Rede das Organizações dos Direitos Humanos e da Educação Cívica (RODHCIC), o qual aponta casos de violação dos direitos e mortes quando das marchas de Janeiro 2018 e os respectivos responsáveis.

Paul Kabeya, Secretário-Geral da RODHCIC, denuncia o uso de gaz lacrimogénio para dispersar cultos, na maternidade de Delvaux e na paróquia de Saint Joseph, em Kinshasa, segundo a estação. Kabeya qualifica tais actos de “crimes de guerra”, conforme o “Estatuto de Roma” que proíbe ataques contra instituições religiosas, de ensino, da arte, da ciência e de acções de caridade.   

Além do homicídio a que aludem os activistas, a missão da ONU (MONUSCO) fez o balanço de mais de 100 activistas presos. Tal facto contraria as boas intenções enunciadas, o que, a nosso ver, levou Kinshasa a elaborar um discurso de culpabilização. 

 

Bispos exprimem unidade - Frustrada a estratégia de pacifismo, o Ministro dos Direitos Humanos, Marie-Ange Mushobekwa, atribuiu à oposição a responsabilidade por aquilo que apelidou de “manipulação” dos fiéis católicos, os quais se manifestam contra Kabila nas ruas por apelo do Comité Laico de Coordenação (CL), uma associação cívica ligada à igreja católica. Para Mushobekwa, os protestos estão ligados a “manobras” de instrumentalização dos fiéis visando “atrasar” os preparativos para as eleições por via da violência. 

Movida pelas declarações das autoridades, a Conferência Episcopal Congolesa (Cenco) reitera empenho na luta pelas liberdades. Em assembleia geral extraordinária, os bispos exprimiram apoio à associação cívica CLC, responsável, como se sabe, pela organização das marchas de protesto em Dezembro 2017, Janeiro e Fevereiro do ano em curso. “Não abandonaremos nunca o nosso engajamento em prol de um estado de direito”, lê-se no texto saído do evento. 

Na RDCongo, embora o episcopado não esteja implicado directamente na concepção e organização das marchas anti-Kabila, evita esconder a sua missão de incentivar os fiéis a serem partícipes do processo de transformações políticas. Em inúmeros apelos, os bispos posicionam-se a favor da renúncia ao cargo por parte de Joseph Kabila.  

Numa análise da posição da igreja católica congolesa, a rádio francesa RFI sublinhou o facto de o poder político não ter sido capaz de vergar os bispos e fomentar a divisão do clero. “Se alguns vêem uma igreja dividida, ela reafirmou, ao contrário, a sua unidade, determinação” e apoio “moral e unanimidade” ao Comité Laico de Coordenação (CLC), comenta a estação captada pela revista Figuras & Negócios.   

 

DISTRAIR O ELEITOR 

No entender da oposição, Kinshasa pretende distrair os cidadãos e desviar a atenção do problema central da crise. Como se sabe, o conflito gira em torno da data das eleições e da retirada de Joseph Kabila da chefia do estado. No poder desde 2006, o respectivo mandato expirou a 20 de Dezembro de 2016. Desde então, procurou modificar a constituição para brigar novo mandato. A comissão nacional eleitoral independente (CENI) anuanciou para Dezembro de 2018 as eleições presidenciais, legislativas e provinciais. 

Para Christophe Lutundula, um dos líderes da oposição coligada (Rassemblement de l´Oppositon), os responsáveis do governo, “os mesmos que reprimem, pilham e matam”, pretendem instalar um clima tendente a criar a impressão de que “cidadãos tencionam desferir um golpe de estado”.

Em relação ao afluxo de fiéis católicos aos protestos, Christophe Lutundula entende que o fenómeno tem a ver com o desejo de “todos construírem um espaço de abertura política antes das eleições”.

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