EDITORIAL

 
28 de fevereiro 2015 - às 19:57

REPENSAR O CARNAVAL

Uma polémica que se levantou devido a desclassificação, pelo júri, de um dos mais emblemáticos grupos carnavalescos de Luanda, o que obrigou sectores fortes da sociedade a questionarem a sensibilidade dos integrantes do juri quanto  a idiossincrasia do carnaval, em particular, e da essência cultural, hábitos e costumes do povo angolano.

 

 

Em Fevereiro, um acontecimento se destacou, o Carnaval, esta importante manifestação cultural de massas que em alguns países todos, dirigentes e dirigidos misturam-se e dançam cada um a sua maneira. Em Angola também, como de costume,  houve festa rija, na sua maioria de indole privada, ficando para o governo a responsabilidade de organização dos desfiles carnavalescos cujas atenções centrais aconteceram em Luanda. Este ano, ao contrário dos anteriores, o Presidente da República não assistiu ao desfile central dos grupos carnavalescos e, curiosamente, quanto a classificação dos grupos que desfilaram, se despoletou um assunto de suma importância que merece reflexão de toda Sociedade: que tipo de carnaval temos e queremos ter no futuro?

 

Uma polémica que se levantou devido a desclassificação, pelo júri, de um dos mais emblemáticos grupos carnavalescos de Luanda, o que obrigou sectores fortes da sociedade a questionarem a sensibilidade dos integrantes do juri quanto  a idiossincrasia do carnaval, em particular, e da essência cultural, hábitos e costumes do povo angolano.

 

O carnaval, já o dissemos, é uma das maiores festas populares de muitos países, uma oportunidade para dirigentes e  dirigidos sairem a rua satirizando as realidades sociais de diversas formas e feitios. Em Angola, a festa no tempo colonial conseguiu atingir o apogeu a ponto de ser referenciada como uma das maiores expressões de massas com timbre internacional e vale recordar que em algumas das sátiras e musicas interpretadas pelos  grupos carnavalescos se confundia o governo opressor com mensagens onde já se reclamava a liberdade, e independência. Assim continuou e foram se mantendo  grupos que hoje, com mais de meio seculo de existência, mantêm-se firmes na dança de carnaval, evidentemente vestidos da nova realidade politica. Aliás, o carnaval em si sofreu profundas transformações políticas após o alcance da independência, que, em determinado período, obrigou a leituras excessivamente partidarizadas em função das opções de então, o que se mutilou a capacidade criativa da Sociedade.

 

A dinâmica de evolução do mundo, onde Angola não  está alheia, obrigou a alterações substanciais nas sociedades, o que, no nosso caso, entre outros aspectos positivos, exigiu ao ressurgimento do carnaval como uma verdadeira festa popular. Evidentemente que isto se regista numa altura em que está muito saliente o fenómeno da globalização, o que, se não bem entendido,-e parece ser este o caso de Angola,-se ignora facilmente as realidades intrínsecas dos ambientes onde se vive  e fácilmente se   apoia em cópias. Do ponto de vista cultural, isto não é só mau como muito perigoso porque descaracteriza o cerne cultural dos angolanos e leva-os a ser um povo sem identidade. No tocante ao carnaval, é importante que se reflicta sobre a sua evolução mas que não se perca o carácter de festa popular enraizada nas tradições culturais e na multiplicidade do seu Povo, pelo que tem de existir espaço para se fazer a necessária simbiose entre o antigo e o tradicional com o novo e moderno. Dai que seja com razão que se questiona a atitude do júri que, perdido apenas na subjectividade da leitura aritmética, se esqueceu da análise da  dimensão histórica e patrimonial dos grupos de carnaval, sobretudo os com mais de meio seculo de existência,  e que, do ponto de vista estrutural e estético, vêm se constituindo na espinha dorsal da tradição do carnaval de Luanda, e, por isso mesmo, balizas protectoras para que o  Entrudo não anuncie  a sua descaracterização ou, na mais pessimista das hipóteses, o seu fim trágico.

 

Não se moderniza nada ignorando-se a história e parece que é neste sentido que os "sábios da globalização" querem caminhar, e a prova mais evidente é como silenciosamente se desvirtua os valores mais nobres do carnaval com o argumento de que é preciso modernizar ignorando a ciência da tradição.

 

É verdade que os angolanos não podem estar de fora da dinâmica evolutiva que o mundo conhece mas mais importante de tudo é que se incuta na Sociedade a necessidade do debate amplo e aberto para a  definição consensual sobre os rumos que se pretende seguir. No caso do carnaval, parece que é chegada a hora de todos debaterem, sem complexos, sobre os caminhos que se pretende traçar para que a  manifestação popular de grande amplitude mobilize o interesse e adesão de todos e não fique na história como um simples feriado para descansar ou momento  para festas de quintal ou de salão conquanto as acções de rua se transformem em plágios de outras latitudes que culturalmente ficam distantes da realidade sócio-cultural dos angolanos.  

 

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