REPORTAGEM

 
26 de November 2019 - às 09:08

RECORDANDO OS FACTOS, DITOS E FEITOS DE AGOSTINHO NETO

 

EM MEMÓRIA DO  PRIMEIRO PRESIDENTE  DA REPÚBLICA DE ANGOLA

1922 - As cinco horas do dia dezassete de Setembro nasce Agostinho Neto em Kaxicane, freguesia de S. José, conselho de Icolo e Bengo, Distrito de Luanda, filho de Agostinho Neto, catequista de Missão americana em Luanda, sendo mais tarde pastor e professor nos Dembos, e de Maria d Silva Neto, professora.

1934 - A dez de Junho obtém o certificado da escola primária, que frequentou em Luanda.

1937 - Os seus pais mudam-se para Luanda, onde Agostinho Neto prossegue os seus estudos secundários no Liceu Salvador Correia.

1944 - Completa o 7º ano dos Liceus, obtido no Liceu Salvador Correia, de Luanda.

  • Sendo funcionário dos serviços de saúde deixa Angola e embarca para Portugal, a fim de frequentar a Faculdade de Medicina de Coimbra.
  • Integra-se e participa nas actividades sociais, politicas e culturais da secção de Coimbra da Casa dos Estudantes do Império, com sede em Lisboa, que esteve sob o regime compulsivo de “direcção administrativa” (nomeada pelo Governo) desde 1951 até 1957.

1947 - Surge o grupo que actua sob o lema “vamos Descobrir Angola”, que dá origem ao Movimento dos Jovens Intelectuais de Angola de que Agostinho Neto foi elemento integrante, embora vivendo em Portugal.   

1948 - É concedida a Agostinho Neto uma bolsa de estudos pelos Metodistas americanos.

  • Transfere a sua matrícula para a Faculdade de Medicina de Lisboa, cidade onde passa a residir e onde continua a sua actividade cultural e politica no seio da Casa dos Estudantes do Império.
  • Funda em Coimbra, com Lúcio Lara e Orlando de Albuquerque a revista Momento, na qual colabora.

1950 - Publicação em Luanda, da revista Mensagem, órgão da Associação dos Naturais de Angola, de que se publicaram 4 números (2 cadernos, sendo o ultimo em 1952, no qual Agostinho Neto colabora).

  • Preso pela PIDE, em Lisboa, quando recolhia assinaturas para a conferência Mundial da Paz de Estocolmo ficando encarcerado durante três meses.
  • Em Lisboa, Agostinho neto, de parceria com Amilcar Cabral, Mário de Andrade, Marcelino dos Santos e Francisco José Tenreiro fundam, clandestinamente o Centro de estudos Africanos, que tinham finalidades culturais e políticas orientadas para a afirmação da nacionalidade africana.

1951 - Representante da Juventude das colónias portuguesas junto do MUD - Juvenil (Movimento de unidade democrática - Juvenil) português.

  • Novamente preso pela PIDE, em Lisboa,

1951 - As autoridades policiais acabam com o centro de Estudos Africanos, fundado no ano anterior.

  • Em Lisboa, “com trabalhadores marítimos angolanos funda o Club Marítimo Africano, correia de transmissão entre os patriotas angolanos que se encontravam em Portugal e os que, em Angola, preparavam os Alicerces do movimento de libertação”.

1955 - Preso no mês de Fevereiro e, posteriormente, condenado a dezoito meses de prisão.

1956 - Uma petição internacional circula nos meios intelectuais a pedir a sua libertação que, em França é assinada por nomes altamente prestigiados, como aragon, Simone de Beauvoir, François Mariac, Jean-paul Sartre e o poeta cubano Nicolás Guillén.

  • Em Setembro realiza-se em paris o 1º congresso de escritores e Artistas Negros, no qual participaram escritores das colónias portuguesas, tais com Marcelino dos Santos, e onde foi lamentada a ausência de Agostinho Neto.
  • A 10 de Dezembro funda-se o MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola, a partir da fusão de vários movimentos patrióticos, encontrando-se Agostinho neto, nessa data, nas prisões de Lisboa.

1957 - Solto das prisões da PIDE no mês de Julho.

1958 - A 27 de Outubro é licenciado em medicina pela Universidade de Lisboa e no mesmo dia casa com Maria Eugenia Neto.  

  • Toma parte na fundação do Movimento Anticolonialista (MAC). Que congregava patriotas das diversas colónias portuguesas para uma acção revolucionária conjunta nas cinco colónias portuguesas: Angola, Guine, Cabo Verde, Moçambique, S. Tomé e Príncipe.

1959 - A 29 de Março, em Luanda, efectuam-se prisões massivas de nacionalistas proeminentes e assiste-se a uma escalada de terror policial.    

  • Em Julho irrompe novas escaladas de terror, mais prisões massivas e sequentes julgamentos em que são aplicadas penas severas aos militantes do MPLA.
  • Nasce em Lisboa, o seu primeiro filho, Mário Jorge Neto aos 9/11/58
  • A 22 de Dezembro, de 1959 acompanhado da mulher e do filho Mário Jorge, de tenra idade, deixa Lisboa regressando a Luanda, onde abre um consultório médico.
  • Agostinho neto ocupa a chefia do MPLA, em território angolano.

1960 - Eleito Presidente Honorário do MPLA.

  • 8 De Junho de 1960 é preso em Luanda. As manifestações de solidariedade diante do seu consultório médico e na sua aldeia são esmagadas pela polícia. Transita para cadeia do Algarve em Portugal, Pouco depois é deportado para o arquipélago de Cabo Verde, ficando instalado na Vila de Ponta do Sol, ilha de Santo Antão; depois transita para Santiago até Outubro de 1962.

1961 - A 4 de Fevereiro é desencadeada a luta armada pelo MPLA, com assalto as cadeias de Luanda, seguindo-se uma forte repressão.

  • A 5 de Fevereiro realiza-se o funeral dos policias mortos durante os ataques as prisões de Luanda e urdem-se pretextos para um massacre sobre os patriotas angolanos.
  • Agostinho Neto é preso na cidade da Praia, ilha de Santiago, Cabo verde e é transferido para as prisões do Aljube, em Lisboa, onde deu entrada a 17 de Outubro de 1962.  

1961 - Campanha internacional em prol da libertação de Agostinho Neto. A revista Présence Africaine dedica um número especial a Angola e condena severamente as autoridades fascistas portuguesas, expondo o receio pela vida dos prisioneiros, incluindo Agostinho neto, formulando um apelo universal contra os torturadores da PIDE.

  • The Times publica manifestações de protesto contra a prisão de Agostinho Neto, assinadas por figuras de mais elevada craveira intelectual, como o historiador Basil Davidson; os romancistas – Day Lewis, Doris Lessing, Iris Murdoch, angus Wilson, Alan Silitoe; o poeta Jonh wain; o crítico de teatro inglês Kermeth Tynan; os dramaturgos jonh Osborne e Arnold Wesker.
  • A propósito da resposta inaceitável por parte das entidades portuguesas à denúncia feita por aqueles intelectuais, estes desencadeiam novo e veemente protesto.
  • A peguin Books edita o livro Persecution 1961, da autoria de Peter Benenson, denunciado a situação de nove prisioneiros políticos, entre eles Agostinho Neto, através de artigos para a Imprensa e em carta para a embaixada de Portugal, solicitando os cuidados urgentes, para melhorar a situação de saúde de Agostinho Neto, que se temia pudesse tuberculizar.
  • Fica preso nas prisões do Aljube, em Lisboa, até Março de 1963.
  • Solto das prisões, em Lisboa, com residência fixa na capital portuguesa. Em Junho de 1963 vade-se de Portugal com sua mulher Maria Eugenia Neto e os filhos, Mário Jorge e Irene Alexandra, chegando a Léopoldville (Kinshasa), onde o MPLA tinha a sua sede Exterior.
  • Eleito presidente do MPLA durante a Conferência Nacional do Movimento.

1963 - O MPLA instala-se em Brazaville em consequência da sua expulsão do Congo (R. do Zaire) que passou a dar o apoio total a FNLA.            

  • Abertura de uma frente em Cabinda – a Segunda Região politica - Militar.

1966 - Abertura de nova frente no Leste de Angola - a Terceira Região.

1968 - Transfere a sua família para Dar-es-Salaam onde continuará até 1975.

1970 - Galardoado com o prémio Lotus, atribuído pela 4ª Conferência dos Escritores afro-asiático.  

1974 - A guerra nas colónias, componente determinante, conduz a Revolução dos Capitães, em Portugal, a 25 de Abril.

  • Apenas em Outubro o novo regime português reconhece o direito das colónias a independência, após que o MPLA assina o cessar-fogo.

1975 - Em 4 de Fevereiro regressa a Luanda.

  • Está presente no encontro de Alvor, em Portugal, onde é acordado estabelecer um “governo de transição” que inclui o MPLA, Portugal, FNLA e UNITA.
  • È recebido pela associação Portuguesa de Escritores, na sua sede em Lisboa, que assim o quis homenagear, sendo presidente José Gomes Ferreira e vice-presidente Manuel Ferreira. Acompanhado de sua mulher, Agostinho Neto agradece as saudações que lhe foram dirigidas por José Gomes Ferreira, e apela para que os escritores portugueses continuem fiéis e interessados no processo revolucionário angolano.
  • Em Março, a FNLA declara guerra ao MPLA e inicia o massacre da população de Luanda. Agostinho Neto lidera a resistência popular e apela a mobilização geral do povo para se opor à invasão do pais por forças estrangeiras, pelo Norte e pelo Sul, que procuram impedir o MPLA de proclamar a independência.

1975 - A 11 de Novembro é proclamado seu presidente, continuando Comandante-em-Chefe das forças Armadas Populares de Libertação de Angola e Presidente do MPLA.

  • Membro fundador da União dos Escritores Angolanos, criada em 10 de Dezembro de 1975.
  • Foi o primeiro Reitor da universidade Agostinho neto.
  • Presidente da Assembleia Geral da União dos Escritores Angolanos, cargo que desempenhou até a data do seu falecimento.
  • Reconhecimento da República popular de Angola por mais de uma centena de países.

1976 - O exército invasor Sul-Africano é expulso de Angola a 27 de Março.

1977 - Em 10 de Dezembro cria o MPLA – Partido do Trabalho

1979 - Preside à cerimónia do encerramento da 6ª Conferência dos Escritores Afro – Asiáticos, realizada de 26 de Junho a 3 de Julho, proferindo o discurso de encerramento.

  • A 10 de Setembro, Agostinho Neto falece em Moscovo.

 

In "Portal da Fundação "Dr António Agostinho Neto". 


 

A POESIA DE NETO

COM OS OLHOS SECOS

Com os olhos secos

-estrelas de brilho inevitável

através do corpo através do espírito

sobre os corpos inânimes dos mortos

sobre a solidão das vontades inertes

nós voltamos

 

Nós estamos regressando África

e todo o mundo estará presente

no super-batuque festivo

sob as sombras do Maiombe

no carnaval grandioso

pelo Bailundo pela Lunda

 

Com os olhos secos

contra este medo da nossa África

que herdámos dos massacres e mentiras

 

Nós voltamos África

estrelas de brilho irresistível

com a palavra escrita nos olhos secos

 

-LIBERDADE

Original dactilografado. Arquivo fls. 219/220.


 

ÓPIO

Casaram-me com a tristeza!

A minha terra

negra e de sol

-a minha Mãe-

que entoa magoadas melodias

em noites de festa

quando a lua ri

e a enigmática floresta

farfalha ritmos de jazz,

-a minha Mãe-

deu-me Tristeza em casamento

quando nasci.

ve infância

nem mocidade

não tive a alegria

da primeira idade

por causa deste noivado prematuro

e senil.

 

Meus pesados dias são ilusões

meus prazeres amarguras

a Felicidade e a Vida

sonhos.

 

Eu próprio sou uma ilusão

Sou a irrealidade

Sou sonho.

 

Porque a realidade é a Tristeza

e não a quero assim

 

Para a esquecer

e olvidar meus amores

os meus ideias

fumo ópio.

 

-Eu sensualizo a Vida:

bebo o brilho da luz

quando trabalho ao sol

queimando os ombros nus

gozo o sadismo do fogo

quando danço à fogueira

e a lenha contorce

sofrendo

como o meu sofrimento

amarfanha a alma.

 

Gozo

gozo ingenuamente

a fingir que não sofro;

choro como quem ri!

 

Fumo o meu ópio

para sonhar.

Coimbra, 1947

 

 

IRENE ALEXANDRA NETO

“O OBJECTIVO DE APAGAR AGOSTINHO NETO FALHOU”

São passados, exactamente hoje, 97 anos do nascimento de António Agostinho Neto e, desde o dia 10 último, 40 anos do seu passamento físico. Ícone da Luta de Libertação Nacional, proclamou a independência a 11 de Novembro de 1975 e foi Presidente da República por escassos, mas intensos, 4 anos.

Na entrevista que concedeu ao Jornal de Angola (feita por Isaquiel Cori), e que a seguir publicamos, Irene Alexandra Neto, filha de Agostinho Neto (AN) e PCA da Fundação Dr. António Agostinho Neto (FAAN), fala da perspectiva de comemoração do Centenário do nascimento deste Herói Nacional e do trabalho da FAAN em prol da conservação e promoção da memória do seu patrono. “Existem ainda textos literários e documentos de António Agostinho Neto por tratar”, revela a entrevistada

Confirma que o Centenário do Nascimento de Agostinho Neto, a assinalar-se em 2022, vai ser comemorado com muita pompa?

A Fundação Dr. António Agostinho Neto iniciou desde o ano passado a sensibilização das pessoas e instituições para o 1º Centenário de Agostinho Neto. Nestes primeiros cem anos, ainda existem pessoas que o conheceram, que comungaram com ele das mesmas convicções, que caminharam juntos ou que tomaram caminhos divergentes. É um centenário importante por essa razão, pois seguir-se-ão outros, mas as próximas gerações não terão vivido a mesma epopeia. A organização de eventos requer sempre antecipação, preparação, financiamento e todas estas premissas realizam-se com tempo. A FAAN considera o Centenário um marco simbólico que permitirá revisitar a figura deste singular personagem, que se destacou e marcou a história contemporânea do nosso país, na segunda metade do século XX.

Será certamente a ocasião para se relembrar Agostinho Neto no país e fora das nossas fronteiras. O Centenário é deveras importante, porque a vida do Dr. Agostinho Neto durou apenas 57 anos. Mais de 43 anos são marcados pela sua ausência, o que por si nos leva a pensar e acreditar que Angola seria diferente se o seu ciclo de vida fosse normal e mais longo do que foi. Nesse sentido, mais do que um aniversário, o Centenário será um momento para avaliar o que foi feito e o que não foi feito, o que foi descontinuado e que redundou em perdas e recuos enormes para os angolanos. Recorde-se que, em 1978 e 1979, Agostinho Neto dedicou-se afincadamente à pacificação de Angola, tendo retirado a capacidade bélica e logística à FNLA, tendo feito as pazes com o Zaire e iniciado contactos com a África do Sul e com Jonas Savimbi, para terminar a guerra. A verdade é que tudo isto foi descontinuado. E as consequências são as que nós conhecemos.

Concretamente, como é que está a ser desenhado o Centenário? Que tipo de actividades vão fazer parte das comemorações?

A FAAN criou a Comissão 20-22 Preparatória do Centenário de Agostinho Neto, que integra personalidades e instituições diversas, que podem sugerir e executar actividades distintas, conforme as facetas dominantes na vida e obra de Agostinho Neto. Estaremos assim a assinalar a sua contribuição política, militar, económica, literária e a sua visão para a saúde, a educação, a agricultura, a governação. Haverá igualmente que tratar a sua estratégia para a África austral e a solidariedade com os outros povos. As actividades serão de toda a ordem, pois há ainda muito por se fazer, por se inventariar e organizar. Há muitas pessoas por ouvir. Há muitos documentos e fotografias por recolher ou digitalizar. A memória oral e documental deve ser fixada de várias formas, em suportes digitais e em papel. Tudo isto requer um trabalho constante, minucioso, de grande dedicação, de procura de fontes, de produção de publicações. Quando surgem os lançamentos de obras, esses acontecimentos são pequenos e fugazes momentos de alegria pelo trabalho concluído e pela partilha com o público. (P.G.). 

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