SOCIEDADE

 
2 de outubro 2016 - às 05:26

QUALIFICAÇÃO DAS PESSOAS: ALAVANCA DE DESENVOLVIMENTO LOCAL?

A qualificação das pessoas (em especial dos jovens), o crescimento sustentado e a coesão social são um triângulo (e uma premissa) muitas vezes difícil de concretizar no contexto local, sobretudo em quadros em que o desenvolvimento não procura nos factores endógenos os seus trunfos e no local (no território) as suas razões.

 

O investimento feito em educação/formação, pelas famílias e pela sociedade, tem sido muito significativo, mas nem sempre tem promovido o desejado efeito de alavancagem ao desenvolvimento local sendo, pelo contrário, responsável pelo acentuar de desequilíbrios, sempre penalizadores para os territórios mais afastados dos centros de decisão.

E esta é uma problemática que nos deve preocupar pelas consequências, quer no plano individual (dos jovens, sobretudo), quer no plano da sustentabilidade do desenvolvimento local (da economia e do emprego), um “drama” que as pessoas e os territórios periféricos enfrentam no modelo de desenvolvimento, a que temos assistido na(s) última(s) década(s) em Angola.

Podemos estar perante um paradoxo.

A promoção da qualificação dos jovens é apresentada como uma prioridade estratégica do desenvolvimento, sempre desejável para as populações e para os territórios, mas quando focamos a análise nos territórios locais, como é exemplo Benguela (e mais ainda o município do Bocoio, p. ex.), percebe-se que o acesso a melhores qualificações tem constituído, frequentemente, a razão próxima para “sair” e fixar residência (e trabalhar), vulgarmente, na “grande cidade”, como Luanda e arredores, acentuando as disparidades e assimetrias regionais litoral-interior. Um litoral onde tudo se concentra e um interior que se desvitaliza(ou).

Perante esta constatação, o que fazer? Que dinâmicas individuais e colectivas a desenvolver? Que políticas públicas locais/regionais conceber e implementar?

São múltiplas as possibilidades, não existindo uma fórmula única e mágica para inverter a tendência actual, de fixar os jovens aos seus territórios de origem fazendo deles parceiros activos do desenvolvimento.

Uma das vertentes possíveis passa pelo associativismo jovem (jovens benguelenses qualificados, por exemplo), como fórmula agregadora de iniciativas que visem o aumento da empregabilidade, nomeadamente na criação do auto-emprego, da inovação e na identificação de novos nichos de negócio, apropriados para localizações de charneira, como a do Cubal ou Balombo, de proximidade relativamente ao Eixo Urbano Lobito-Catumbela-Benguela.A esta ideia podem associar-se políticas, e interesses públicos tanto locais como nacionais. E, nem sequer trazemos como exemplos municípios e comunas mais interiores e, consequentemente, mais periféricos relativamente às iniciativas e às oportunidades que, mesmo tenuemente sempre vão surgindo aqui e alí, quase sempre na proximidade das vias de maior acessibilidade e dos maiores aglomerados urbanos (os interiores do Moxico e do Cuando Cubango, etc.)

Uma sugestão seria (aproveitando a recuperação e adaptação de espaços/edifícios “desactivados”, nos municípios) criar um espaço vocacionado para o Empreendedorismo (centro, gabinete, escola, …), que numa parceria público‑privado (?) ou associativa desenvolvesse acções que potenciem a iniciativa e o investimento.

Esta iniciativa teria, ainda, a possibilidade de dinamizar a emergência de novas oportunidades de negócio e de desenvolvimento nesses municípios, como as ligadas ao “cluster” do turismo/lazer/cultura, como é exemplo da importância da exploração dos sítios de interesse paisagístico, patrimonial, ou outros, localizados na Província.

Para além desta sugestão, podem-se equacionar outros mecanismos que favoreçam a opção dos jovens em permanecer em municípios da Província (interior), a par da criação de emprego através de negócios próprios, como  sejam os incentivos ou facilidades para aquisição de terrenos e para a construção de habitação.

As crises, com tudo aquilo que trazem associadas a elas, podem, simultâneamente, originar dificuldades, limitações e até retrocesso em diversos aspectos mas também podem/devem constituir oportunidades reais a iniciativas que sejam minimamente visionárias e que associem o voluntarismo ao realismo e à correcta percepção do risco.

Vejo este momento que o país atravessa como uma espécie de “revelação” (forma de aceder a um determinado conhecimento pela experiência directa desse conhecimento) que propicie o aparecimento de associações de empreendedores, de gestores (ou aprendizes de gestor) que em conjunto, organizada e cooperadamente, dinamizem a base económica, as dimensões sociais e culturas dos territórios, promovendo a coesão social e afirmando-se como parceiros esclarecidos nos processos de desenvolvimento.

Desde sempre que sabemos que “cada um por si” dificilmente provoca a mudança mas, em conjunto, concertadamente, é possível “mover montanhas”, e este país bem que precisa dessas dinâmicas.

Algumas iniciativas de criação, relançamento ou, mesmo, de refundação de associações viradas para estes propósitos e preocupações já deram sinais muito interessantes dessa “revelação”, mais notadas sobretudo em contextos de segunda linha, acompanhando nomeadamente o surgimento do ensino superior em localidades que até há bem pouco tempo estavam apeadas desses processos (ensino superior e actividades afins).

O que é curioso e digno de registo é que algumas dessas associações “ressuscitaram”, após marasmos de alguns anos ou décadas, agregando fundadores com novos protagonistas, juntando experiência com vitalidade, num compósito que tem tudo para resultar. E resultar com sucesso!

Vamos acompanhar com atenção o projecto da AGELCA – Associação de Gestores e Empresários do Lobito e Catumbela, perceber a sua raiz mas também as suas dinâmicas, objectivos, metas, resultados, fragilidades, fortalezas…, entendê-la como um todo e nas suas partes, trazê-la como paradigma, modelo… enfim, fazer da AGELCA um “caso de estudo”, uma aprendizagem, que possa servir para replicar quando e onde houver interesse e interessados em fazer valer a força do colectivo em proveito de todos, promovendo a competitividade em simultâneo com a partilha de boas-prática.

E essas boas‑práticas podem dar origem, por exemplo, a uma incubadora de empresas, e se essa incubadora de empresas registar 25% de sucesso ao fim de dois anos teremos novas iniciativas empresariais, e assim sucessivamente….

A administração pública, no seu todo, deve estar sensível e disponível para funcionar como facilitadora, e não como “rolo burocrático” que tudo esmaga e complica as iniciativas que congreguem vontades e indiciem quereres, mesmo que se apresentem inicialmente um tanto difusos.

Mas o absurdo está sempre à espreita atrás da porta!

Não consigo compreender as razões que impedem que um qualquer cidadão nacional possa constituir uma “sociedade unipessoal” em qualquer uma das províncias, à excepção de Luanda e Bengo, sendo necessário que, para isso, a sede da sociedade fosse … em Luanda ou no Bengo. Dizem que é por inexistência ou inoperacionalidade do sistema informático, que impede que se efectue o registo, pois as Conservatórias têm competência territorial. Pode-se fazer quase tudo … menos o registo. Ou seja, estamos perante a forja de dois tipos de angolanos: os de Luanda/Bengo e os outros. Uma Lei, uma prática, dois países (duas e duras realidades).

Muitos de nós já fizemos tudo (ou quase tudo) para termos os mesmos direitos, já que os deveres… como esses não têm contemplações, mas desconseguimos!

Por tudo isto e muito mais ainda alguns se admiram quando questionamos, e dizemos, que temos um país a duas velocidades, sem nos apercebermos que o grande esforço que muitos fazem, que aliás é legítimo e não censurável, é passarem, logo que podem, da segunda para a primeira velocidade e, dessa forma, irem atafulhar ainda mais Luanda (abandonando o país mais profundo), num nítido ciclo de degradação contínua.

É tempo de nos autocentrarmos, de apostarmos nas forças que temos, nos factores endógenos (próprios, internos…), que podem muito bem estar catalisados nas pessoas (nos jovens) e na sua qualificação, descomplexada, progressiva, incremental, dirigida para o saber-fazer e com visões prospectivas, com a empregabilidade no seu cerne.   

Copyright © Figuras & Negócios - Todos os direitos reservados strong>

Contato
Home
Acervo Digital