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23 de dezembro 2015 - às 07:19

PSICÓLOGOS JOÃO PAULO GANGA E ENCARNAÇÃO PIMENTA “OS PROBLEMAS COMPLICADOS DE UMA SOCIEDADE DOENTE”

O ano está a terminar e, nesta altura repetimos as reportagens sobre o Natal e o final do ano. Muitas vezes esquecemo-nos que falar da harmonia destas datas, é hipocrisia, quando não pensamos nos maus momentos que fizeram parte do nosso ano e sobre os quais devemos reflectir como forma de preparar melhor o seguinte. 

Antes de atermo-nos pensarmos em comemorações e festejos, urge pensar no ano que se avizinha, pegarmo-nos numa grande reflexão sobre o ano que agora termina. E diga-se em abono da verdade,  2015 foi recheado de atropelos com vários fenómenos que surgiram na sociedade.

Ao longo do ano, falamos de problemas como a falta de energia eléctrica e água potável, corrupção, o acesso à educação e saúde, e embora se conheçam pulos significativos nestas áreas, é importante sabermos que antes de tudo, existem entre os jovens questões que precisam de ser vistas com olhos clínicos, como é o problema do respeito e Amor ao próximo. Problemas que têm sido deixados para trás mas que precisam de ser vistos como muito sérios.

A mentalidade jovem precisa de transformação de forma que ainda se consiga arranjar um porto seguro para onde se leve o barco que quase se afunda. Através de uma conversa com dois especialistas bem conhecidos da nossa praça social conheçamos um bocado mais a fundo os fenómenos com que a sociedade convive hoje, como forma de pensarmos cada um na mudança que só assim, caminharemos para o real resgate de valores que a sociedade angolana precisa. 

Uma conversa que sem ser propriamente uma entrevista, atrevi-me a chamar-lhe um “atiçar as feras” num debate animado com os psicólogos João Paulo Ganga e Maria da Encarnação Pimenta

 

Figuras & Negócios (F&N) - Balanceando o ano de 2015, olho para a realidade social angolana como uma realidade caótica. Parece-vos exagero? 

João Paulo Nganga (JPN): Primeiro, devemos pensar que vivemos numa sociedade completamente nova, onde os valores, os costumes, as práticas, os pensamentos e acções da nossa sociedade, não têm nada a ver com a sociedade que tínhamos há 10 anos. O país mudou completamente, do ponto de vista social, do pensamento e das práticas. As pessoas que temos hoje, não têm nada a ver com a geração que as precedeu. Portanto, as respostas que vamos ter de encontrar, hoje, são completamente novas para problemas completamente novos também. Só pensarmos na diferença que existia entre jovens e velhos, hoje esbateu-se. Porque hoje os jovens têm acesso à muita coisa que as pessoas antes tinham apenas na idade adulta, tanto em termos de entretenimento, relações afectivas, trabalho... A posição que um mais velho outrora levava muitos anos para ter, é hoje dada a um jovem em dois tempos. Deixamos de ter a sociedade tridimensional, que era nascimento, vida e morte. Pulamos etapas e o nascimento, a vida e a morte hoje podem acontecer num único dia. Portanto, a dinâmica social apresenta-se de tal ordem  que nos leva a repensar tudo. Por isso é que devemos ter cuidado, para que as respostas que tínhamos no passado, não sejam as mesmas. A título de exemplo, pensemos num jovem de 25 anos, recém formado e director de uma grande empresa. Hoje acontece, antigamente havia a progressão da carreira, aprendizagem, experiência. Portanto, havia a maturação laboral, e hoje há catapultação de jovens a posições chave. A realidade, hoje, vai implicar que tenhamos uma sociedade diferente, e assim vamos ter que aprender a conhecer e lidar com a nossa sociedade, e visto não termos muitas respostas ainda, estamos todos a viver o processo de aprendizagem.

Encarnação Pimenta (EP): As pessoas estão a viver uma situação de mudança brusca, fundamentalmente relacionada com a situação económica. É importante contabilizarmos estes problemas que vivemos com papel e lápis, porque só assim, podemos medir o somatório do peso que temos nas nossas costas. O problema da falta de água, falta de energia... e, mesmo, o problema económico que entrou de uma forma invasiva, encontrando, todo mundo na contramão, afectaram directamente a vida das pessoas. 

F&N - João Paulo, o que afinal estamos a fazer da nossa sociedade?! O que é isso de aceitação? Afinal aquilo que é transportado para a nossa sociedade, que até não tem nada a ver com a nossa angolanidade, devemos aprender a conviver? 

JPN: Aceitar apenas que a sociedade é dinâmica. Agora a questão colocada da defesa da nossa identidade é muito importante. Nós temos uma personalidade própria como angolanos, e somos as pessoas que mais atacamos esta personalidade, porque não temos a ideia da valorização do que é nosso, ou seja, é mais fácil valorizarmos o que vem de fora, do que aquilo que é nosso. Se pensarmos na escola como instituição fundamental, o saber produzido nas nossas escolas, não é tão valorizado como o saber produzido nas escolas do estrangeiro. Portanto, para defendermos o conhecimento da nossa sociedade, teríamos de valorizar a nossa escola, dotá-la de conhecimento, apetrechá-la, fazer dela uma escola moderna. Mas nós procuramos sempre que possível ir frequentar as escolas no estrangeiro. E, depois, quando viemos do estrangeiro, não apetrechamos o conhecimento dessas mesmas escolas, acabando por esvaziar a nossa própria escola, que é o principal factor de sociabilização. Vejam que o kuduro, criado como manifestação angolana, há 10, 15 anos, já não é o mesmo hoje. Os angolanos que vieram da África do Sul e Namíbia, foram lhe juntando ao afrobeat, e hoje já nem sabemos distinguir o que, na verdade é  kuduro ou não. As nossas novelas, são uma réplica do que passa no Brasil, por exemplo, a sexualidade, a forma de vestir... nós hoje deixamos de defender a nossa própria identidade. Quer dizer, fazemos questão de querer fazer como os outros fazem, esquecemo-nos de fazer imperar o que é nosso. Até as igrejas, que pregavam o discurso do evangelho, da boa nova e do Amor ao próximo foram deixadas para trás, em detrimento de um discurso da necessidade. E as pessoas, hoje, perderam a noção da solidariedade e vivem egocéntricas. Se olharmos para as prisões domiciliárias que hoje vivemos, vemos que cada um sabe apenas de si e acabou. A guerra terminou  há 13 anos, mas as pessoas continuam fechadas dentro das suas casas, e isso não faz parte da nossa cultura. Nós somos de cultura aberta, em que as famílias devem se cruzar..Mas agora, não há transmissão de testemunhos entre mais velhos e mais novos, as pessoas têm vergonha de falar a língua nacional. Nós hoje fazemos apologia do valor capital, quem tiver isso e aquilo, está inserido na sociedade, e quem não tiver vive à margem. Mas essa sociedade, é de valores, de mitos, culturas, sonhos... mas os angolanos são os maiores impulsionadores da aculturação, infelizmente.

Um exemplo que dou é a página do Jornal de Angola que fala sobre as pessoas. E quase no fim, pergunta-se às pessoas: Defende a homossexualidade? E a resposta é, defendo. Defende a poligamia? E esta é, não!

F&N - Impensável, se calhar há uns vinte anos, que uma sociedade como a nossa fosse defender antes a homossexualidade do que a poligamia? 

JPN: Pois, as pessoas para quererem estar bem, preferem defender uma aberração que é a homossexualidade, do que dizerem que é normal o Homem ter muitas mulheres, desde que assuma e as respeite, que faz parte da nossa cultura. A cultura homossexual que temos estado a importar mostra o  medo de nos assumirmos e dizer que é cultura errada e que não nos pertence. Portanto, nós angolanos temos medo de sermos nós próprios dentro do país. Medo de nos assumirmos. As pessoas vão percebendo que ser angolano não dá lucro e enveredam para as batatas fritas, em vez do funge, do inglês, em vez das línguas nacionais.

F&N - Falemos senhora Psicóloga do fenómeno amantes que a nossa sociedade hoje vive, e que é entendido como poligamia? A sua obra intitulada “Amantes, concubinas ou esposas”, espelha uma poligamia secreta. Porquê viver ela secreta se faz parte de nós? 

EP: Foi exactamente por isso que escrevi esse livro. Eu gostaria que a sociedade toda lê-se, e compreendesse o fenómeno, que para mim tem várias explicações. Aliás, o livro tem um subtítulo, que é “uma poligamia sincrética, secreta. Uma poligamia desestruturada”. Porque nós nunca tivemos casamentos monogámicos; os casamentos em África, em Angola, são sempre poligâmicos; ou seja, sempre houve poligamia. Ela está desestruturada. Porque o casamento monogámico é apenas uma imposição da igreja católica, inclusive eu ponho lá um histórico sobre isso. Na altura, procurei uma grande figura que desenvolvia bem este tema, o falecido  Mendes de Carvalho. Trago muitas informações que ele me deu a respeito da poligamia que o próprio defendia. Tudo para dizer que o fenómeno não é bem o que pensamos. No final do meu livro, ainda deixo um conselho ao Estado angolano, isso para acabar com a poligamia, se quiserem. As cartas de pedido devem ser levadas a conservatória para serem reconhecidas, porque se assim for, é reconhecido o casamento tradicional, que é por excelência, para nós angolanos e africanos, o casamento fundamental. Você pode ir agora aos EUA ou a Inglaterra casar-se, mas quando chegar aqui, aos olhos do angolano, você não casou. Você traz um documento de lá mas que aqui não vale nada.

O sincretismo nos casamentos é, de facto, essa mistura que há. As pessoas vão à igreja, vão à conservatória, dão tanto show, mas, no fundo, o Homem está a pensar como polígamo. Que, depois de dois ou três dias, ou volta para a namorada antiga ou vai apanhar a primeira rapariga na esquina. Mas o meu livro também fala da Mulher, que hoje temos milhentas senhoras casadas, até pela igreja que têm os seus amantes, por razões várias, como é a questão dos assédios sexuais nos serviços, retaliação porque o marido andou com A, B ou C, a questão do poder económico... Em resumo, nós não temos monogamia no país, simplesmente, desde 1933, altura que os casamentos foram obrigados, pareceu ser que as nossas mães, foram felizes porque só tiveram um marido. E aconselho mais a todos os jovens, leiam o livro de Mendes de Carvalho, que se chama “Ritos especiais”. Esse explica muito bem como aparecem, também, os casamentos pela igreja e a não aceitação, na altura, por pessoas cristãs, alguns até eram catequistas... Nós não somos uma ilha em África. Somos mesmo africanos, e eu vou ser franca, todos os homens angolanos pensam como polígamos. Fingimos que não sabemos, mas sabemos perfeitamente o que os nossos maridos fazem na rua, e é um orgulho para nós mulheres angolanas, sabermos que o nosso marido é viril. Como recebo casos aquí no consultório de mulheres que se entristecem e acham anormal que os maridos não saiam de casa, ou não sabem que o marido tem uma namorada! por isso digo, é patológico, faz parte da cultura... A mulher angolana gosta de ouvir dizer que o seu marido tem outras namoradas e sentir-se ameaçada. E a realidade está no caso apelidado de Gindungo, onde um Senhor  casado, aparece no tribunal diante de uma história cabeluda com a “amante”, com quem tem um filho. É desestruturada porque são casos escondidos e que as pessoas fingem não aceitar, mas que ela existe, existe. Muita gente anda aí muito bonito, abraçados na tv e revistas, mas em casa, nem se falam. Andam abraçados apenas por causa dos cargos e dos dinheiros. Como não entrar a palavra “amante” nesta relação?

F&N - E agora queremos perceber da psicóloga de onde vem este crescimento da homossexualidade na nossa sociedade?

EP: A homossexualidade não tem só um factor hormonal, como se quer justificar. Uma parte de facto tem a sua génese na questão biológica. Mas as orientações sociais para este ou aquele comportamento são também uma realidade. Relativamente à questão das violações, as pessoas que são violentadas na infância, sobretudo por membros da família, dependendo da forma como foi o primeiro acto sexual, podem, de facto no futuro enveredar para a homossexualidade. Não é aleatório, mas tenho muitos casos desses no meu gabinete. Muitas meninas até acabam por ter filhos mas depois deixam de sentir prazer por relações heterossexuais e mudam de orientação.

F&N - Indiscutivelmente, as línguas estrangeiras são hoje factor importante para um bom emprego e/ou outras aberturas. Mas aí está, vamos aprender o que é do outro, o que começamos de muito novos, sem sabermos o que é nosso? Olhamos à nossa volta e, todo o africano, fala pelo menos uma língua Bantu, o que é raro acontecer em Angola.. É triste olharmos para os resultados da valorização que damos às línguas nacionais. Mas é verdade que não é bem um problema actual...

JPN: Isso é problema das elites. Ou seja, as elites que assumiram o poder em Angola, recusaram as línguas nacionais. Há uma mentalidade, que é herança do colonialismo, de que Angola é uma ilha isolada em Africa. E essa mentalidade fez-nos pensar que somos portugueses de Angola, falar a afinar, seria um passaporte para a modernidade, e as línguas nacionais, seriam o resquício de um passado selvagem, menos desenvolvido. Portanto, era importante libertarmo-nos. A independência em vez de fazer esse corte umbilical com a assimilação, aumentou, ou seja, quanto mais assimilada for a pessoa, nos seus costumes, hábitos e linguagem, mais prestígio social tem. Mas não encontramos esse problema apenas na linguagem, mas na tonalidade da pele, por isso é que temos o problema do complexo de inferioridade no país. Pessoas escuras a quererem ficar claras, pessoas escuras que querem casar com mulatos ou brancos, porque acham que existe um adiantamento da raça.. portanto, este fenómeno vem das elites que institucionalizaram, não de forma oficial mas nas suas práticas, este conceito.

Em qualquer país do mundo, normal, as línguas são a envoltura material do pensamento, vê-se aí o peso da civilização. Portanto, as línguas são uma riqueza. Já entre nós, dizem as elites  erradamente, que as línguas nacionais são factor de desunião. Mas como? Se a diversidade é que une as pessoas? Nós em África somos realmente mal olhados, andamos isolados e não pensamos como africanos. O que, a prazo, vai trazer-nos muitos problemas.

F&N - Mas essa questão de elites, é relativa.  Sinceramente, não se percebe o que forma as elites na sociedade angolana. Hoje em dia, queremos todos fazer parte da elite. Não existe diferenciação nenhuma nas classes sociais.. 

JPN: É o desespero da participação social. As pessoas querem participar em grupos. O grupo que vem sendo uma forma de afirmação... Quando o grupo dominante tem uma postura, quer todo mundo fazer parte dele. Ninguém quer ser derrotado, ninguém quer ser perdedor. E hoje, o soberano das relações é o capital, e é ele que apagou a distinção das elites. Não interessa de que maneira, o importante é ter. Por isso se debate essa questão dos valores. Hoje em dia se eu roubar e enriquecer, as pessoas não querem saber. Vender droga se for para me enriquecer, "tá" tudo bem. Interessa fazer parte do mundo do capital. E a partir daquele momento, estou nas elites e aí sou respeitado e aceite por todos, ostento um prestígio. Quer dizer, vivemos numa selva de pedra; na sociedade do vale tudo. Tem de se resgatar as Instituições que eram as famílias, as igrejas e as escolas.. Porque não podemos avançar sem referências, principalmente as morais.

EP - Existe uma necessidade muito grande de auto-realização. E esta necessidade é como quando temos uma carência afectiva. Este comportamento do angolano, de se querer afirmar, aparece como compensação. É como um bebé. De manhã, depois do banho dado, vestidinho, papinha boa, ele tem ainda a necessidade de brincar. A mãe, que não pode porque tem ainda a lida da casa por fazer, pega em muitos brinquedos, de várias cores e espalha pelo chão. Estes objectos, são todos de compensação, não é a mãe!

As pessoas, apesar das várias perdas que tiveram, receberam várias novidades. E se você for fazer um estudo, as pessoas que se comportam dessa maneira, vêm de um passado carente. Muitas mesmo nascendo na cidade, sempre comeram massa com massa, ou arroz com arroz. Não estou aqui a ofender ninguém, estou a falar da realidade. Ora, quando as pessoas têm as coisas ao seu alcance aparentemente, querem apenas obter de qualquer maneira. Ponho-a à prova: Ponha-se em frente a uma rua com várias montras, e olhe a maneira como um europeu passa por elas e a maneira diferente que o angolano passa. As pessoas procuram compensar os traumas e carências nos bens materiais; e outra questão muito patente, é o querer aparecer. Nós angolanos, em vez de mostrarmos individualidade no saber e naquilo que podemos fazer para mudar a sociedade, procuramos aparecer de uma maneira triste. Não é à toa que ouvimos muitas vezes a questão: “Quem pensas que sou?”.. Ou em muitos óbitos de ministros e outras individualidades, pessoas que nem sequer conheciam o falecido, e se dão o desfrute de aparecer, para “aparecer”, para vender imagem. Eu fico perplexa com esta atitude. 

Não podemos ter um grande carro quando nem lugar para estacionar temos, por isso vemos pessoas a viverem dentro dos carros. Dar festas de muito dinheiro e no dia seguinte, ir pedir sal à vizinha; ou, mesmo, dar festa de casamento no valor de 10 milhões de kwanzas, quando nem sequer casa para viver os nubentes têm. Por outro lado, chamo aqui atenção, principalmente às meninas, para terem muito cuidado. Muitos homens, esses "papoides" como são carinhosamente chamados, têm doenças e é-lhes imposto envolverem-se com crianças, e, então, eles dão esses carrões e outros adornos caríssimos, sim senhor, mas para deixar-vos cheias de doenças. Porque sexualmente não são satisfeitos, muitos deles até são impotentes sexuais. E estas meninas ficam com as suas almas vendidas; porque aquele carro, apartamento e outros bens que recebem, e que aparentemente parece ser muito, não passam de um caixão.

F&N - João Paulo, ocorre-lhe dizer algo sobre o melhoramento destas questões a nível das famílias, igrejas e escolas?

JPN: Uma delas é a troca do modelo de desenvolvimento. Hoje o nosso modelo assenta na produtividade. As pessoas saem de casa para produzir, e essa produção é uma troca salarial. As pessoas produzem e são pagas. É um modelo que esvaziou totalmente a família. Temos de ter um modelo social que assenta na pessoa humana, ou seja, teríamos de aprender com a nossa tradição, em que o capital não tinha tanta força. Temos de ter uma sociedade de inclusão, pois estamos a ter um país onde mais de 40% da população, trabalha no sector informal, não tem regalias sociais. Preocupante! Porque estas pessoas, têm inveja daqueles que trabalham, e se calhar por motivos. Porque, temos hoje pessoas de 40 anos que nunca trabalharam. E são chefes de família. Como vamos educar esses filhos se não temos poder de compra, não temos capacidades? Outro problema é o conteúdo das instituições. Temos instituições completamente despidas de angolanidade. Por exemplo, num hotel da cidade de Luanda, tem tudo, mas nada diz que estou num hotel em Angola. É como se estivesse num hotel em Paris, Nova Iorque ou noutro lugar qualquer. Temos de angolanizar as nossas instituições. Numa ocasião em que trabalhava com franceses na biografia do músico Bonga, eles perguntaram-me onde estava o semba, pois que para o mundo, o Bonga é o embaixador desse estilo musical. A história, a escola, a angolanidade de que falamos, não são representadas pelas nossas instituições. Hoje é mais fácil encontrarmos escola de kuduro em Paris do que em Luanda. Outro exemplo é que em Portugal sentámo-nos nos cafés, mas em Angola, os jovens preferem estar na rua a beber. Quer dizer, há qualquer coisa errada, porque a nossa cultura é de liberdade. Não é bom entrarmos para um café onde não haja liberdade. As pessoas precisam de se rever. Somos um país independente, mas as instituições e o seu funcionamento não representam os angolanos. E outra questão é a económico-financeira. Nós temos de criar uma sociedade mais igual. Se não o fizermos, todas as tentativas de melhorar a vida das pessoas e criar valores, é nula. Porque se não almocei, o discurso do amor ao próximo, do resgate de valores e tantos outros, tornam-se completamente vazios.

F&N - A falta do empoderamento das nossas famílias é por acaso das coisas que mais tenho debatido. E tenho estado, também, a fazer uma ligação muito grande com a aceitação das nossas mães a tudo. Outrora, por exemplo, a menina não chegava a casa com uma única caneta estranha, que a mãe perguntava de onde tirou. Hoje, entramos num dia com uma câmara fotográfica caríssima, no dia seguinte com um carro topo de gama, até entrarmos em casa com a chave de um apartamento com a notícia de que nos vamos mudar para a casa própria. Mas isso, sem a mãe saber quem deu tais coisas. E mais grave, vêem-se casos em que a filha leva a mãe para a sua casa. Ora, uma filha que não faz nada da vida... 

JPN: As mães, nesse aspecto, têm pouca culpa. Porque o modelo de desenvolvimento de que falávamos, que assenta no capital, é de tal ordem brutal, que matou e retirou qualquer defesa que a família tinha. Portanto, hoje a família é refém deste modelo de desenvolvimento. Porque a prostituição deixou de ser um problema, para acudir a sobrevivência. O corpo que ontem era uma espécie de último reduto, hoje a mulher ou o entrega ou fica pelo caminho. Se no passado os homens namoravam para ter acesso ao corpo da mulher, hoje têm acesso ao corpo, para depois namorar. As mães e famílias aderiram a este modelo; as que não aderiram, são uma ilha isolada. Hoje a corrupção é institucional, já é quase um direito. A própria noção do corpo e do afecto foi completamente transformada. E pronto, estamos a caminhar para uma sociedade totalmente violenta. Porque deixamos de saber o que é o bem e o mal, onde tudo vale. Porque, aliás, é marginalizado quem não pensa assim. Estes são os valores que as pessoas hoje têm. Mas estamos a obrigar as pessoas a rirem quando devem chorar. Estamos a fazer uma sociedade de pessoas muito cínicas, hipócritas e falsas. Isto vai redundar numa sociedade completamente preversa.

F&N - Claro, porque daqui a mais algum tempo, à semelhança da prostituição e corrupção, vamos começar a ver, também, a delinquência como forma de sobrevivência...

JPN: Sim. Amanhã vamos ver que a matança de pessoas é uma coisa normal, sendo somente importante  protegermo-nos do nosso ego. Há uma substituição do interesse nacional pelo  privado. Portanto, há uma privatização das funções do Estado. Este que devia zelar pelo interesse de todos, passou a zelar pelo interesse de uma elite. Essa elite dissemina a visão que as pessoas têm de viver das migalhas dadas por eles. E essa luta das migalhas, esse “safe-se quem poder”, vai levar-nos para um país cada vez mais violento. O perigo maior, é termos um discurso de aparente resgate de valores, quando a prática desmente totalmente. As pessoas que normalmente fazem esse discurso, potenciam a falta de resgate. O desafio da juventude como motor do desenvolvimento social é, ou deixa-se levar por isso, ou cria uma nova sociedade, através da criação de pequenas ilhas que depois podem se tornar num grande oceano, para que mais tarde possamos ter uma nova sociedade. Porque hoje, apesar dos bens materiais, da satisfação pessoal, encontramos pessoas com menos auto-estima, e algo não está muito bem. O angolano cada vez mais perde o amor próprio. Conseguimos ver a sociedade, hoje, mais triste, mais vazia, as festas são mais caras, mas há menos alegrias. Existe uma insatisfação muito grande. 

EP: E se não se inverte a realidade enquanto há tempo, esse país vai caminhar para o caos. Lembro-me que há uns anos atrás, no programa da rádio Ecclésia “Conversas de Rádio”, eu dizia que o alcoolismo dentro de uns anos iria aumentar, eu dava os números mesmo. Inclusive no meu livro “Eventuais causas e consequências da delinquência”, eu trago um estudo sobre isso, e mostro que as crianças começam a alcoolizar-se cada vez mais cedo. Hoje temos grandes exemplos em casa de quem promove. As crianças de 8 anos, bebem o champanhe infantil. Aliás, os oito livros que já escrevi até agora, espelham perfeitamente os problemas de delinquência infantil que a nossa sociedade vive, e aponta soluções para que estas venham a ser sanados. 

F&N - O João Paulo falava de uma insatisfação sem medida que o angolano apresenta no seu dia-a-dia. Podemos apontar como grande causa do uso de bebidas alcoolicas e de outras drogas, essa insatisfação?

JPN: Sim, o uso das drogas é um grande sinal de insatisfação social. A sociedade está desencontrada, e há um axioma que diz que o primeiro sinal da insatisfação é a busca do prazer. Porque quem está satisfeito já não busca prazer. Portanto, essa sociedade que precisa de festas todos os dias, que bebe e usa drogas todos os dias, é uma sociedade em busca da alegria que ela não tem. Porque se tivesse a alegria, apenas celebrávamos a vida. 

F&N - O acesso a essas drogas, que vai sendo cada vez mais facilitado, é ainda mais preocupante...

EP: O meu livro “Eventuais causas e consequências da delinquência em Angola”, explica um bocado que problemas como a guerra e as necessidades que as pessoas tinham foram fazendo com que essa fosse uma forma de sobrevivência. E as crianças, acabaram por, muitas vezes, ser as vendedoras e, depois também, usuárias destas drogas. Mas reparem que há uma grande base de negligência e, também, de ignorância por parte dos pais e outros membros da família. A ignorância é, também, um dos grandes factores que leva com que as mães, de forma normal, usem as bebidas durante a gestação, amamentação e criem uma habituação à criança, por outro lado, existe uma carência muito grande do trabalho pedagógico por parte da comunicação social, à semelhança da propaganda para o uso das bebidas alcoólicas que andam aí espalhados pela cidade.

Há programas televisivos que até incitam os jovens e crianças a consumirem bebidas alcoólicas. Dizer que a bebida alcoolica é um grande condimento da delinquência e que o Estado deve tomar esta como uma situação de estado e não como situação apenas das famílias e de boa vontade, ou de pessoas como eu, assanhadas, que volta e meia, vamos batendo nesta tecla. Esta deve ser uma situação de reflexão profunda, e todos nós tomarmos a consciência disso. E fazermos um trabalho a nível de manuais escolares, outdoors e igrejas para, então, ajudar a monitorar essa questão do uso do álcool e outras drogas.  

JPN: Muito grave! E para reforçar o pensamento, há uma droga muito grave e complicada, que é a droga do prazer sexual. No passado, com a poligamia havia a instituição da pessoa que tinha várias, mas assumia estas mulheres. Hoje em dia há a promiscuidade. Uma pessoa tem muitos parceiros, mas aqueles parceiros nada mais expressam do que o desespero emocional desta pessoa. Porque nenhuma das relações é seria e nem para durar. Depois vamos tendo os problemas de saúde pública, doenças venereas e outras. Para já, o problema é sobretudo emocional.. como é que uma pessoa todos os dias muda e quer experimentar um parceiro diferente? Portanto, temos uma sociedade com problemas sérios de bebidas, drogas, sexo ilícito, explícito, que infelizmente tem se vindo a agravar. Porque quando vamos ver mais a fundo, estes são problemas que precisam de ser financiados. As drogas precisam de laboratórios, de um circuito de distribuição e comercialização.. Estamos a falar de crime organizado, que está a acontecer em paralelo com a erosão das famílias. E este mercado de crime organizado, tende a se transformar numa indústria, se não fizermos nada. Se hoje está a perigar apenas a sociedade, amanhã vai fazer frente ou controlar o próprio Estado!

F&N - Infelizmente, a globalização para nós é trazermos para a nossa sociedade, somente aquilo que não presta..

JPN: Pois é. As nossas elites fazem isso. Conseguem ir para o Dubai, trazem só o que lhes dá prazer e o que não presta. E não trazem uma ideia de como é que aquilo ficou bonito para fazerem o mesmo. É estranho! Põem os filhos a estudar em Portugal, e quando vêm, trazem só o pior que Portugal tem. Não tiramos ideias do bem que os outros fazem ou têm. Vemos, por exemplo, a venda de agua nos sacos, as elites não percebem que podia se industrializar aquilo e fazer água potável  e vender aquele preço, pondo pessoas a trabalhar. É como o maruvo que se vende na Funda.. porque não o industrializamos? Porque ao invês de consumirem whisky, não se industrializa o maruvo para bebermos? Quer dizer, o nosso saber não é respeitado. A política de empoderamento e de respeito pelo saber angolano é posta em causa pela raiva que sentimos disso.

F&N - Aliás, estou-me agora a lembrar de um concurso/apresentação internacional há cerca de dois anos, e que nós angolanos, levamos para apresentar à internet. Ao invês da kissangua, alembamento e outras coisas realmente nossas, que aliás esquecemos ...

JPN: E é triste que as elites recusem! Se um velho ou jovem, que estiver em Malanje ou no Bié, e que tenha uma ideia, é rara que essa ideia tenha um âmbito nacional. Porque as elites fizeram de Luanda, Angola. Quer dizer, voce é obrigado a vir a Luanda e estar nos seus costumes e procedimentos  para ser ouvido. Mas ai de ti que faças referência que és do mato tal.. Por isso é que um jovem que esteja nesse momento no Kuando Kubango, dificilmente se revê como angolano. Hoje já existem dois casos concretos, que são as Lundas e Cabinda, mas se continuar assim, o resto do país, vai começar a perceber que ser angolano não interessa, porque não se revêm nisso.

F&N - E nós antigamente, falávamos mal das pessoas daquelas zonas. Mas hoje somos gente e conseguimos ver que, afinal,  eles, desenvolveram muito antes de nós.

JPN: Exactamente! E vai ser um efeito contagioso. Agora, apenas a sociedade está a erodir mas depois, vai ser o Estado também com certeza, o que poderá criar mais situações desagradáveis. Cada um faz um país, guerras aqui e ali... Porque as pessoas não se revêm. Os mais velhos gostavam de beber um caporroto ou um kimbombo que podia ser transformado... Quer dizer, o Uísque ou o Conhaque, começaram assim. Alguém criou e depois houve um investimento mais sério. Aqui, existe um ódio pelo que é nosso. Você até tem vergonha de ser você próprio. Agora, uma coisa que a juventude tem de bom, ela questiona. E questiona porque não se revê neste modelo. Há qualquer coisa que não bate certo. Basta tu pensares que, quando chega o 11 de Novembro, a própria elite não sabe o que comemorar. Passa a vida a repetir as mesmas coisas, fala-se sempre das mesmas pessoas... As pessoas estão cada vez mais isoladas, mais separadas. E isto vai trazer distúrbios graves. Costumo dizer que os meus filhos não vão me amar como amei a minha mãe, porque o investimento que a minha mãe fez na família, é de tal ordem, que ela teve essa recompensa. Nós não estamos a fazer esse investimento da mãe conhecer o filho só de olhar, saber o que se passa, ou se ele esconde algo. As famílias estão muito afastadas e os pais cada vez menos conhecem os seus próprios filhos. 

F&N - O interessante livro de Encarnação Pimenta “Até dizem que o meu filho já se droga”, espelha bem este fenómeno que a nossa sociedade, à semelhança do mundo, vive. Aliás, hoje damos mais valor ao material do que a nossa própria família.. Estou a lembrar de casos que os filhos fazem coisas aberrantes e que os pais ainda encobrem, privando-os do que é a verdadeira educação...

JPN: Não há noção. Porque a relação pai e filho, hoje é uma relação mercantil. Ele tem de ir para a creche, eu pago, tem de ter roupas, eu pago, tem de ter acompanhamento médico, eu pai pago, quando quer ipads ou outras coisas, eu pai dou. Quer dizer, é uma relação triste. O importante é o filho não chorar no colo dele. Ele não se chatear com o filho, não passa tempo a brincar com o filho. Não acompanha nada a ver com o filho. Este universo que as mães do passado tinham, as mães hoje não têm. E antigamente elas tinham muitos filhos e carregavam bem o património de cada um. Hoje em dia, é impensável. Alguma coisa está muito mal na nossa sociedade. Há uma erosão do Amor  que não estamos a dar conta mas vai rebentar connosco.

F&N - A dimensão imaterial é hoje pouco acreditada, é visível. Falamos dos filhos como falamos dos maridos. Hoje, mulher que cuida do marido, ser sagrado, é burra. O Amor ao próximo não existe. Olhamos para o nosso dia-a-dia e vemos, na internet, a exposição da vida alheia..

JPN: Sim, a internet até espelha bem a participação do grupo, e a necessidade das pessoas serem estrelas. Você vê que há pessoas que têm contas no facebook, twitter, instagram, e em mais 5 redes sociais. Para quê? Se o tempo que ela tem nem lhe dá para duas ou três? Isso só porque as pessoas querem contar coisas das suas próprias vidas, que você fica espantado. Quer dizer, a própria intimidade, hoje, está perdida. Nós começamos por acabar com ela, como o outro vai respeitar? A noção de que a nossa intimidade deve ser partilhada com pessoas especiais, foi para o espaço. Porque achamos que assim somos cidadãos do mundo. E fazemos pior, quer dizer, aquela história de que o chinês ou o português chegam a Angola, e que em menos de um ano é mais um angolano, é preocupante. É preocupante como entregamos os lugares chave ao estrangeiro num pestanejar. Não há barreiras. A angolanidade não é preciosa. É triste! Porque na terra do outro, somos angolanos e acabou!

F&N - O nosso mercado de trabalho é um modelo exclusivo. A situação do estrangeirismo é uma mas existem outras tantas muito preocupantes, como o do respeito da vida humana.

JPN: As pessoas perderam-se! Nós vemos aqui directores que têm 3 casas em vários condomínios, de repente estão a dar mais uma, noutro lugar, e ele também quer, sabendo que há outros tantos com necessidades muito maiores e ignorando este dado. É doença, é uma insatisfação profunda que mesmo depois de se ter, estamos a precisar de mais. É uma situação muito complicada, muita violência! E, infelizmente, quem de direito não está preocupado com isso, porque para eles a violência é o sangue. E enquanto não há sangue, não há violência. Esse é um problema dos pretos. Não é essa sociedade que os angolanos querem. Não é essa a sociedade onde os angolanos se revêm..

F&N - É indiscutível que as novas tecnologias são um bem precioso. Mas eu gostaria ainda de debater esta questão mais como um problema, do que propriamente uma solução. O uso indevido das novas tecnologias, Dra. Encarnação. 

EP: As novas tecnologias aparecem como quando foi da pólvora. O que descobriu a pólvora não teve intenção de que fosse para dizimar a humanidade, é assim com as novas tecnologias. Elas são um dos grandes bens que DEUS inspirou o Homem a criar. Simplesmente, o ser humano tem a tendência de usar mal a sabedoria. Assim como Adão e Eva, fizeram mau uso do paraíso, continuamos a usar mal as coisas.  

F&N - E é verdade que a internet veio hoje desmantelar comportamentos que há muito aconteciam...

EP: É claro que estes crimes sempre aconteceram. Primeiro, nós quando olhamos para qualquer comportamento ou situação social, devemos olhar para a questão de proporção. Proporção, desenvolvimento económico-social, necessidades materiais, etc. 

Mas reparem que, anteriormente, por exemplo, já havia o incesto. Já havia a pedofilia, isso e aquilo.. Mas, de facto, as redes sociais vieram dar uma ajuda de certa medida, a fazer denúncia das situações que ocorrem. Porque os próprios prevaricadores acabam filmando e trazendo a tona, por um lado. Mas, por outro lado, também, não nos esqueçamos que tivemos um fosso de divórcio com a igreja, de quase vinte anos. O que aconteceu com o nosso país durante muitos anos, propiciou isso, com aquela fúria, muitos de nós dizia que DEUS não existia. Esta geração que hoje tem vinte, dezoito ou dezassete anos de idade, são filhos de pessoas que têm os seus quarenta e tal anos de idade, e são estes que, grande parte não beneficiou dos preceitos de que não matar, não roubar, não cobiçar as coisas alheias, amar o próximo como a si mesmo, respeitar pai e mãe, amar a DEUS sobre todas as coisas, e outros mandamentos da lei divina. O conhecimento destes mandamentos é que ajudavam a contornar o nosso comportamento e funcionavam como estrutura da personalidade, que é aquilo a que me refiro como super ego. Funcionavam como lei. E nós tínhamos medo de encontrar dinheiro na rua e apanhar, por exemplo. Porque sabíamos que algo havia de nos acontecer. O medo de roubar, mentir, e de fazer outras coisas que não iam de encontro com os preceitos, porque sabíamos que eramos punidos. Mas os pais que hoje têm 39, 40 anos, grande parte não tem estes preceitos e como ninguém dá o que não tem, não passam aos filhos. É assim que vemos que, hoje em dia as pessoas não estão importadas com o mal que fazem à vida alheia, vemos mediante julgamentos que acompanhamos, e as pessoas estão de rosto sereno. As pessoas ainda sentem que estão no direito de fazer mal ao outro. Isto é, por excelência, um comportamento anti-social. O ser humano tem três instâncias sociais; o lado físico, o mental e o espiritual. Nós alimentamos apenas os dois primeiros, esquecendo o mais importante, que é o espiritual. O que dá para as personalidades desiquilibradas, por isso acompanhamos na nossa sociedade este grande número de pessoas que não pesam o que fazem.

F&N - Dra. Encarnação, vou perguntar-lhe, o que as paredes do seu consultório sentem hoje vontade de expressar sobre os problemas vividos e/ou contados aqui durante o ano.

EP: (Risos) Este consultório, apesar de hoje receber casos de fora, a ver com Psicologia clínica, foi criado para cuidar de casos a ver com a psicologia estudantil. Mas durante o trabalho que fazemos com as crianças, acabamos por fazer também um trabalho de terapia familiar. Porquê? Por uma razão muito simples, a maior parte dos problemas que as crianças têm, que acabei espelhando no meu último livro “As 51 grandes eventuais causas de conflitos conjugais na zona asfáltica da África negra” advêm do conflito familiar. Então, acabamos por tratar não só a criança mas a causa desse problema, que é o conflito conjugal. Os casais muitas vezes desavindos, acabados por reconciliar, e fazemos assim uma terapia familiar, e por causa disso mesmo muitas pessoas vão nos batendo à porta. É um gabinete pequenino mas que conhece grandes histórias. 

F&N - É ponto assente que estamos diante de uma sociedade doente. Mas alcunhemos então a doença. 

JPN: Branquissite! Tenho dito a brincar, mas é o nome certo. Enquanto não tratarmos o saber dos pretos, como foi tratado e ainda é o dos brancos, e percebermos que antes do colonialismo chegar a Angola, já havia sociedade, não estamos a fazer nada. Ainda hoje a idade de Luanda de 400 e tal anos que conhecemos, é a Luanda nova, a colonial, criada por Paulo Dias de Novais. E antes dele? Quer dizer, enquanto não haver respeito pelas pessoas da pré história colonial, será muito difícil continuarmos e nos regozijarmos com a nossa Angola. Bem, mas somos cristãos e impulsiono todos aqueles que ainda são do bem a ter esperança. E que transmitamos aos outros, que a esperança deve se tornar realidade no nosso país. Sigamos pelo bem. 

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